Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ex-InPar, Viver recorre à recuperação judicial para negociar dívida de R$ 1 bilhão

Após era de ouro nos anos 1990, empresa enfrentou crise e foi assumida por fundo americano em 2009; mais uma vez em dificuldades, companhia não conseguiu renegociar com bancos e se tornou 1.ª incorporadora de capital aberto a recorrer à medida

Circe Bonatelli, Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2016 | 11h05

Com dívidas que superam a marca de R$ 1 bilhão, a Viver se tornou ontem a primeira incorporadora brasileira de capital aberto a entrar com um pedido de recuperação judicial. Atuando com fortes prejuízos e com sérias dificuldades para vender seu estoque de imóveis em meio à crise imobiliária, a companhia não conseguiu acordo ao tentar negociar diretamente com seus credores e teve de recorrer à via judicial.

O pedido de recuperação é mais um capítulo de uma história turbulenta. Criada como InPar em 1992 pelo empresário Alcides Parizotto – o fundador do Atacadão, que foi vendido ao gigante Carrefour –, chegou a ser uma construtora relevante nos anos 1990, mas sofreu bastante nos anos 2000 com a crise do mercado de flats. A companhia conseguiu abrir capital em 2007 – ano do “boom” dos IPOs na Bovespa – e, dois anos depois, o controle da empresa acabou repassado ao fundo americano Paladin.

Apesar dos novos sócios e da mudança de marca, a companhia seguiu em dificuldades. Em 2012, antes da crise do mercado imobiliário, a Viver já atrasava obras. Desde então, o problema só se agravou. A Alvarez & Marsal, consultoria conhecida por assumir negócios em dificuldades, entrou em campo. 

Embora a Alvarez & Marsal assessore vários grupos em recuperação judicial – OAS, Galvão e GEP, dono da rede de moda Luigi Bertolli, entre outros –, a intenção era evitar a medida. “Tentou-se o possível para salvar a empresa e equacionar a dívida em meio às dificuldades do mercado”, disse ontem Luis De Lucio, diretor-geral da Alvarez & Marsal, ao Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. “Mas essas medidas não foram suficientes.”

Apesar da situação financeira ruim, a intenção de evitar a recuperação judicial estava baseada na abertura dos bancos para negociar diretamente os débitos. Isso ocorre porque, hoje, as instituições querem evitar fazer provisões em seus balanços para débitos duvidosos – toda vez que uma empresa entra em recuperação, a reserva relativa ao valor total da dívida deve constar em balanço.

Uma das empresas que vem conseguindo renegociar o endividamento apesar do cenário adverso é a PDG. A empresa já equacionou R$ 4 bilhões de um total de R$ 5,2 bilhões sem recorrer à recuperação judicial.

No entanto, uma fonte de mercado classificou a situação da Viver, um negócio de porte relativamente pequeno, como “insustentável”. A empresa teve prejuízo de R$ 163,6 milhões no primeiro semestre de 2016 e 54% de suas vendas no período resultaram em distratos.

O mercado como um todo não vem ajudando as vendas. Em São Paulo, segundo o Secovi, foram vendidas 828 unidades residenciais novas em julho, queda de 20,5% em relação a 2015 e de 60,5% ante junho. 

Perfil. Dois terços da dívida da Viver estão nas mãos de credores sem garantia real, entre eles bancos de médio e grande porte e fornecedores de suprimentos e serviços, além dos compradores de imóveis da Viver. Um terço dos credores tem garantias reais – trata-se de um grupo formado por seis grandes bancos. O pedido de recuperação abrange também uma fatia de dívidas trabalhistas.

Ficam de fora do processo R$ 280 milhões – a maior parte de debêntures, com garantias fiduciárias. Os dados de endividamento consideram o balanço da Viver atualizado até a última sexta-feira, quando o pedido de recuperação foi protocolado.

A Viver tem até 60 dias para apresentar o plano de reestruturação. De acordo com De Lucio, o pedido não interrompe as negociações das dívidas em curso. Ele diz que espera que os principais credores já esteja “digerindo” o plano. “A entrada em recuperação não deve ter sido surpresa para ninguém.”

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