CVM questiona conselho com maioria independente

A presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana, questionou na terça-feira durante o ICGN, congresso internacional de governança corporativa, no Rio, a avaliação clássica de que a melhor prática de mercado é ter um conselho de administração formado, em sua maioria, por conselheiros independentes como forma de proteção aos minoritários.

MARIANA DURÃO E VINICIUS NEDER, Agencia Estado

26 de junho de 2012 | 20h11

"Os membros independentes são figuras importantes na dinâmica do conselho, devido às atitudes deles em relação à dinâmica da empresa, ao seu ceticismo e, esperamos, independência. Mas a presença no conselho de diretores eleitos por acionistas relevantes, acredito, pode aumentar as chances de que alguém assuma posições de longo prazo (em empresas do mercado brasileiro)", disse.

Para a presidente da CVM, permitir que os acionistas relevantes assumam uma posição mais proeminente no conselho não deveria ser visto de forma negativa. Ao contrário, poderia ser encorajada à medida que uma das dificuldades do mercado brasileiro é atrair investidores com visão de longo prazo e não apenas investidores de alta frequência.

Embora a percepção em geral seja de que é mais fácil para conselheiros independentes exercer o papel de supervisionar e cobrar a execução de metas e políticas estratégicas dos administradores, Maria Helena destaca que isso não ocorre em 100% dos casos. "Se é obrigado a reconhecer que nem sempre os conselhos funcionam tão bem. Muitas vezes isso acontece porque as pessoas têm participação em outros conselhos, têm pouca condição de se envolver o suficiente com os assuntos para dar uma contribuição de verdade", disse Maria Helena, que citou o caso da fabricante de produtos para saúde e higiene Cremer.

Exemplo da Cremer

Durante o congresso, o presidente do Conselho de Administração da Cremer, Luiz Spínola, relatou sua decepção com a opção por "medalhões" como conselheiros independentes da companhia. Fundada em 1935, a Cremer teve capital aberto por cerca de 40 anos, até que, em 2004, o fundo de private equity MLGPE, do banco norte-americano Merrill Lynch, comprou o controle da empresa e fechou seu capital.

Sob comando do fundo norte-americano, a empresa modernizou e profissionalizou a gestão. Em 2007, a Cremer voltou à Bolsa. Com isso, o Conselho de Administração da companhia foi modificado e quatro conselheiros independentes foram indicados. Um dos problemas que levaram o modelo a dar errado foi a falta de prioridade dos profissionais em relação à empresa. "Eles não tinham tempo", contou Spínola em palestra durante a conferência. Outro desafio para Cremer é que, após a volta à Bolsa em 2007, 95% do capital da companhia estava em mãos de cerca de 100 acionistas, recordou Spínola.

O quadro começou a mudar para melhor, porém, quando um "núcleo duro" de acionistas se reuniu e decidiu atuar para influir na gestão e alterar o conselho. Por isso, Spínola destaca os desafios das companhias com capital pulverizado no País. Segundo ele, no modelo anglo-saxão, foram anos de consolidação, dando tempo para os conselhos se prepararem para gerir empresas "sem dono". "No Brasil, a chegada desse modelo deu-se de forma abrupta", comentou Spínola.

Tudo o que sabemos sobre:
CVMconselhomaioria independente

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.