Crise reduz investimento estrangeiro e aumenta rombo nas contas externas

Crescimento do País não impede queda de 11% dos recursos externos aplicados na produção, que somaram US$ 7,88 bilhões de janeiro a abril

Adriana Fernandes e Fabio Graner, de O Estado de S. Paulo,

25 de maio de 2010 | 23h00

O agravamento da crise financeira na Europa já faz estragos no ingresso de investimentos de multinacionais em produção no Brasil – IED (Investimentos Estrangeiros Diretos) – agravando o quadro de forte deterioração das contas externas observado desde o ano passado. Em abril, as contas externas apresentaram o pior resultado para o mês, desde o início da série estatística, de 1947.

Apesar do forte crescimento da economia brasileira, o volume de investimentos diretos frustrou as previsões do Banco Central (BC) e fechou os primeiros quatro meses do ano em US$ 7,88 bilhões, com queda de 11,05% em comparação ao mesmo período de 2009.

Em abril, o fluxo de investimentos somou US$ 2,22 bilhões, com queda de 53,3% sobre o mesmo mês do ano passado e o pior resultado para meses de abril desde 2006. Os investimentos produtivos não foram suficientes para cobrir nem metade do déficit em conta corrente – a soma das operações de comércio, serviços e rendas do Brasil com o exterior – tanto do mês como do acumulado no ano.

Em maio, o fluxo de investimentos estrangeiros diretos mantém a trajetória de queda e até terça-feira, 25, somava apenas US$ 1,3 bilhão. A expectativa do BC é de fechar o mês com um ingresso de apenas US$ 1,6 bilhão, novamente sem conseguir cobrir o déficit externo, que o BC prevê em US$ 2,7 bilhões neste mês.

Frustração

Se confirmada a projeção, o investimento estrangeiro em produção nos cinco primeiros meses do ano terá alcançado US$ 9,48 bilhões, apenas 21% do volume de US$ 45 bilhões esperado para 2010.

Ao apresentar os dados das contas externas em abril, o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, não escondeu a sua frustração com o resultado e sinalizou que o BC deve rever para baixo as suas projeções em junho. O mercado já começou a rever para baixo sua projeção de investimento estrangeiro para 2010, que agora está em US$ 37 bilhões. Na semana anterior, os economistas previam ingressos de US$ 38 bilhões.

Incerteza

"Os dados ficaram aquém da expectativa. Mas a expectativa continua sendo positiva com a aceleração do fluxo a partir do segundo semestre", disse Altamir. Segundo ele, a incerteza provocada pela crise na Europa tem provocado o adiamento de investimentos. Esse movimento é evidenciado pelo comportamento de multinacionais de países como Alemanha e Espanha, países que tradicionalmente investem muito no Brasil.

De janeiro a abril, os investimentos alemães somaram apenas US$ 85 milhões, ante US$ 1,99 bilhão em igual período de 2009, quando o quadro econômico mundial ainda era muito ruim por causa dos impactos da crise dos Estados Unidos em 2008.

Os investimentos espanhóis, um dos países que mais sofrem com a crise atual, somaram US$ 271 milhões no primeiro quadrimestre, praticamente um quarto do US$ 1,05 bilhão verificado de janeiro a abril de 2009.

‘Resultado fraco’

Altamir reconheceu que o comportamento dos investimentos estrangeiros está "fraco" de forma geral neste início de ano, mas avaliou que se trata de um "atraso" na efetivação dos investimentos, e não de uma desistência das empresas em ampliar sua produção no Brasil.

"A volatilidade posterga o investimento. Não acho que ela muda a decisão de investir. Você não aborta uma decisão de investimento", disse Altamir, argumentando que essa decisão leva em conta mais fatores de longo prazo do que de curto prazo.

Altamir voltou a dizer que, apesar do baixo investimento estrangeiro em produção, o financiamento do déficit em conta corrente neste ano ocorrerá sem problemas, por meio dos investimentos em ações, renda fixa e dos empréstimos tomados no exterior.

Essas três fontes de financiamento, no entanto, são ainda mais voláteis e sensíveis à turbulência no mercado financeiro internacional.

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