Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Conhecida pelo 'arroz com feijão', Camil quer ser multinacional de alimentos

Companhia brasileira está em fase de expansão do portfólio de produtos e, ao mesmo tempo, vem crescendo no exterior; próximos mercados devem ser Argentina, Colômbia e Venezuela

Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2021 | 18h14

Em 2021, a Camil entrou em massas, café e fincou bandeira no Equador. Gostou do tempero e quer mais: seus planos são avançar em novos segmentos e reforçar a atuação internacional no curto e médio prazos. A estratégia é deixar de lado a imagem de uma produtora de arroz e feijão para uma multinacional de alimentos.

"Como multinacional brasileira, visamos alcançar posição de destaque em todos os segmentos em que atuamos e ser uma plataforma de alimentos na América Latina", diz Flávio Vargas, diretor financeiro e de relações com investidores, em entrevista exclusiva ao Broadcast Agro

Líder nacional em arroz e açúcar e vice-líder no mercado de feijão, a empresa tem ainda participação no segmento de pescados enlatados. "Independentemente dos cenários desafiadores dos países nos quais atuamos, nos preparamos com portfólio defensivo para potencializar o crescimento constante", afirma Vargas.

Novos mercados

Hoje, a Camil tem operações em cinco países: Brasil, Uruguai, Chile, Peru e Equador. A frente internacional da companhia representa cerca de 30% do faturamento. Para expansão dos negócios, a Camil tem no radar mercados como Colômbia, Argentina e Venezuela.

De acordo com Vargas, a empresa vende cerca de 50% do arroz produzido no Uruguai, no Chile e no Peru. No Equador, onde entrou recentemente com a compra da empresa de arroz Dajahu, a empresa detém cerca de 10% do mercado do cereal no geral e 20% em produto especial "envelhecido".

Para o analista de alimentos e bebidas do Itaú BBA, Gustavo Troyano, a compra da Camil no Equador é a continuidade de um processo que começou há anos. "Não só o contexto atual de demanda por alimentos, mas também o potencial que a Camil tem para otimizar as operações adquiridas, são os principais fatores que justificam esses investimentos", afirma Troyano.

No exterior, a empresa quer crescer por meio de fusões e aquisições. "O pontapé inicial se dá pelo arroz, por ser o DNA da empresa", afirma Vargas. "Entramos com conforto em arroz para depois buscar a diversificação." No último ano, além da equatoriana Dajahu, a Camil comprou o Pastifício Santa Amália, de massas, e o café Seleto, da JDE. A estratégia da companhia é um misto entre crescimento orgânico e a compra de ativos que são integrados à plataforma produtiva. 

Sobre a expansão para novas categorias e geografias, o analista do BBA diz haver potencial de geração de valor "muito grande" para ser destravado. "Com empresas de produtos de alto giro e mercearia seca, a Camil vai agregando produtos ao seu portfólio e ganhando escala. Isso deveria resultar em um ganho de rentabilidade depois que as aquisições forem completamente integradas à plataforma da companhia", diz Troyano.

A Camil vende produtos para mais de 60 países atualmente. A exportação é feita não só no Brasil, mas também no Uruguai. Na venda externa, o foco é arroz, com comercialização pontual de açúcar, sem ambição de exportar massas e café no momento.

Novas aquisições no Brasil não estão descartadas. O interesse da empresa está na ampliação de derivados de trigo, temperos e molhos. Mas, no curto prazo, o foco está no lançamento de produtos de café e na integração de negócios recentemente adquiridos, como a Santa Amália, que permitirá à empresa ampliar a venda além de massas para a região. 

Planos para 2022

O fôlego para oportunidades de aquisição está lastreado na capacidade financeira da empresa. A Camil encerrou o segundo trimestre fiscal, em agosto, com caixa de R$ 1,366 bilhão, incluindo aplicações financeiras e alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) de 1,6 vez. O indicador ainda não inclui a despesa com as compras recentes feitas pela empresa da Dajahu, Santa Amália e Seleto. 

Com lucro líquido de R$ 105,6 milhões (queda anual de 23,2%) e receita de R$ 2,2 bilhões (alta anual de 24,4%) no segundo trimestre, a Camil teve um 2021 bom, após resultados excepcionais em 2020, em virtude da pandemia. "Para o ano que vem, estamos com otimismo cauteloso", diz Vargas. "Esperamos que não haja mudança grande do ponto de vista dos preços dos produtos e da base de receita." O desafio para o desempenho continua sendo o contexto macroeconômico, com redução do poder de compra do consumidor, desemprego elevado e elevação de custos gerais. 

O maior risco é a migração do consumidor para marcas mais baratas. Vargas diz que o aumento dos custos gerais é mais difícil de ser repassado ao valor do produto final do que o aumento das commodities. "Temos conseguido fazer repasse das commodities", afirma. "A inflação da matéria-prima é repassada para o preço, mas em custo - mão de obra, frete, energia."

 

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