Márcio Fernandes|Estadão
Márcio Fernandes|Estadão

Construtora PDG paralisa obras enquanto renegocia dívida bilionária

Com débitos que somam R$ 5,4 bilhões e apenas R$ 373 milhões em caixa, companhia depende de renegociação com quatro grandes bancos para evitar recuperação judicial

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2016 | 05h00

A combinação de uma dívida bilionária com um caixa limitado tem forçado a incorporadora PDG Realty a diminuir o ritmo e até mesmo paralisar o andamento de suas obras. A situação só deverá ser minimizada com o fim da reestruturação de seus débitos com bancos, processo essencial para a sobrevivência do negócio. No primeiro trimestre, sua dívida líquida era de R$ 5,4 bilhões, enquanto o total disponível em caixa era de apenas R$ 373 milhões.

Entre os projetos afetados está o centro empresarial The City, um dos maiores empreendimentos já feitos pela PDG. O projeto fica na Barra da Tijuca, no Rio. Na primeira fase, estão sendo erguidos três prédios, com um total de mil salas comerciais, além de uma torre corporativa e um minishopping. Lançado em 2013, o projeto tinha entrega prevista para o fim de 2016, mas ficará para meados de 2017. O valor geral de venda da primeira fase foi estimado, na época do lançamento, em R$ 400 milhões.

Segundo apurou o Broadcast, notícias em tempo real do Grupo Estado, as obras estão paradas há cerca de dois meses devido à falta de liberação do financiamento pelo Banco do Brasil. Em nota, a PDG explicou que a suspensão dos repasses é temporária e acrescentou que tem mantido os clientes informados da situação (leia relatos de consumidores no texto abaixo).

Dívidas. Empresários do setor da construção, gestores de fundos de investimentos, analistas de mercado e clientes da companhia consultados pela reportagem afirmaram que há outros empreendimentos com obras interrompidas ou com velocidade reduzida. A situação é delicada para a PDG, pois o atraso nas entregas também adia a entrada de recebíveis, agravando o endividamento da empresa. A alavancagem da PDG (relação entre a dívida e o patrimônio líquido) foi a 280%, a mais alta entre as grandes incorporadoras listadas na BM&FBovespa. Depois dela, estão a Rossi (213,6%) e a Tecnisa (66,5%).

Em maio, a PDG firmou memorando com seus quatro maiores credores – Caixa, Banco do Brasil, Bradesco e Itaú Unibanco – para discutir uma reestruturação de dívidas que somam R$ 3,7 bilhões.

No documento, os bancos concordaram em reavaliar cada um dos projetos da incorporadora e estudar a concessão de crédito adicional para conclusão das obras, bem como o alongamento das dívidas destinadas às obras em 12 a 24 meses.

O memorando também sugere postergar por 48 meses da dívida corporativa da PDG (debêntures, capital de giro, entre outros) e a oferta de um financiamento adicional para sustentar despesas gerais e administrativas, com vencimento em 36 meses.

“A PDG repactuou tudo o que pôde com os bancos e jogou o vencimento das suas dívidas lá para frente. Nesse prazo, a empresa terá de vender os estoques e garantir a entrada dos recebíveis para dar conta da dívida no futuro. A grande preocupação dos investidores é se essa reestruturação vai dar certo. Hoje, não é possível saber”, comentou um analista, referindo-se à dificuldade para a venda dos imóveis e ao alto volume dos distratos para todas as empresas do setor.

Sem saída. Fontes de mercado avaliam que não restou aos bancos outra alternativa viável a não ser renegociar dívidas da PDG. Caso optassem por executar as garantias, teriam de retomar terrenos e imóveis, muitos deles em obras. Com o mercado imobiliário depreciado, as instituições teriam de realizar um esforço enorme para terminar as obras e fazer a comercialização dos apartamentos e salas comerciais, o que não é sua especialidade.

O banco Votorantim, um dos credores da PDG, vinha negociando desde janeiro a possível alienação de um conjunto de ativos da incorporadora para não entrar no mesmo modelo de reestruturação. No entanto, as conversas foram encerradas na semana passada, sem sucesso. Na avaliação do banco, o aporte não compensava o risco de carregamento dos ativos com o mercado em crise, segundo apurou o Broadcast.

Caso o acordo tivesse sido concluído, o Votorantim pagaria R$ 461 milhões à PDG pelos imóveis, além de assumir um custo a incorrer com as obras de R$ 673 milhões, mais dívidas de R$ 444 milhões relacionadas aos projetos. Ao todo, a operação alcançaria R$ 1,578 bilhão. Sem acordo, a PDG afirmou que “voltará a procurar outras alternativas para maximizar o valor” dos ativos.

Recuperação. Para analistas, a falta de entendimento com o Votorantim tornou ainda mais desafiadora a missão da empresa de reduzir a alavancagem. No entanto, não trouxe grandes riscos adicionais para o curto prazo, uma vez que a maior parte dos vencimentos neste ano já estão muito próximos de serem alongados, conforme o acordo firmado com os demais bancos.

Caso a reestruturação seja concretizada dentro das condições citadas no memorando, analistas consideram pouco provável a possibilidade de a incorporadora solicitar recuperação judicial neste momento. Caso isso não aconteça, a recuperação será o caminho mais provável. / COLABOROU ALINE BRONZATI

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.