Imagem Guy Perelmuter
Colunista
Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
Conteúdo Exclusivo para Assinante

De quem é a culpa

No futuro, os acidentes de trânsito serão uma raridade de alta complexidade

Guy Perelmuter, O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2016 | 06h00

Diversos levantamentos sobre as causas de acidentes de trânsito realizados ao longo do tempo em vários países constataram que, em mais de 90% dos casos, a culpa é do condutor do veículo - excesso de velocidade, desrespeito à sinalização, uso do celular, embriaguez, sono. A implantação em larga escala de uma frota de veículos terrestres controlada por computadores estará imune a esses fatores. Obviamente, acidentes irão ocorrer, embora a taxas significativamente menores - e isso irá impactar diretamente a indústria de seguros.

Por natureza, somos menos tolerantes a erros cometidos por máquinas do que a erros cometidos por pessoas. Afinal de contas, as máquinas existem apenas com o propósito de nos atender, realizando suas tarefas de forma eficiente e silenciosa. Acidentes envolvendo carros autônomos, especialmente durante o período de transição que iremos experimentar ao longo das próximas décadas, serão analisados e discutidos com enorme atenção. Dirigir é uma tarefa de extrema complexidade para uma máquina, e a revolução dos carros autônomos só é possível em função dos avanços em técnicas de inteligência artificial, robótica, sensores, comunicação e capacidade de processamento.

O carro integralmente autônomo em desenvolvimento pela Google colidiu (a uma velocidade de apenas 3 km/h) com um ônibus em fevereiro passado, o primeiro acidente após mais de três milhões de quilômetros rodados que não foi causado por falha humana. Três meses depois, um Tesla com o piloto automático ligado colidiu com um veículo que atravessava uma estrada da Flórida, matando o motorista. Segundo a Tesla, a causa do acidente foi a incapacidade dos sensores detectarem o outro veículo em função da semelhança entre sua cor e a cor ao fundo da cena: a lateral do veículo era branca e o dia estava extremamente claro.

Imagine um carro autônomo que perceba um pedestre atravessando a rua em local proibido. Esse carro irá seguir as instruções programadas em sua memória e vai agir de forma a proteger a vida. Mas e quando não for possível proteger todas as vidas envolvidas? E quando o sistema tiver que optar entre a vida do pedestre ou dos passageiros, pois um desvio de rota irá causar um acidente muito mais sério? A complexidade dos algoritmos que controlam os veículos autônomos é imensa, refletindo as situações do mundo real.

E como serão feitas as apólices desses carros? Em caso de acidente, a responsabilidade é da empresa que fabrica o carro, do software embarcado, dos sensores, ou do proprietário do veículo? Em outubro de 2015 a Volvo declarou que, para fins de seguro, qualquer sinistro que ocorra com um de seus veículos quando o modo automático de direção estiver acionado será de sua responsabilidade. Mas, e se o problema for devido à queda na conexão que permite a comunicação entre os veículos? E se um hacker invadir o sistema? Lembre-se, tudo que está on-line está sujeito a invasões e alterações.

Conforme já vimos, as primeiras indicações são de que máquinas são bem melhores que humanos por quilômetro rodado - mas nós já estamos dirigindo há mais de um século, enquanto carros autônomos ainda estão em seus estágios iniciais. 

Semana que vem iremos detalhar algumas das possibilidades para o futuro da indústria de seguros, em um mundo onde acidentes irão ocorrer com frequência muito menor - mas apresentando complexidade bem maior. Até lá.

*Investidor em novas tecnologias, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.