Controlar inflação pode ficar cada vez mais difícil, diz Rolf Kuntz

Para colunista de 'O Estado de S. Paulo', BC está tentando conduzir a economia em um pouso suave, mas o processo pode ter sido excessivamente cauteloso

Nalu Fernandes, da Agência Estado,

21 de julho de 2011 | 15h21

O Copom ainda não tem condições para relaxar no processo de condução da política monetária. O colegiado do BC está tentando conduzir a economia em um pouso suave, mas o processo pode ter sido excessivamente cauteloso. As avaliações foram feitas por Rolf Kuntz, colunista do jornal O Estado de S. Paulo, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.

O ajuste do processo de convergência da inflação em um período superior a 12 meses é perfeitamente aceitável, diz Kuntz, mas parece que a tentativa de prolongar o ajuste pode ter sido excessivamente cautelosa. O colunista cita os dados mais recentes do mercado de trabalho, divulgados nesta semana pelo IBGE, apontando que o nível do desemprego foi o mais baixo para um mês de junho desde o início da série histórica, em março de 2002. "Parece-me que o ajuste não está sendo muito severo". "Se misturarmos o poder de consumo com a expansão do crédito, que não foi interrompida, temos razão bastante boa para imaginar que o pouso suave está sendo um pouco prolongado, e talvez o avião acabe caindo no mar".

O colunista observa que o Banco Central tem meios para impedir que a inflação saia do controle, mas enfatiza que há o risco de o controle da inflação se tornar cada vez mais difícil. "Temos ainda um forte efeito de indexação. As pressões esperadas agora nas negociações salariais são uma forma de indexação. Como ainda há um grande número de preços indexados, o efeito de um repique nos IGPs, por causa de preços internacionais via IPA, também vai realimentar os efeitos da indexação no próximo ano. Se houver esse repique, teremos efeitos sobre a indexação inevitavelmente, já que os IGPs são utilizados como indicadores para reajustes de uma série de preços."

O efeito da indexação é forte e, como o governo não tem pulso para, efetivamente, se impor às pressões por aumentos das despesas, a situação pode ficar muito complicada, prossegue Kuntz. "A tolerância à inflação é um problema sério". "Mais perigoso do que a taxa de inflação acumulada até agora é a atitude do governo em relação à inflação. O que eu vejo é uma certa tolerância, certo temor de enfrentar o problema e é isso que me assusta mais", acrescenta.

Não surpreendeu ninguém a decisão do colegiado do BC de elevar a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 12,50%. A percepção do jornalista sobre o comunicado é de que as opções estão abertas para a reunião do Copom em agosto. "As próximas decisões vão depender de um possível repique da inflação a partir de agosto e do andamento das negociações salariais no começo deste segundo semestre".

Além dos dissídios, agora, na segunda metade do ano, o governo terá de trabalhar na elaboração do Orçamento para 2012. "Esse Orçamento parece que será muito pressionado". Parece óbvio, continua Kuntz, que a política fiscal vai ser desafio ao Banco Central no controle da inflação. "Tudo que tem aparecido como tentativa ou projeção para estimar o que vai ocorrer no ano que vem aponta para resultados ruins. Vamos ter efeitos do aumento do salário mínimo na contas previdenciárias e outras contas. Já se começa a falar em pressões do funcionalismo para obter um robusto aumento salarial neste ano". "Vai haver um monte de dificuldades para trazer a inflação para a meta até o final do próximo ano", avisou.

O governo tem compromissos com a Copa e, como as obras estão atrasadas, os custos vão subir. Assumir responsabilidade pela Copa, citou Kuntz, foi uma "irresponsabilidade, imprudência". O colunista avalia que o perfil fiscal, que já se deteriora, vai se agravar. "Tudo indica que a política fiscal vai ser ruim, e que o Banco Central vai ter muito pouco espaço para relaxar sua política". Os gastos para a Copa vão agravar o perfil fiscal de várias maneiras: com investimentos financiados diretamente pelo Tesouro, pelos investimentos que vão ser financiados via BNDES, e que provavelmente vão exigir repasses do Tesouro, que tem um efeito maquiado, afirmou. "É uma bobagem considerar que o efeito dos repasses na dívida líquida é nulo. Há um efeito na dívida bruta. De certa maneira, esse efeito nulo na dívida líquida acaba sendo uma ficção contábil".

As manifestações do Banco Central a respeito da política fiscal são muito otimistas, na opinião de Rolf Kuntz. "O fato de que a meta de superávit primário venha sendo alcançada até agora com relativa facilidade significa simplesmente que o governo está tendo sua vida muito facilitada por um crescimento bestial da receita", apontou. "Cumprir a meta fiscal não significa que o governo esteja, de fato, contendo seus gastos ou moderando sua influência na expansão da demanda. O governo continua gastando folgadamente".

Para o colunista, causam "inquietação" as relações aparentemente muito amigáveis da atual diretoria do BC com o Ministério da Fazenda. Kuntz diz manter reservas sobre autonomia do Banco Central. "Que o BC evite criar atrito com Ministério da Fazenda e seja diplomático ao comentar a situação fiscal, acho perfeitamente razoável, aceitável. Mas a diplomacia tem seus limites. Se acham que devem continuar diplomáticos, isso me preocupa. Se acham que a situação fiscal está realmente sob controle, eu fico ainda mais preocupado", afirmou.

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