‘Crescer não depende só dos juros e do câmbio’

O economista Marcos Lisboa, que saiu do Itaú para o Insper, defende reformas para agilizar projetos de infraestrutura

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo,

01 de abril de 2013 | 10h43

RIO - Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no início do governo Lula, considera que o Brasil tem de simplificar e ordenar o processo de aprovação de investimentos em infraestrutura, para permitir o aumento da produtividade na indústria. Para ele, uma boa condução da política de juros e câmbio é condição necessária, mas não suficiente, para crescer, o que depende do aumento da produtividade.

Lisboa está de volta ao debate econômico, depois de sete anos como executivo do sistema financeiro, primeiro no Unibanco e depois no Itaú Unibanco.

Agora, ele inicia uma nova fase na sua vida profissional, tendo sido chamado para trabalhar com o economista Claudio Haddad na gestão do Insper, instituição de ensino superior em São Paulo, com foco em economia e administração. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que o Brasil cresce pouco?

O debate fica restrito às flutuações de curto prazo da produção. Garantir condições para uma maior taxa de crescimento, porém, não se confunde com as ações de curto prazo da política econômica. Uma política monetária que garanta uma baixa taxa de inflação pode significar um menor nível de atividade no curto prazo. Entretanto, a estabilidade dos preços, a confiança sobre como o governo enfrenta os ciclos econômicos, são parte do ambiente econômico para as decisões de investimento e poupança e o crescimento da renda. Os dados disponíveis indicam a importância da evolução da produtividade para explicar a diferença de renda entre os países. Nossa capacidade de geração de renda é condicionada pelas condições de oferta da economia.

Como o sr. vê a produtividade brasileira hoje?

Acho que o País vive um momento ambíguo. Alguns setores têm ido muito bem. Você olha para os dados de produtividade na década passada de setores como serviços, setor financeiro, comércio, e eles tiveram grandes ganhos de produtividade. E outros setores, no entanto, tiveram desempenho pior. A produtividade é a raiz do crescimento. Entender por que alguns setores tiveram um desempenho tão bom da produtividade e por que em outros ele foi ruim me parece essencial para discutir o futuro do País.

E por que isso aconteceu?

Analisando os indicadores básicos, parece que alguns setores foram beneficiados por reformas institucionais, como o desenvolvimento de novos instrumentos de crédito, a melhora nas garantias ou os incentivos à formalização das empresas, que tiveram um grande ganho de produtividade. Isso estimulou o crescimento do consumo e da renda. Em outros casos, no entanto, como na indústria, há maior dependência de investimentos mais complexos, em infraestrutura sobretudo. Estes tiveram desempenho pior.

Por quê?

Fazer investimentos complexos em energia elétrica, estradas, logística, transporte, tem crescentemente mais dificuldades no Brasil em relação a outros países. É um problema que vem da complexidade do processo. Que agência autoriza a construção de uma hidrelétrica? Quais são as compensações necessárias para os grupos atingidos? Nada disso está bem definido legalmente.

E como seria uma agenda para resolver essa questão?

Seria definir adequadamente os papéis de cada agência reguladora. Quem autoriza o investimento, quais são os critérios para indenização, quem controla? É o governo municipal, o governo estadual, o TCU (Tribunal de Contas da União)? Qual o papel do Ministério Público? Nada disso é bem definido no Brasil. E, com isso, geram-se custos e incertezas para o investimento que acabam onerando toda a economia. Acho que o Brasil tem agenda importante de regulação de setor de infraestrutura, de garantir que esses investimentos possam ocorrer com segurança.

O governo Dilma orgulha-se de ter derrubado a taxa de juros e promovido um câmbio mais competitivo. Qual a sua visão?

Depois de muitas décadas de instabilidade, nossa economia vem convergindo para um padrão de normalidade. A taxa de juros real já foi de mais de 20% nos anos 90 e tem progressivamente convergido para níveis mais próximos dos outros países, ainda que com oscilações de curto prazo decorrentes da gestão adequada da política monetária. Essa é uma conquista de duas décadas de políticas cuidadosas e que fortaleceram progressivamente a estabilidade e segurança. É importante que uma sequência de medidas pontuais não enfraqueça este patrimônio. Por outro lado, a boa condução da política macroeconômica é condição necessária para o crescimento sustentável, mas, infelizmente, não é suficiente. Crescimento requer ganhos de produtividade, ganhos de eficiência no uso dos recursos disponíveis. A boa microeconomia e os bons instrumentos de gestão são tão relevantes para o crescimento econômico quanto a boa macroeconomia.

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