Contágio da crise mundial chega à Ásia

Apesar dos sinais de vigor, economias da região já começam a sentir efeitos da crise

Bettina Wassener, The New York Times,

25 de novembro de 2011 | 23h00

A capacidade da Ásia de continuar dando sinais de vigor apesar das dificuldades econômicas do Ocidente está diminuindo lentamente. Na maior parte do ano, as economias da região da Ásia-Pacífico pareciam estar distantes da agitação observada em outras partes do mundo. As bolsas caíam junto com as outras no resto do globo, mas as economias continuavam avançando.

No entanto, nas últimas semanas alguns estalos foram ouvidos nas poderosas economias da região, e analistas e políticos começam a se preocupar com a possibilidade de um colapso doloroso que pode se espalhar pela Ásia à medida que a situação na Europa se deteriora e o crescimento nos Estados Unidos continua comprometido.

As exportações da Ásia vêm diminuindo há meses com a queda da demanda, especialmente da Europa. Embora hoje muitos países dependam menos das exportações, o setor ainda é crucial para economias como as de Taiwan e da Coreia do Sul, ou para as pequenas economias de Hong Kong e Cingapura.

"Os riscos potenciais para a Ásia aumentaram" à medida que a crise europeia se alastrou das pequenas economias periféricas, como a Grécia, e chegou a países mais poderosos como Itália, Espanha e até mesmo França e Alemanha, disse Frederic Neumann, um dos chefes da unidade de pesquisa econômica asiática no HSBC de Hong Kong.

As dificuldades econômicas que vêm se propagando ficaram evidentes na quarta-feira, quando um indicador seguido com muita atenção mostrou que o setor de manufatura chinês está contraindo.

Publicado pelo HSBC, o índice caiu de 51 em outubro para 48 em novembro, o menor nível em quase três anos e bem abaixo do que os economistas esperavam. Uma medida 50 é a linha entre expansão e contração.

Essa queda aumentou as preocupações de um extravasamento dos problemas do Ocidente para a Ásia. Mas também intensificou o nervosismo na direção oposta: o Ocidente necessita cada vez mais de uma Ásia forte para comprar os produtos ocidentais num momento em que os consumidores de outras partes se colocam à margem.

"Hoje, a Europa está onde os Estados Unidos estavam três anos atrás: a contração econômica é apenas o início", afirmou Pranay Gupta, diretor de investimento do ING Investment Management para a região da Ásia-Pacífico, em Hong Kong.

Até agora as dificuldades econômicas na Ásia têm sido relativamente pequenas, e grande parte da região está no caminho de um crescimento econômico vigoroso.

A economia chinesa deve expandir 9,5% este ano, de acordo com projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) em setembro. A Índia crescerá 7,8%, a Indonésia 6,4% e muitas outras nações do Sudeste Asiático devem contabilizar um crescimento superior a 5%, de acordo com o FMI. Mas no geral esses números são inferiores às taxas de crescimento registradas em 2010, e devem cair nos próximos anos, afirmam muitos economistas e o próprio FMI.

Política monetária. Reagindo à piora do ambiente econômico global, Indonésia e Austrália reduziram os juros nas últimas semanas. Muitos outros bancos centrais da região descartaram aumentos que pareciam quase certos há poucos meses, uma vez que estão menos preocupados com a inflação e mais interessados no crescimento.

No Japão, as dificuldades aumentaram em consequência do terremoto devastador, seguido pelo tsunami, em março, e da persistente força do iene. Diante das dificuldades econômicas em outras partes do mundo, a valorização da moeda tornou os produtos japoneses mais caros para os consumidores estrangeiros, reduzindo os lucros dos exportadores. Sem espaço para reduzir os juros já baixos, o governo interveio diretamente nos mercados - vendendo ienes por dólares - quatro vezes em pouco mais de um ano, forçando uma desvalorização da moeda.

No setor financeiro, entretanto, bancos como HSBC, UBS e Nomura estão cortando vagas no mundo todo. E, embora muitos preferissem crescer na região da Ásia-Pacífico, centros financeiros como Hong Kong e Cingapura não escaparam dos cortes e do congelamento de vagas de trabalho.

"Ainda existem áreas de contratação no setor financeiro asiático, mas a situação ficou mais difícil nos últimos meses", disse Matthew Bennet, disse o diretor gerente da empresa de recrutamento Robert Walters.

Com a crise na zona do euro se espalhando para economias mais fortes, a preocupação é que os efeitos sobre a Ásia possam aumentar. Analistas começam a se preocupar com o fato de que os problemáticos bancos europeus podem cortar drasticamente os empréstimos para a Ásia e outros mercados emergentes, procurando se ajustar às regras mais rígidas para o capital que serão implementadas no próximo ano.

No geral, os empréstimos bancários continuaram estáveis durante o primeiro semestre de 2011, informou o Banco Mundial numa análise sobre as economias do Leste da Ásia, divulgada esta semana. Qualquer fechamento brusco dos mercados de crédito, como ocorreu após a falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, terá repercussões dolorosas para a Ásia. Nos seis meses após aquela crise, diz o Banco Mundial na sua análise, os bancos internacionais reduziram a exposição a empresas em países emergentes do Leste Asiático em US$ 36 bilhões.

"Os sistemas financeiros da Ásia, no geral, têm liquidez suficiente para financiar o crescimento e podem preencher a lacuna. Mas, se os bancos europeus decidirem não emprestar mais para a região, isso será bastante problemático, uma vez que será necessário um tempo de ajuste para o déficit de crédito ser coberto", disse Frederic Neumann do HSBC, acrescentando que, nos últimos anos, o crescimento na Ásia ficou mais dependente do crédito.

A capacidade das empresas de levantar dinheiro nos mercados de capital já vem diminuindo. As bolsas asiáticas não deram muita importância para os fundamentos econômicos favoráveis da região este ano e caíram drasticamente. Índices-chave em Hong Kong, Índia e Taiwan registraram queda de 20% desde o início do ano; o que está mais ou menos de acordo com o desempenho das 50 ações listadas no Euro Stoxx.

Os recursos do mercado acionário na região da Ásia-Pacífico também despencaram, para cerca de US$ 74 bilhões este ano, até agora, comparados a quase US$ 159 bilhões durante o mesmo período do ano passado, de acordo com dados da Reuters.

Apesar de tudo isso, muitos economistas e estrategistas da área de investimentos acreditam que a região como um todo continua bem posicionada. As contratações fora da área financeira - especialmente nos setores do varejo, bens de consumo e turismo e hotelaria - continuam dinâmicas, segundo Bennet da empresa de recrutamento.

As taxas de desemprego estão bem abaixo das registradas no Ocidente (3,3% em Hong Kong, por exemplo; 3,1% na Coreia do Sul; 5,2% na Austrália) comparadas com os 9% nos Estados Unidos e 10,2% na zona do euro, de modo que os consumidores continuam gastando.

O aumento no número de ricos também transformou nações de grande população como China, Índia e Indonésia em grandes mercados para produtos, ajudando a compensar a queda da demanda na Europa e Estados Unidos.

Além disso, muitas economias asiáticas, com exceção do Japão, não possuem uma dívida soberana enorme como Estados Unidos e Europa. Por exemplo, o rendimento de títulos de dez anos está agora abaixo das de Espanha e Itália, uma situação antes inconcebível que mostra como o nível de confiança se alterou. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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