TIAGO QUEIROZ/ESTADAO
TIAGO QUEIROZ/ESTADAO

Crise de sucessão adia saída de Falconi

Prevista para fevereiro, aposentadoria do mais importante consultor do País teve de ser cancelada, após dificuldades da consultoria que leva seu nome, como o afastamento do presidente

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 04h00

A data de aposentadoria do consultor mais importante do País foi anunciada há seis anos. Em 2012, Vicente Falconi anunciou que deixaria, em fevereiro de 2019, a empresa que leva seu nome e que ficou famosa por implementar sistemas de metas bem sucedidos tanto no setor privado (a Ambev é a parceira histórica mais conhecida) quanto no público (as metas de gasto de energia para famílias criadas no apagão de 2011 foi um projeto da consultoria). Às vésperas da data marcada, no entanto, já não há mais prazo para a meta ser cumprida. Problemas internos adiaram a saída de Falconi para quando “Deus quiser”.

O consultor, de 78 anos, diz que mais de uma crise o levaram a cancelar a aposentadoria. Uma delas foi a morte em 2017 do conselheiro Edson Bueno, fundador da Amil, explica. Outra foi o afastamento, também em 2017, do ex-presidente Mateus Bandeira.

O executivo havia sido contratado para tornar a consultoria conhecida globalmente, além de transformá-la em uma “partnership”, nos moldes das grandes consultorias globais, como a McKinsey. Nesse sistema, os consultores seniores viram sócios após análises de seus resultados e, quando chegam a certa idade, vendem sua participação para profissionais mais novos.

A aposentadoria de Falconi incluiria, portanto, seu afastamento completo do conselho de administração e a venda de toda sua participação. Dois anos antes da data de aposentadoria, porém, parte dos sócios da Falconi reclamou dos métodos de Bandeira, tido como autoritário. O executivo acabou deixando a empresa e, na esteira, Falconi voltou a se envolver mais nas decisões da companhia. O consultor destaca que tem atuado apenas no conselho e que essa função deve diminuir.

Procurado, Bandeira não quis se pronunciar.

Segundo a atual presidente, Viviane Martins, em até dois anos a Falconi deverá estar mais azeitada, permitindo que o consultor participe menos das reuniões de conselho. Até lá, a consultoria precisará aperfeiçoar o método de avaliação de funcionários para poder montar um novo plano sucessório. A executiva diz que a transformação da consultoria em uma “partnership” continua, mas sem prazo para conclusão.

Exterior

Além do novo sistema de avaliação dos funcionários, a Falconi tem focado na internacionalização. O projeto de crescer primeiramente nos Estados Unidos – plano de Bandeira – foi colocado de lado. A prioridade passou a ser Canadá e México e, agora, Europa deverá ser fortalecida com a abertura de um escritório – Portugal, Espanha, Bélgica e Holanda estão sendo estudados para receber a unidade, ainda em 2019.

A chegada de Viviane à presidência, em outubro de 2018, evidencia a intenção da Falconi em ampliar a atuação internacional. A executiva trabalhou antes como responsável por grande parte dos projetos no exterior.

Hoje, de acordo com Viviane, cerca de 25% do faturamento já vem do exterior. O objetivo é chegar a 50% em até cinco anos. Fontes próximas à empresa, entretanto, veem esses números com descrédito, dada a dificuldade de competir com grandes nomes do setor, como McKinsey, BCG e Bain.

A maior parte dos clientes internacionais ainda é de companhias que já trabalham com a consultoria no Brasil, mas há algumas empresas que não tinham tido contato com a matriz. “Eles nos procuram pela nossa capacidade de implementação. Em um dos nossos maiores clientes, entramos para fazer o desdobramento de estratégia criada por outra consultoria”, diz Viviane.

‘Me afastar totalmente da empresa vai ser impossível’

“Ficou para quando Deus quiser”, diz Vicente Falconi sobre sua aposentadoria, cuja data marcada era fevereiro de 2019. O consultor, porém, afirma que já não se envolve mais no dia a dia da empresa e participa apenas de reuniões do conselho. “Às vezes atuo até um pouco fortemente (no conselho). Com o tempo, isso vai diminuir. Quando a empresa alcança um ritmo de voo, a empresa está pacificada. Aqui ainda há solavancos”.

Sobre os rumores de que a consultoria seria contratada pelo governo de Jair Bolsonaro para melhorar a gestão pública, Falconi se recusa a falar. “Tenho horror a conjecturas. Não tem nada concreto.”

O sr. havia anunciado que se aposentaria no início de 2019. Por que o plano foi postergado?

A transição não ocorreu da forma planejada em 2014. Tivemos altos e baixos. Algumas crises...

A saída do ex-presidente Mateus Bandeira?

Não gostaria de citar nomes. Algumas crises. Não foi só uma. Um de nossos conselheiros (Edson Bueno) morreu, outro saiu (Marcel Telles). Os dois (conselheiros) restantes me falaram: você vai ter de ficar mais tempo. Eu já tinha praticamente me aposentado, já estava afastado.

Desde quando?

Desde que começou a transição (em 2014). Tínhamos esse conselho: entregar tudo (a participação acionária e as atividades) para a diretoria e os sócios. Eu realmente me afastei. Só fazia alguma coisa quando os sócios me chamavam para ajudar. Me afastei muito e isso não foi bom. Eles (os então conselheiros Beto Sicupira e Pedro Moreira Salles) me chamaram. Atendi o conselho e estou perto dos sócios agora, mas não interfiro no dia a dia.

A aposentadoria ficou para quando?

Quando Deus quiser. Na verdade, eu estou aposentado. Mas acho que, no meu caso, se afastar completamente vai ser impossível. No conselho, eu atuo. Às vezes, até um pouco fortemente. Mas, com o tempo, isso vai diminuir. Na Ambev por exemplo, estou no conselho há 21 anos. No começo, era muito agitado, gritaria e discussão. Hoje é tranquilo. Quando a empresa alcança um ritmo de voo, o conselho tem pouco a dizer, a empresa está pacificada. Aqui ainda há solavancos.

Quando o Mateus Bandeira entrou na empresa, se comentava que a Falconi não cuidava da própria gestão e que precisou trazer alguém de fora para comandá-la. O que mudou desde então?

Tudo que aprendi na vida é que você extrai coisas boas de tudo. No momento, ainda estamos fazendo ajustes internos. Acabamos de comprar um sistema de gestão empresarial. Concluímos que nosso sistema de avaliação e desempenho não estava bom e revimos isso.

A consultoria está mais preparada para sua sucessão?

Com o sistema de avaliação, estamos montando um sistema para filtrar lideranças. As pessoas que vão subir são as que demonstraram capacidade de liderança. Isso tudo numericamente, com meritocracia.

Por que houve esse problema com avaliação? Não é justamente a expertise de vocês?

Na verdade, não oferecemos esse serviço. Esse é um serviço que as consultorias de recursos humanos oferecem.

Vocês não ensinam as empresas a colocar e atingir metas?

Nossa expertise é meta e gestão, que são um dos pontos de avaliação.

A internacionalização da consultoria também era parte dos planos de 2014. Ela está na velocidade adequada?

Temos aprendido muito com isso. De tudo que tentamos aí, restou um movimento muito forte no México, na Europa e no Canadá. Fizemos uma primeira tentativa na Ásia há um ano. Não deu certo. Mas a atuação internacional vai bem. Hoje, 25% de nosso faturamento está lá e temos umas 150 pessoas fora.

O nome do sr. foi cotado para concorrer ao governo de Minas Gerais. Por que não quis?

Já viu um cara mais sem jeito que eu para ser governador? Não tenho esse tipo de ambição. Sempre fui um técnico.

Mas como vê a chegada de empresários na política?

Isso tinha de ser feito. O País tem de ser renovado. O povo deu esse recado na urna.

Esses novos políticos vão enfrentar muita dificuldade dadas as diferenças entre as esferas públicas e privadas?

Não sei que tipo de dificuldade vão enfrentar, mas acho que é uma tentativa que os brasileiros tinham de fazer. Porque o que estava aí não dava mais, essa cultura política. Uma vez fizemos uma reunião, os conselhos da Ambev e InBev, para responder uma pergunta: quanto tempo leva para mudar a cultura de uma empresa? A conclusão foi sete anos. Imagina mudar a cultura política de um país? O que me dá um certo desespero é que, muito embora, tenhamos feito uma grande renovação, o problema tem muito de cultura: de brasileiro pedindo emprego a político e político querendo colocar um protegido em tal lugar.

A Falconi já trabalhou com governos de Estados, ajudando a melhorar gestão e em ajuste fiscal. Vários Estados estão quase quebrados hoje. O que eles precisam fazer?

Naquela época (início dos anos 2000), os Estados ainda podiam atingir equilíbrio fiscal, reduzindo desperdício e melhorando arrecadação. Hoje não dá mais. A coisa chegou num ponto de descontrole que, se não houver algumas reformas fundamentais, não tem como atingir equilíbrio fiscal. Pode entrar com as dez melhores consultorias do mundo, não vamos conseguir ajeitar essa situação.

Notícias relacionadas
Mais conteúdo sobre:
Vicente Falconi

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.