Concorrentes dizem que sobretaxa a tênis chinês só beneficia a Vulcabrás

Oito importadores tentam retomar negociações com o governo para abrandar condições, argumentando que situação pode comprometer os investimentos para a Copa e a Olimpíada

Raquel Landim, de O Estado de S. Paulo,

24 de agosto de 2010 | 22h30

Os importadores de tênis estão reclamando que a sobretaxa contra a importação de produtos chineses beneficia só uma empresa – a Vulcabrás, do empresário Pedro Grendene. Eles afirmam ainda que a tarifa antidumping inviabiliza seu negócio e pode comprometer os investimentos para Copa e Olimpíadas.

Oito empresas se uniram para tentar retomar as negociações com o governo. O grupo inclui as multinacionais Nike, Adidas, Asics, Puma, New Balance, Skechers, mas também companhias nacionais como Penalty/Cambuci e São Paulo Alpargatas.

Desde março, o Brasil cobra US$ 13,85 por par de sapato importado da China. Os fornecedores estabelecidos nesse país são acusados de praticar dumping, que é vender abaixo do preço de custo. A sobretaxa vigorará por cinco anos e é adicional a tarifa de importação de 35%.

Segundo apurou o Estado, a proposta dos importadores é segmentar o dumping e negociar uma "banda de preços" para os tênis. A sobretaxa mudaria conforme o preço do produto.

"Reunimos todas as empresas, menos a Vulcabrás, que está sendo beneficiada. Queremos criar uma agenda positiva com o governo e mostrar as consequências da medida", disse o presidente da Adidas, Marcelo Ferreira. Segundo ele, a Adidas está reavaliando os investimentos no Brasil por causa da sobretaxa.

O vice-presidente da Asics, Giovani Decker, também atacou a Vulcabrás. "Nos causa curiosidade o fato de o presidente da Abicalçados ser também presidente da única empresa beneficiada pela tarifa".

Mentiras

O diretor executivo da Vulcabrás e presidente da Abicalçados, Milton Cardoso, afirma que "é uma mentira" que só Vulcabrás produz tênis no Brasil. Segundo ele, existem 249 fabricantes de calçados esportivos no País, muitas situadas nas cidades de Nova Serrana (SP).

Desse total, 93 assinaram um manifesto de apoio a medida antidumping. O executivo disse que não pode revelar o nome das empresas, porque muitas são fornecedoras das multinacionais.

"Eles são contra ao antidumping porque não querem produzir no Brasil", disse Cardoso. Segundo ele, foram criados 70 mil empregos.

Duas empresas nacionais também fazem parte do grupo contra o antidumping: a São Paulo Alpargatas (fabricante da Havaianas) e a Penalty/Cambuci. Mesmo sendo sócia da Abicalçados, a São Paulo Alpargatas, abriu um processo contra a medida, que deve ser julgada nos próximos dias pelo Supremo Tribunal de Justiça. A empresa não deu entrevista.

O presidente da Penalty/Cambuci, Roberto Estefano, disse que elevou em 5% os preços das chuteiras por causa da tarifa e parou de importar algumas linhas. "Quando o processo começou, estava tudo confuso e cada um lutou sozinho. Agora estamos nos organizando", disse.

Triangulação

Os importadores estão especialmente preocupados com a possibilidade de extensão da sobretaxa para outros países como Vietnã ou Malásia. Na semana passada, o governo regulamentou a medida de "antielisão" para impedir a triangulação de produtos para fugir do antidumping.

"Se for estendido para outros países da Ásia, vai inviabilizar o negócio", disse o vice-presidente da Asics, Giovani Decker. Os importadores argumentam que tem fábricas em outros países e não cometem infração ao mudar a origem da importação.

Depois da medida, o Vietnã se tornou o principal fornecedor de calçados do Brasil. As importações de calçados daquele país cresceram 160% de janeiro a julho em relação a igual período de 2009. Em compensação, as compras vindas da China caíram 68,9% no mesmo período.

O secretário de Comércio Exterior, Welber Barral, disse que o governo vai investigar se está ocorrendo triangulação antes de aplicar a sobretaxa contra outros países. "A finalidade é evitar a evasão. Quem não adota essa prática, não precisa se assustar", disse. Ele reforçou que "a preocupação do governo é a geração de emprego".

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