Com dólar em alta, meta de inflação fica mais difícil de ser alcançada

Nos últimos 30 dias, a moeda norte-americana já subiu 11% e deve afetar o preço dos insumos e produtos importados, caso a alta se mantenha

Reuters, REUTERS

20 de setembro de 2011 | 14h32

O cenário para inflação, que já era preocupante, ganhou mais um sinal de alerta: a alta do dólar. Nos últimos 30 dias, a moeda norte-americana já subiu 11% e deve afetar o preço dos insumos e produtos importados. O efeito indesejado será a pressão de alta sobre os índices de inflação. Nessa terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a prévia da inflação oficial, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15). O resultado de setembro ficou em 0,53%, ante alta de 0,27% em agosto, e superou as previsões de analistas. A pressão veio, principalmente, de alimentos e passagens aéreas.

Economistas ressaltaram ainda que a alta dos custos de serviços - uma indicação de pressão de demanda - e a recente redução dos juros - de 12,5% para 12% - contribuem para uma perspectiva de alta para os preços, com possibilidade de não cumprimento da meta de inflação. Pela política do BC, o IPCA deve ficar entre 2,5% e 6,5%.  Para se ter uma ideia dos riscos para o cenário de inflação, em 12 meses até setembro, o IPCA-15 já mostra alta de 7,33%. Em agosto, essa leitura havia sido de 7,10%.

"A inflação anual (12 meses) está acima do teto da meta e as medidas de núcleo estão elevadas, complicando o trabalho do BC se ele se importa com a meta", disse o chefe de pesquisa econômica para América Latina do BNP Paribas, Marcelo Carvalho.

Quando reduziu a Selic, em agosto passado, o BC citou a possibilidade de um efeito deflacionário no Brasil decorrente do desaquecimento mundial. O mercado, no entanto, não está muito confiante nisso e continua elevando as previsões de inflação, enquanto cortam as da Selic.

A pesquisa Focus junto a analistas mostrou na véspera que os analistas projetam uma inflação de 6,46% neste ano e de 5,50% em 2012.

Mais pressões

Segundo o IBGE, os custos do grupo Alimentação e bebidas passaram de alta de 0,21% em agosto para 0,72% neste mês, com elevações de produtos como açúcar cristal e refinado, leite pasteurizado, frango e carnes.

Os preços de Vestuário aumentaram 1% agora, contra 0,68% antes. Os de Transportes aceleraram o aumento de 0,03% para 0,70%, refletindo um reajuste nas passagens aéreas.

"As principais pressões para cima foram de alimentos e vestuário, que são em parte sazonais. Apesar disso, o núcleo da inflação continuou subindo, em uma indicação de pressões generalizadas de preços... e não houve melhora da inflação de serviços, que continuou elevada em consequência da inércia alta e da demanda robusta", afirmou em nota o economista-chefe do Citigroup no Brasil, Marcelo Kfoury.

"Esperamos mais pressões para cima no curto prazo, vindo também da depreciação da moeda", acrescentou Kfoury.

Dólar entra no radar

Recentemente o dólar vem em uma tendência de alta. Para ter impacto na inflação, no entanto, a alta precisa se manter por algum tempo e, portanto, ainda não chega a preocupar.

"Claro que não ajuda. Se for para colocar um viés, é para cima... mas a inflação é movida muito mais por inércia e demanda do que por pressões externas. Câmbio não é o fator principal para determinar inflação", disse o economista do RBS Global Banking & Markets, Marcelo Gazzano.

"Não é só bater R$ 1,80 e depois voltar. Tem que bater e ficar por um tempo. Na nossa conta, o 'pass through' é de 9%. A cada 1% de depreciação do câmbio, bate no IPCA em 0,09 ponto no longo prazo, em um período de 12 meses, por exemplo. É uma pressão pequena", afirma.

O BC tem sinalizado que o nível da taxa de câmbio tem hoje menos peso para a definição da política monetária do que no passado. Em entrevista recente, o presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini, afirmou que o repasse de uma variação do câmbio para os preços é de cerca de 3% no curto prazo e de até 8% no longo prazo, nível que ele considerou "baixo".

Tombini também lembrou que, em 2009, o efeito da crise foi desinflacionário, apesar da valorização do real.

Para analistas, o IPCA de setembro também deve vir mais pressionado, como o IPCA-15, sendo a principal pressão também a de alimentos, bastante voláteis.

"O grupo Alimentação e bebidas deve registrar, no IPCA fechado de setembro, taxa próxima à observada no IPCA-15, como reflexo das altas dos preços agropecuários no atacado", disse o economista da corretora Concórdia, Fábio Combat.

"Os grupos Transporte e Vestuário também devem exercer pressões positivas, contribuindo para a aceleração do IPCA."

O IPCA-15 é uma prévia do IPCA, índice usado pelo governo como referência para as metas de inflação. A única diferença é o período de coleta dos preços. O IPCA-15 de setembro colheu os preços de 13 de agosto a 13 de setembro, enquanto o IPCA mede o mês calendário.

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