Cúpula da crise alimentar pode não ter declaração de intenção

Discordância sobre menção às sanções dos EUA contra Cuba atrapalha declaração dos 183 países participantes

Robin Pomeroy e Stephen Brown, da Reuters,

05 de junho de 2008 | 09h58

A cúpula sobre a crise alimentar global pode terminar nesta quinta-feira, 5, sem uma declaração de intenções, devido a discordâncias a respeito de questões secundárias. Os representantes dos 183 países participantes tinham até quarta-feira para concluir uma declaração final sobre como "eliminar a fome e assegurar comida para todos", o que afinal não ocorreu. Veja também:Entenda a crise dos alimentos    A FAO, agência da Organização das Nações Unidas para alimentação e agricultura, convocou esta reunião de três dias devido ao aumento global nos preços dos alimentos, que provoca protestos em várias partes do mundo e ameaça colocar mais 100 milhões de pessoas em situação de fome crônica, segundo o Banco Mundial. Atualmente, há 850 milhões de famintos no mundo.  "A crise alimentar que o mundo enfrenta hoje é tão séria que seria desastroso para a sobrevivência da humanidade se as conclusões alcançadas sofrerem o mesmo destino (de serem esquecidas) nesta cúpula histórica", disse o presidente de Gana, John Kufuor.  O problema não esteve no acalorado debate sobre os biocombustíveis, acusados por críticos de usarem terras que poderiam ser destinadas à produção de alimentos.  O que atrapalhou mesmo a declaração foi a discordância entre simpatizantes e adversários de Cuba a respeito de uma menção às sanções dos EUA contra a ilha. Outras questões paralelas ou de âmbito apenas regional também provocaram impasse.  No início do último dia de encontro, uma fonte da ONU disse que os delegados vão "procurar um novo esboço, que eles possam aprovar, tentar emendar ou, no pior caso, rejeitar".  Especialistas atribuem a crise alimentar aos biocombustíveis e também ao aumento da demanda mundial por alimentos (especialmente na Ásia), preço elevado dos combustíveis, quebras de safra e especulações no mercado.  Nos últimos anos, os preços dos produtos básicos como trigo, milho e arroz mais do que dobraram, e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que, mesmo havendo um alívio imediato nos preços, estes ainda subirão 50% na próxima década. A FAO diz que seria preciso elevar a produção de alimentos em 50% até 2050 para atender à demanda.  "Dizem que não é mais hora de conversar, é hora de agir. Estou esperando para que ajam", disse o ativista senegalês Momar Ndao, que em março participou de manifestações contra a escassez de alimentos.  Alguns questionam a eficácia desta cúpula, que começou com discursos de 44 líderes. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, cético quanto à capacidade da comunidade internacional em resolver a crise, e sempre crítico da FAO (dirigida por seu adversário político Jacques Diouf), disse que o encontro foi uma perda de tempo.  "Achei que seria a resposta à questão de o que devemos fazer, mas não foi nada disso. Foi só uma conferência como qualquer outra, e por isso fiquei frustrado."

Tudo o que sabemos sobre:
FAOAlimentosInflação

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.