Werther Santana / Estadão
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CVM investigará suspeita de informação privilegiada em negócios de Tanure com Alliar

O órgão passou a analisar o caso após denúncia da Esh Capital; Tanure teria realizado lucro com venda de papéis após transação que indicou ao mercado uma possível oferta pública de aquisição

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 19h22
Atualizado 31 de março de 2022 | 11h20

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fará uma investigação para apurar indícios de uso de informação privilegiada (o chamado insider trading) nas negociações de fundos ligados ao empresário Nelson Tanure com ações da Alliar, empresa de diagnósticos médicos A decisão consta em despacho da gerência de acompanhamento de mercado da CVM, ao qual o Broadcast teve acesso. O órgão passou a analisar o caso após denúncia da Esh Capital.

A suspeita de insider trading se refere à negociação de Tanure para compra de ações do bloco de controle da Alliar, no fim do ano passado. Na época, Tanure detinha cerca de 26% de participação na Alliar e chegou a um acordo com o grupo formado por 50 pessoas que detinham pouco mais de 50% das ações da empresa de diagnósticos e era liderado pelos médicos fundadores Sérgio Tufik e Roberto Kalil.

Pelo acerto, Tanure pôde comprar as ações que lhe dariam posição dominante da empresa por um preço de R$ 20,50 o papel - um prêmio relevante, de aproximadamente 57%, quando a ação estava cotado na faixa dos R$ 13. Por sua vez, os acionistas minoritários (fora desse bloco de controle) reclamaram que o contrato os excluiu da transação. E pelas regras da CVM, quando uma empresa troca de dono (mais de 50% das ações mudam de mãos), a oferta feita ao controlador precisa ser feita aos demais acionistas, em uma operação chamada oferta pública de aquisição, uma OPA.

Na data de 18 de novembro, quando passou a circular a notícia de que as partes firmaram a transação a R$ 20,50, as ações da Alliar dispararam na Bolsa, refletindo o movimento de compra dos minoritários na expectativa de uma OPA.

Na contramão, os fundos de Tanure passaram a vender os papéis, realizando lucro. O que os minoritários não sabiam naquele momento (e se tornou público só mais tarde) é que o contrato fechado entre o empresário e o bloco de controle previa uma opção de venda futura de ações (put). Esse mecanismo descaracterizou a figura de um novo controlador e afastou a chamada imediata de uma OPA - algo que, após a revelação do caso, volta a colocar pressão sobre Tanure para que a oferta aconteça.

"Os quatro fundos (MAM Eagle, Fonte de Saúde, Borgonha e Kyoto) venderam grande quantidade de ações em mercado provavelmente sabendo que do contrato de venda constaria a 'put' possibilitando ou tentando a possibilidade de evitar uma OPA por alienação de controle", afirma o despacho da gerência de acompanhamento de mercado da CVM. Com esse conjunto de evidências, foi sugerido o "aprofundamento da análise para ter uma maior profundidade e extensão dos delitos, no entender deste analista, cometidos pelos reclamados".

A assessoria de imprensa de Nelson Tanure foi procurada e enviou uma resposta no fim da noite de quarta-feira. Foi afirmado o seguinte: "Não comentaremos o teor da matéria porque não recebemos nenhuma notificação da CVM. O que foi publicado até agora traz ilações sem o menor fundamento e fatos retirados de contexto. Reiteramos que a negociação está sendo conduzida com responsabilidade e transparência, dentro do que determina a legislação brasileira", descreve o texto, encaminhado pelo fundo de investimento Fonte de Saúde, ligado ao empresário.

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