Contratos inteligentes

Uma das características mais importantes da tecnologia de blockchain é a possibilidade de tornar os tradicionais contratos de papel algo do passado

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 05h02

A tecnologia de blockchain, sobre a qual falamos neste espaço, é reconhecida principalmente em função do bitcoin, a criptomoeda mais popular em circulação no mundo digital com capitalização de mercado superior a US$ 250 bilhões atualmente - seu valor unitário, que era de mil dólares no início de 2017, já ultrapassou os dezenove mil dólares há poucos dias (seu preço, assim como o preço de várias outras criptomoedas, apresenta elevada volatilidade). Mas outra moeda digital, chamada ethereum (com cerca de US$ 80 bilhões de capitalização de mercado), introduziu o uso dos chamados smart contracts - os "contratos inteligentes" - na sua implementação.

Os smart contracts estabelecem uma série de regras que precisam ser cumpridas para que determinada ação seja executada, exatamente como um contrato tradicional - uma vez que as condições estabelecidas ocorram, ele é automaticamente executado. Estas condições podem ser as mais variadas possíveis: a localização de um GPS indicando que certa mercadoria foi entregue, o recebimento das assinaturas eletrônicas de todos os envolvidos em uma negociação, o aumento de preço acima de um certo limite para determinado ativo do mercado financeiro ou ainda a confirmação do recebimento de ordens de compra. Desde que um computador seja capaz de "interpretar" o dado, a execução do contrato irá ocorrer da forma como ele foi programado.

Em mais uma demonstração de como as tecnologias introduzidas pela Quarta Revolução Industrial irão necessariamente se combinar para criar ambientes de negócios e serviços ainda mais poderosos, a relação entre blockchain e a Internet das Coisas (ou IoT - Internet of Things) já começa a apresentar projetos de impacto e relevância significativos. Por exemplo, a mensuração do consumo de energia elétrica e por conseguinte a cobrança poderiam ser realizados automaticamente por smart contracts utilizando os dados coletados pelos sensores dos equipamentos e armazenados no blockchain. Além disso, defeitos ou desgaste de elementos da rede de transmissão poderiam ser detectados com antecedência, gerando alertas para as equipes de manutenção adequadas e evitando problemas de abastecimento de energia. 

É importante notar que o contrato inteligente é programado no blockchain, o que implica que qualquer erro no código irá trazer resultados inesperados e indesejados para as partes envolvidas. Isso já aconteceu em pelo menos um caso de grande visibilidade no primeiro semestre de 2016, durante a janela de captação de uma Organização Autônoma Descentralizada (ou DAO, em inglês) - que, vale ressaltar, foi prevenida por times de advogados a respeito dos riscos aos quais estavam expondo os investidores. Um hacker (ou um grupo de hackers) explorou uma vulnerabilidade no código do smart contract e desviou cerca de US$ 50 milhões dos mais de US$ 150 milhões que foram levantados para o projeto através de um crowdfunding, o financiamento obtido diretamente através do público que contribui voluntariamente para um projeto.

Outro uso da estrutura do blockchain é o registro das características e procedência de produtos. A companhia inglesa Everledger, por exemplo, cadastrou cerca de um milhão e meio de diamantes em um blockchain, armazenando dados como o quilate, coloração e número de certificação de cada um deles. Com isso, ao invés de confiar em papéis que podem ser forjados e falsificados, todos os participantes da cadeia de produção, distribuição, fiscalização e vendas podem utilizar o registro armazenado no blockchain. Conforme vimos aqui, o uso de funções matemáticas complexas garante que a edição ou falsificação dos registros no blockchain seja (ao menos por enquanto) praticamente impossível de ser feita - e as implicações para as cadeias logísticas de todas as indústrias são relevantes. Este será nosso tema para semana que vem. Até lá.  

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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