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Com IPO bem-sucedido, Burger King tem força em vendas, mas precisa ganhar eficiência

Segundo análise de professores da FIA, para gerar bons resultados a seus acionistas, empresa precisa melhorar indicadores como margem operacional e rentabilidade sobre o capital investido

Nicholas Shores, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2017 | 05h00

O Burger King atraiu para a sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na B3, realizada na última sexta-feira, uma demanda quatro vezes maior que o número de papéis emitidos, conseguindo levantar R$ 2,2 bilhões. Último IPO de 2017, foi o único a bater topo da faixa indicativa de preço que constava em seu prospecto, de R$ 14,50 a R$ 18. Nos últimos três anos, a rede de fast-food mostrou um forte crescimento de receita, mesmo durante o auge da crise econômica no País. Mas, para gerar bons resultados a seus acionistas, a empresa ainda precisa apresentar ganhos consideráveis de eficiência nos próximos trimestres.

Essa é a avaliação do professor Marcos Piellusch, do Laboratório de Finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA), e do especialista em engenharia financeira pela mesma instituição, José Roniel Santos. A pedido do Estado, eles analisaram os principais fundamentos do Burger King Brasil e identificaram os fatores em que o desempenho da empresa precisa ser aprimorado para que ela se torne rentável aos acionistas.

“Comparada a outras empresas investidas pelo grupo 3G Capital (dos sócios Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles), o desempenho ainda é fraco. O 3G é conhecido por dar ênfase à rentabilidade, então acredito que, ao abrir capital, o Burger King vai procurar monitorar seus indicadores de eficiência”, afirma Piellusch.

Um fator positivo apontado pelos especialistas é a receita operacional líquida da rede, que saltou de R$ 660,6 milhões em 2014 para R$ 1,393 bilhão em 2016, avançando 111% no período. “O ritmo de crescimento é alto”, avalia Piellusch. “Mas as margens não acompanharam esse avanço.”

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Considerado um dos quesitos essenciais para se mensurar a eficiência da companhia, a margem operacional do Burger King Brasil ficou em 1,06% no ano passado. Em 2014 e 2015, o indicador ficou ainda mais baixo, no campo negativo, em -1,59% e -0,59%, respectivamente. Na avaliação de José Roniel Santos, o resultado pode indicar um período de consolidação das novas lojas.

Em seu prospecto, a empresa informa que pretende usar os recursos captados no IPO para adquirir 50 restaurantes de um de seus franqueados e, ainda, abrir novos estabelecimentos, além de remodelar lojas já existentes e desenvolver novas marcas de fast-food. Segundo Piellusch, se concretizados, esses projetos “devem proporcionar o aumento de eficiência adequado para que a empresa atinja a rentabilidade mínima necessária”.

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A abertura de capital na Bolsa, contudo, pode não dar conta desses investimentos sozinha. Piellusch chama atenção para a alavancagem do Burger King Brasil. No terceiro trimestre deste ano, sua dívida líquida era 1,6 vez maior que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). “O indicador aumentou em 2015 e caiu em 2016, mas uma possível tendência de elevação (da alavancagem) é preocupante”, afirma o professor da FIA.

Outro fundamento que, para os especialistas, evidencia a necessidade de ganhos de eficiência é a rentabilidade sobre o capital investido (ROIC, na sigla em inglês). No ano passado, esse indicador alcançou 1,07%. “A rentabilidade ainda é muito baixa”, afirma Piellusch. “Deveria ser ao menos suficiente para superar o custo de capital.”

O professor da FIA se refere ao custo que o Burger King Brasil tem para se financiar no mercado financeiro, junto a bancos e investidores da Bolsa. Em outras palavras, quem disponibiliza capital à empresa cobra um retorno financeiro proporcional ao risco do investimento. Acionistas do Burger King Brasil – assim como os de qualquer outra empresa de capital aberto – esperam obter uma rentabilidade consideravelmente superior à oferecida por aplicações de renda fixa, balizadas pela taxa Selic, hoje em 7% ao ano.

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Apesar de reconhecer que indicadores relevantes estão “aquém do necessário” para a rede de fast-food se tornar rentável para seus acionistas, Marcos Piellusch indica que o histórico de alta rentabilidade de outras empresas investidas pelo grupo 3G Capital pode ser um fator de atração de investidores. “Se o preço fixado foi o mais alto da faixa (R$ 18 por ação), o investidor está na expectativa de que o Burger King Brasil vá no mesmo caminho.”

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