Beto Barata/Estadão
Beto Barata/Estadão

Com dívida de R$ 1,6 bi, controle da Rodovias do Tietê pode passar para grupo italiano

Concessionária que administra 415 quilômetros de estradas em São Paulo busca saída para crise

Mônica Scaramuzzo e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 04h00

A AB Concessões, do grupo Bertin e da italiana Atlantia, firmou um acordo para comprar a participação de 50% da sócia portuguesa Lineas International na Rodovias do Tietê. O ‘Estado’ apurou que o valor a ser pago pela transação é simbólico, mas que futuramente a Atlantia poderá deter o controle integral da concessionária, que administra 415 quilômetros (km) de estradas em São Paulo.

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Leiloada em 2009 pelo governo paulista, a Rodovias do Tietê está com dificuldades para pagar uma dívida de quase R$ 1,6 bilhão e precisa implementar um plano de reestruturação para continuar de pé. O negócio entre AB Concessões e Lineas depende da aprovação desse plano, que prevê a redução da taxa de remuneração dos títulos de IPCA + 8% ao ano para IPCA + 3% ao ano. A proposta também altera a data de vencimento dos papéis de 2028 para 2035, o cronograma de amortização e os valores pagos em cada data. 

Se o plano for aprovado, a AB Concessões pode fazer um aporte de R$ 170 milhões, dividido em parcelas entre 2019 e 2021. Os atuais sócios da Rodovias Tietê são a AB Concessões (parceria entre Atlantia e Bertin), além da Lineas, com 50%. Na prática, o Atlantia, sócio mais capitalizado, colocaria boa parte do dinheiro, segundo fontes.

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Em nota, a Rodovias do Tietê afirmou está em “negociação com os debenturistas e que está envidando seus melhores esforços para a aprovação” do plano.

Desde o fim de 2017, a concessionária está com dificuldades para honrar as dívidas e tem queimado seu fundo de reserva para não ficar inadimplente. Na semana passada, a empresa conseguiu, mais uma vez, a aprovação dos credores para usar parte de sua conta reserva, desde que recomponha o valor até 30 de julho. O dinheiro foi usado para pagamento da remuneração e de uma parcela do valor nominal das debêntures (títulos).

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A empresa também conseguiu que os credores a dispensassem de cumprir os índices financeiros definidos no contrato dos títulos – os chamados covenants –, que ao serem descumpridos podem antecipar o vencimento das dívidas. 

Fontes ligadas aos debenturistas afirmam que, por serem um grupo heterogêneo e até desorganizado, a condução das negociações é maiss favorável aos acionistas. Faz parte desse grupo de credores mais de 15 mil pessoas físicas e fundos institucionais que compraram debêntures incentivadas (títulos de renda fixa sem cobrança de imposto de renda), em um período que esses papéis prometiam retornos atraentes. 

Dificuldades. Desde dezembro do ano passado, a empresa já está em “default técnico” (descumprimento de obrigações com credores). 

O problema da Rodovias do Tietê tem origem na precária situação financeira dos principais controladores e na crise econômica que reduziu a demanda nas rodovias. O Bertin está em recuperação judicial desde agosto passado, com dívidas de quase R$ 8 bilhões, e o grupo português, também em crise, não tem intenção de continuar no País. O sócio capitalizado é a italiana Atlantia, um dos maiores grupos de concessão da Europa, e que pode assumir o controle da empresa caso chegue a um acordo com credores, afirmam fontes a par do assunto.

A concessionária tem deixado importantes investimentos de lado. Por ser uma concessão, precisa cumprir uma série de obrigações para não perder o contrato. Uma delas é o investimento para melhorar a estrutura da rodovia. No fim do primeiro semestre de 2017, os investimentos obrigatórios estariam em cerca de R$ 2,3 bilhões. 

Procurado, Bertin não comentou. Atlantia e Líneas não retornaram os pedidos de entrevista.

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