Commodities: uma profecia auto-realizável?

Com o preço do petróleo se aproximando dos US$ 50 por barril, os artigos sobre energia e petróleo ganham espaço no noticiário. Até que ponto os preços vão subir e qual é o impacto real dos altos preços do petróleo são perguntas frequentemente repetidas. O petróleo é, no momento, a ?garota da capa? entre as commodities, que vem registrando uma atenção crescente nos últimos anos. O crescimento econômico registrado nos Estados Unidos e na Ásia, particularmente na China, trouxe as commodities de volta para a ribalta depois de anos de excesso de oferta e preços baixos.A palavra inflação voltou a fazer parte do repertório dos administradores de investimentos depois do forte resultado do indicador de novos empregos nos Estados Unidos registrado em março e abril deste ano. Muitos destes gurus dos investimentos começaram a recomendar que uma certa percentagem dos portfólios de investimentos fosse alocada em commodities. Mas qual é a implicação deste movimento? Ao acompanhar o comportamento das commodities, muitos preferem se focar em certos indicadores. O indicador da vez tem sido o da Goldman Sachs. Ao contrário do indicador Commodity Research Bureau (CRB) que costuma utilizar o padrão industrial, o Goldman Sachs tem seu peso ligado ao volume financeiro negociado de cada commodity. Devido a esta particularidade, petróleo e energia tem um peso de 64% neste índice. No CRB, cada commodity possui o mesmo peso fazendo com que o petróleo tenha o mesmo impacto que toucinho. No mundo real, não é isto que acontece. Atualmente, está sendo estimado que o capital que está sendo direcionado para os indicadores de commodities está na região dos US$ 20 bilhões, de acordo com número divulgado pelo Wall Street Journal em 23 de agosto de 2004. Algumas estimativas, contudo, indicam um volume de recursos de mais de US$ 30 bilhões. Seja qual for o número, este volume de capital tem crescido continuamente, mesmo com a redução do crescimento econômico esperado inicialmente e com os temores de inflação. Parte desta busca por commodities está ligada ao sentimento positivo geral de crescimento econômico mundial mas também porque os investidores não estão particularmente confortáveis com a bolsa de valores e nem com o mercado de títulos neste momento. Nenhum destes mercados tem apresentado uma tendência clara e as avaliações de ambos tem sido acima de seu valor real.Além do dinheiro dos fundos que se baseiam em indicadores estar sendo direcionado para commodities, também existe muitos recursos especulativos que estão procurando por um lar apropriado. Existem atualmente cerca de 450 consultores especializados em commodities que estão administrando quase US$ 70 bilhões em ativos. Este volume cresceu tremendamente nos últimos anos. Apenas quatro anos atrás este volume era de cerca de US$ 20 bilhões e haviam apenas 136 consultores.Além do dinheiro administrado por estes consultores, também existe um volume expressivo de recursos controlado pelos fundos de hedge. Este montante se expandiu tremendamente nos últimos anos, passando de US$ 168 bilhões em 1993 para estimados US$ 866 bilhões no final de junho de 2004. Nem todos eles estão interessados em commodities mas o número dos que estão é bem maior que o verificado no passado e muitos outros estão começando a estudá-las.Outra fonte de recursos que está sendo direcionada para commodities vem de capital privado de investidores individuais. Muitos bancos de investimento estão recomendando que os investidores direcionem 5% ou mais para as commodities e isto totaliza um volume significativo considerando o montante de capital que está vinculado ao mercado de títulos ou financeiro. Apenas a capitalização de mercado de uma grande empresa como a Microsoft é de cerca de US$ 293 bilhões. Nos fundos de mercado, existem hoje perto de US$ 1,98 trilhão. O mercado de títulos também gira um volume significativo à medida que inclui também papéis corporativos, de alta rentabilidade, além de títulos do tesouro e papéis municipais.Se apenas uma fração deste total de capital disponível for investido em commodities, o impacto seria expressivo. É claro que não é todo mundo que irá abrir uma conta no mercado futuro. Existem diferentes formas de se investir em commodities. Isto pode incluir os futuros mas também pode ser feito direcionando recursos para consultorias ou investindo em fundos que tenham sua carteira formada por uma cesta de commodities, como o indicador da Goldman Sachs. Alguns investidores podem optar por comprar o produto físico como o caso de barras de ouro. Outros traders mais sofisticados podem tentar uma rotina diferente, comprando ações de produtores de commodities ou mesmo investindo na moeda ou na bolsa de valores de países que são produtores de commodities.Qual o resultado final de tudo isso? O volume de commodities negociado em dólar - seja em produto físico ou futuros - não é excessivo se comparado com o negociado no mercado financeiro diariamente. Por exemplo, com o montante de recursos relativo aos contratos em aberto no indicador da bolsa de valores da Standard & Poors poderia se adquirir todos os contratos em aberto das 20 commodities relacionados no indicador CRB duas vezes. Com as margens do mercado futuro estando normalmente entre 3 a 5% do valor total do contrato, não é necessário que se pague o preço total. Outro exemplo pode ser ilustrado pelo tamanho dos estoques de café certificado. Com ?apenas? US$ 466 milhões, poderia se comprar todos os estoques de café certificados disponíveis. Com US$ 17 milhões pode-se controlar os estoques certificados de algodão. Isto não é uma sugestão, as bolsas de futuros e a CFTC irão continuar monitorando as posições dos fundos especulativos e tomar as atitudes necessárias mas tem sido registrado um aumento na demanda por várias partes para que se aumente os limites existentes de especuladores e o debate ainda não foi concluído.A alta expressiva do petróleo tem gerado especulações sobre o tamanho da supervalorização do produto e a maioria estima um montante de US$ 5 a US$ 10 por barril. Um número de outras commodities tem registrado alta nas cotações por conta de compra de fundos mas mesmo com as posições e limites do CFTC sendo divulgados toda semana é difícil saber a posição especulativa quando as posições de fundos podem estar disfarçadas dentro da categoria conhecida como ?commercials?.O que pode-se dizer é que o preço das commodities está definitivamente sendo influenciado pelo aumento dos investimentos, algumas mais que outras. Isto está provocando uma supervalorização de vários indicadores de commodities o que, por sua vez, está atraindo mais investimentos. Pode-se dizer que as commodities estão se transformando naquela profecia auto-realizável ou um tipo de bola de neve. É bom lembrar que este tipo de atividade não é diferente de qualquer outro setor como as ações de tecnologia ou imóveis. Haverá um momento em que a realidade domina a cena e a derrocada das commodities pode ser tão drástica quanto já se viu com outros investimentos considerados brilhantes. Aqueles que estão colhendo os benefícios neste momento devem ser alertados que quando este mercado entrar em crise não será por causa de dados negativos de oferta e demanda mas porque os investimentos em commodities terão apenas perdido o seu brilho. A expectativa é de que uma reversão de tendências não ocorra neste momento mas este cenário precisa ser monitorado. Talvez, agora, seja mais importante se concentrar na floresta do que em apenas uma árvore.por Michael McDougall** Dretor da Fimat Futures, em Nova York

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