Delfim: Brasil pode crescer entre 5% e 6% nos próximos cinco anos

Mas é preciso cuidar dos gargalos estruturais, como a gestão das contas públicas e as reformas previdenciária e tributária, diz ex-ministro da Fazenda

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

21 de maio de 2010 | 23h00

O forte crescimento que o Brasil vive hoje e que lembra o ritmo veloz do milagre econômico de 1967 a 1973 tem um fator em comum com aquela época: o entusiasmo de empresários, população e Poder Executivo quanto às boas perspectivas de desenvolvimento nacional no curto e longo prazos, avaliou Delfim Netto, ministro da Fazenda naquele período pródigo da história econômica do País. "O governo conseguiu reanimar o espírito animal, com o qual passamos novamente a acreditar que podemos ter um bom crescimento com inflação controlada e melhor distribuição de renda", comentou. "Estão avançando o entusiasmo da sociedade, o consumo, os investimentos, o salário real e a geração de empregos", disse.

Delfim Netto acredita que o País vai crescer entre 6% e 6,5% em 2010 e estima que o PIB subiu ao redor de 2% no primeiro trimestre deste ano ante os últimos três meses de 2009. Ele manifesta que tem "completa confiança" de que o Brasil deverá registrar uma marcha semelhante de expansão entre 5% e 6% nos próximos cinco anos, que não será nada forçada. Contudo, para que isso ocorra, ele destaca que é fundamental o ataque frontal a alguns gargalos estruturais domésticos, como a boa gestão das contas públicas perpetuada, consolidada pela adoção das reformas da Previdência Social e Tributária.

Segundo o ex-ministro da Fazenda, o déficit da previdência é algo que causa problemas "depois de amanhã", e "o depois de amanhã chega logo". Na questão que envolve maior racionalização da área de impostos, ele defende redução do tamanho do governo federal e fortalecimento dos municípios "onde ocorre a vida dos cidadãos", frase que era dita frequentemente pelo ex-governador de São Paulo Franco Montoro. Em seu comentário está implícito que na nova repartição das receitas da União, o governo federal deveria abrir mão de um pouco de arrecadação em benefício dos Estados e cidades.

Mas há diferenças claras entre o Brasil de hoje e o do milagre econômico. O volume maior dos investimentos faz uma boa diferença para diminuir as pressões de alta da inflação quando a demanda agregada estava aquecida. Outro fator distinto era a inexistência de democracia e condução centralizada da economia pelo governo militar. A partir de 1974, o "milagre econômico" perdeu seu encanto, pois mesmo com taxas de crescimento vigorosas do PIB, a inflação baixa foi substituída pela alta expressiva de preços, enquanto o primeiro choque do petróleo de 1973 provocou uma brutal piora das contas externas do País. O tempo de combustível barato acabou, o que afetou muito a balança comercial com a alta expressiva dos gastos com importações daquele produto.

"Hoje está claro que se o País crescer mais que 7% ao ano isso vai gerar tensões (sobre os preços)", disse. Ele aponta que um dos elementos essenciais para elevar o ritmo de expansão da economia com custo de vida baixo é a ampliação da Formação Bruta de Capital Fixo. "Mas o crescimento é um processo, não é uma coisa única", disse. "O atual ritmo de avanço do PIB surgiu na Constituição de 1988, que apesar de seus excessos sobre a contabilidade nacional, referendou o que a sociedade queria, que era desenvolvimento com mais justiça social", ponderou.

Nessa linha de raciocínio, Delfim Netto destacou que foi importante a "desmontagem do fechamento da economia" pela administração de Fernando Collor de Mello. "Não haveria o Plano Real sem o governo de Itamar Franco, que fez o PIB crescer à média próxima a 6% em dois anos e elevou de forma expressiva o volume de reservas internacionais", disse. Da mesma forma, ele disse que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não estaria exibindo os "bons resultados que registra" se não fosse a Lei de Responsabilidade Fiscal. "Quanto ao Lula, além de ter o mérito de ampliar de forma substancial a renda dos trabalhadores, ele despertou o espírito animal dos empresários no seu segundo mandato, o que elevou os investimentos e melhorou bem o nível de emprego", afirmou.

Embora mostre otimismo quanto ao cenário positivo que o Brasil deve alcançar até 2014, Delfim Netto destaca que a crise fiscal na Europa é "uma recidiva" do credit crunch global deflagrado no final de 2008. Ele acredita que algum efeito ruim tal fenômeno deve trazer ao nível de atividade do País no longo prazo, especialmente em relação às exportações, dado que a desaceleração na zona do euro vai diminuir o ímpeto de recuperação da economia mundial nos próximos anos. "Será inevitável uma renegociação da dívida da Grécia", afirmou. "Não há na zona do euro entendimentos entre as autoridades sobre a direção das políticas relativas à região. O Nicolas Sarkozy (presidente da França) diz uma coisa e a Angela Merkel (primeira-ministra da Alemanha), fala outra", ponderou.

Delfim Netto está com 82 anos e diz estar totalmente recuperado depois de ter passado em agosto por um procedimento cirúrgico cardíaco no qual recebeu dois stents, tubos que aliviam o fluxo do sangue em uma artéria obstruída. Ele retomou sua rotina de trabalho pesada, que começa às 7 horas. "Então o senhor vai viver mais 10 anos?", perguntou a reportagem. "Por que você está tão pessimista", respondeu, com bom humor.

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