Taba Benedicto/Estadão
A família de Julyo Ganiko, que investiu em painéis solares em sua casa e, agora, paga apenas a conta mínima da distribuidora de energia Taba Benedicto/Estadão

Consumidores investem em placas solares e veem conta de energia despencar

Descontos podem chegar a até 90% dependendo do valor da conta mensal e investimento pode se pagar em até seis anos e meio

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 05h00

O acupunturista Julyo Ganiko decidiu montar a sua casa do zero na região de Guarulhos, na Grande São Paulo. Comprou um imóvel antigo e percebeu que, para a residência ficar ao seu gosto, era melhor destruir e construir tudo de novo. Uma de suas preocupações era com a questão da eletricidade: ele queria que tudo na sua casa fosse movido por energia elétrica, até mesmo o fogão. Com receio de ter de pagar uma conta alta lá na frente, começou a pesquisar sobre a energia solar. Decidiu instalar painéis solares na residência de 220 metros quadrados de área construída, que ficou pronta em 2019, onde mora com a mulher e os dois filhos. O investimento foi de R$ 25 mil.

“Hoje, pago R$ 70 na minha conta de luz todos os meses. Conversando com pessoas que moram próximas e que têm hábitos de consumo parecidos, elas gastam mais de R$ 300”, afirma Ganiko.

Com o aumento do custo de energia, é provável que os vizinhos do acupunturista vejam a conta subir ainda mais. No fim de junho, foi anunciado o reajuste de 52% para a taxa extra embutida nas contas de luz, a chamada bandeira vermelha 2. Por causa disso, os brasileiros deverão pagar, em média, 8,12% mais, segundo os cálculos do economista André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

Esses aumentos, que devem continuar sendo constantes com a crise hídrica, estão ajudando a acelerar a adoção da energia solar por residências, baseada principalmente na geração distribuída. Ela consiste na instalação de placas solares em telhados das casas, indústrias e até mesmo em pequenos e médios estabelecimentos. Para 2021, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) estima que a geração distribuída deve saltar de 4,4 gigawatts para 8,3 gigawatts. Os investimentos nessa área, tanto de consumidores, quanto de fabricantes, devem chegar a R$ 17,2 bilhões.

“Antes, falávamos que era uma energia do futuro, mas já se tornou uma energia do presente, mesmo estando instalada ainda em 0,7% do total de casas”, afirma Bárbara Rubim, vice-presidente da Absolar. Segundo projeções realizadas pela Bloomberg New Energy Finance, cerca de 21,5% de toda a matriz energética brasileira será de responsabilidade da geração distribuída em 2050.

Em alta 

De olho nesse potencial, a empresa paulistana Sunenergia foi criada em 2016. Ainda que boa parte do faturamento seja originado de pequenos e médios estabelecimentos comerciais, como concessionárias de veículos, o negócio residencial tem crescido ano a ano. Foi a Sunergia, por exemplo, que instalou as placas solares na casa de Ganiko. 

A companhia cresceu 51% em 2020 e pretende triplicar de tamanho neste ano. Segundo Eduardo Sibulka, diretor comercial da empresa, a instalação já faz sentido para quem paga contas a partir de R$ 250 mensais. Obviamente, quanto mais cara a conta, mais rápido será o retorno do investimento. 

“É um sistema que se paga rapidamente, e o aumento exacerbado das contas de energia está trazendo um movimento de procura muito grande”, afirma Sibulka. Segundo o executivo, o processo de instalação também está sendo bem rápido: do primeiro contato até a última fase da instalação, são 70 dias.

 

De acordo com um levantamento realizado pela empresa de soluções em energia Comerc em capitais de todo o País, o tempo médio de retorno do investimento de empresas e de consumidores residenciais na geração distribuída varia entre quase 4 anos, em Cuiabá (MT), e 6 anos e meio, em Curitiba (PR). Em São Paulo, que possui maior quantidade de consumidores, a conta costuma fechar em 5 anos e 10 meses. A Comerc leva em conta tanto o potencial de geração energética (que é a incidência solar na região), quanto o preço médio cobrado pelas distribuidoras em cada localidade.

De acordo com o marketplace de energia solar 77Sol, a demanda está crescendo de maneira muito acelerada. A empresa conecta 3 mil parceiros (entre empresas e instaladores) a clientes. Vendo o aumento da procura, a startup está preparando um curso para formar mais instaladores – mesmo sem esse curso, a plataforma tem visto o número de profissionais crescer de 300 a 400 por mês. 

“Precisamos correr atrás da oferta, pois, se não tivermos capacidade suficiente para atender à demanda, vamos frustrar o mercado”, diz Luca Milani, presidente da 77Sol.

Essa preocupação de Milani não é à toa: mesmo com todo esse potencial, o mercado está evoluindo principalmente com empresas menores. As grandes companhias estão de olho no filão dos negócios para empresas, como usinas solares totalmente dedicadas a uma empresa.

A Enel, por exemplo, tem planos de investir R$ 5 bilhões entre 2021 e 2023 em cinco projetos de geração de energia, sendo que um deles é de solar. Mas o seu braço Enel X, apesar de ter uma área para atender residências, têm um foco maior no segmento público e corporativo. Recentemente, fecharam um projeto de iluminação pública com a cidade de Angra dos Reis (RJ) e uma parceria com a rede de estacionamentos Estapar para ter a maior rede de recarga de carros privadas na América Latina.

É um caminho similar ao adotado pela empresa portuguesa EDP. Porém, há uma diferença: neste ano, a companhia comprou 40% da empresa Blue Sol, de Ribeirão Preto (SP), por R$ 20 milhões. A companhia, presidida por Nelson Colaferro, tem foco na expansão por meio da geração distribuída.

Fundada em 2009, já instalou 5 mil sistemas até hoje, trabalha com 2,5 mil instaladores, entre próprios e terceirizados e prevê faturar R$ 200 milhões neste ano. A principal via de crescimento para alcançar novos consumidores será por meio de franquias – atualmente, são 85 franquias ativas e 30 em fase de abertura. “Pretendemos chegar a 250 em um movimento de expansão de microfranquias”, afirma Colaferro.

 

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Empresas lançam programas de assinatura de energia solar

Consumidores que não têm dinheiro para investir em painéis solares formam cooperativas e conseguem descontos de até 20% nas contas

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 05h00

Apesar de o retorno ser praticamente garantido para quem utilizar a fonte solar como alternativa, muitas pessoas não têm dinheiro para fazer um aporte tão pesado, que facilmente pode ultrapassar os R$ 30 mil. Por isso, está surgindo uma nova alternativa para fornecer desconto para as pessoas que quiserem pagar menos na conta de luz sem fazer qualquer tipo de investimento.

A Sou Vagalume, startup criada pela Comerc Energia e a gestora de fundos Perfin, está criando cooperativas de consumidores que estão interessados em ter um desconto em sua conta de luz. Em resumo, é um grupo de consumidores que se juntam e passam a contratar a energia de uma determinada usina solar.

A adesão é simples: basta a pessoa se cadastrar no site, colocar os dados e a região em que mora para saber se pode ser contemplado. Com tudo aprovado, em dois meses os clientes podem ter descontos que chegam até 15% nas suas contas sem fazer qualquer tipo de gasto. Por enquanto, o serviço da Sou Vagalume se restringe ao estado de Minas Gerais e a companhia, que foi fundada neste ano, chegou a 1,2 mil consumidores. “Em 2022, queremos chegar em São Paulo, Rio de Janeiro e em alguns estados do Nordeste, que estão com a demanda em alta”, diz Josiane Palomino, presidente da Sou Vagalume.

O Grupo Gera também deve lançar esse serviço de “assinatura” de energia nos próximos meses. Em um primeiro momento, consumidores do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso e Minas Gerais terão acesso ao serviço, que pode chegar a dar 20% de desconto na conta de energia.

Para expandir mais rápido, a companhia está à procura de representantes. Um deles é João Gabriel, dono de uma distribuidora de bebidas em Juiz de Fora (MG). Ele já aderiu ao negócio como consumidor e, mesmo sem ter tido nenhum desconto até agora, gostou tanto que decidiu virar um representante. Gabriel prevê economizar cerca de R$ 60 por mês a partir de setembro, quando o negócio de fato começar. “Há muitas pessoas que estão esperando a minha conta de luz para aderirem. Eles querem ver para crer. Mas é um negócio maravilhoso: você não paga nada, não tem taxa e nem fidelidade, além de ser uma energia limpa e renovável”, afirma.

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Bancos ampliam linha de crédito para atender demanda da energia solar

Somente em 2020, o volume de financiamentos para geração distribuída cresceu 28% e o número deve aumentar ainda mais neste ano

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 05h00

O empresário Roberto La Sardo, dono de uma loja de materiais de construção em Bragança Paulista (SP), foi convencido pelo filho que instalar painéis solares poderia gerar uma grande economia. No ano passado, decidiu ir atrás de financiamento de R$ 18 mil na instituição financeira Sicredi, para colocar os equipamentos em sua casa. A economia logo apareceu: em vez de pagar em média os R$ 520 que vinha em suas contas de energia, passou a pagar R$ 70, o valor mínimo para a sua casa.

O resultado o animou tanto que foi atrás de outro financiamento, desta vez para a sua loja. Foram mais R$ 130 mil e, agora, está economizando R$ 2 mil na conta todos os meses. “Hoje, a economia que eu tenho na conta de energia já paga as parcelas do financiamento”, afirma La Sardo.

Assim como o empresário, diversas pessoas estão buscando em bancos financiamentos para instalar painéis solares. Além da Sicredi, os principais bancos também fornecem esse tipo de crédito, como Bradesco, Banco do Brasil, Itaú, Santander e o BV. Apenas em 2020, o volume de financiamentos para a geração distribuída alcançou R$ 4,1 bilhões, crescimento de 28% em relação ao ano anterior, segundo a consultoria Cela Clean Energy Latin America. A taxa de juro começa em um patamar de 0,7% ao mês. 

Essa conta deve aumentar ainda mais em meio à crise hídrica, segundo Cássio Schmitt, diretor de produtos de crédito do Santander. Por mês, o banco tem visto a sua carteira de crédito subir mais de R$ 100 milhões. O total financiado até agora pelo Santander é de R$ 1,5 bilhão e Schmitt enxerga que chegará aos R$ 2 bilhões em questão de meses.

“A demanda por esse tipo de financiamento cresceu muito nos últimos dois anos e a inadimplência é baixa, pois os clientes usam parte da economia que têm com a energia solar para pagar as parcelas”, afirma ele, que enxerga a demanda crescendo tanto na contratação online quanto nos pedidos em agências físicas.

O BV, por sua vez, decidiu criar um braço independente para tocar a alta da demanda. Chamado de Meu Financiamento Solar, a plataforma nasceu em 2017 e, no ano passado, começou a fazer também as contratações de maneira digital. O tíquete-médio do financiamento é de R$ 31 mil para as pessoas físicas e R$ 85 mil para empresas. Já a proporção de contratantes, segundo Carolina Reis, diretora da plataforma, é de 70% para pessoas físicas e 30% para as jurídicas.

No primeiro trimestre de 2021, a carteira do BV cresceu 263%, a R$ 1,2 bilhão. Com isso, o time do Meu Financiamento Solar vai sair em breve dos 60 colaboradores para chegar a 150 funcionários.

“A barreira de entrada está muito pequena e está chamando a atenção dos consumidores e empresas”, afirma Carolina. Para ela, trata-se de um caminho sem volta. 

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