Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Empregada e patrão viram sócios em empresa de brownies

Vânia e Luiz transformaram a venda do doce na escola em uma empresa que não para de crescer

Wesley Gonsalves, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 05h00

Aos 14 anos de idade, Vânia Filgueiras deixou sua casa na cidade de Tutoia, na região do Baixo Parnaíba, no Maranhão – a 320 km de São Luís –, para buscar trabalho no Rio de Janeiro. Depois que chegou à cidade, a maranhense foi recreadora infantil, sacoleira, babá, cuidadora de cachorros, faxineira e empregada doméstica.

Foi numa das casas em que trabalhava que ela conheceu uma espécie de bolo de chocolate, que não levava fermento, tinha um nome difícil e mudaria sua vida. “Quando eu comi pela primeira vez, eu não sabia nem o que era, não sabia nem falar o nome. Era o tal do brownie, eu não sabia nem como pronunciar, mas era uma delícia”, conta.

A então empregada doméstica da família Quinderé, à época com 22 anos, passou a ser a responsável por produzir o doce levado pelo filho do patrão, Luiz, então com 15 anos, como lanche para o intervalo da escola. Mas o sucesso que o doce fazia entre os colegas era tão grande, que acabou virando um negócio – o Brownie do Luiz.

Escola

Muito antes dos brownies vendidos na lata – uma especialidade hoje da empresa –, Vânia produzia aproximadamente 25 unidades da sobremesa, que eram comercializadas por Luiz entre os estudantes e funcionários da sua escola, no Rio. 

Com o crescimento na demanda, a dupla passou da escola para vender o doce em uma faculdade. Em seguida, começou a receber encomendas para festas infantis e casamentos. O projeto cresceu e ganhou corpo como um negócio rentável. Em 2012, Quinderé, então com 23 anos, decidiu formalizar a empresa. Mas, em vez de apenas assinar a carteira de trabalho da ex-empregada, optou por oferecer sociedade a Vânia. “O Brownie do Luiz não seria o que é hoje se não fosse a Vânia”, afirma. 

“Quando eu o conheci, eu estava em uma fase muito difícil. O Luiz mudou a minha vida para sempre, se tornou parte da minha família”, diz Vânia. “Nós dois somos ligados no 220, por isso damos tão certo trabalhando juntos 24 horas.”

Depois de 16 anos de história, a companhia produz hoje aproximadamente 10 mil brownies por dia, que são comercializados em seis lojas físicas em São Paulo e no Rio, em outros 1,5 mil pontos de revenda e no e-commerce da marca. Os sócios não divulgam o faturamento da empresa.

Educação

Mais do que crescimento financeiro, o encontro entre Luiz e Vânia trouxe à ex-empregada a possibilidade de realizar outros sonhos, como o de voltar a estudar – na verdade, de começar sua vida escolar. Incentivada por Luiz, a empresária, que deixou o Maranhão analfabeta, foi cursar os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola com oferta de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Após uma pausa, ela ainda voltaria aos estudos para concluir o ensino médio, que, segundo Vânia, é de longe uma das maiores conquistas da sua vida. “Eu cheguei ao Rio sem saber ler nem escrever, nunca tinha frequentado uma escola”, lembra. “Ter conhecido o Luiz mudou o rumo da minha história, eu sou muito grata a tudo que construímos juntos.” 

Depois de se descobrir como empresária, além da companhia de brownies, aos 38 anos, Vânia também se aventura em outros empreendimentos. Entre um negócio e outro, a ex-empregada que nunca tinha ido à escola e virou patroa não descarta a possibilidade de voltar à sala de aula para cursar sociologia e, quem sabe, mais uma vez mudar completamente o rumo da sua vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.