Depreciação forte do real eleva risco de inflação, dizem especialistas

Segundo professor da PUC-RJ, se atual marca da moeda norte-americana for mantida por dois meses, isso pode agregar 0,40 ponto porcentual ao IPCA neste ano

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

21 de setembro de 2011 | 17h53

O movimento de desvalorização do real ante o dólar, que nesta quarta-feira, 21,  fechou a R$ 1,845, uma depreciação de 15,75% em setembro, começa a preocupar especialistas ouvidos pela Agência Estado, pois há o temor de que essa depreciação possa trazer efeitos à inflação neste ano. Se esta marca for mantida por dois meses, isso pode agregar 0,40 ponto porcentual ao IPCA neste ano, segundo o professor da PUC-RJ, José Márcio Camargo, e 0,50 ponto porcentual na visão do chefe de Pesquisa de Mercados Emergentes para as Américas da Nomura Securities, Tony Volpon. Este último estima hoje que a inflação deve fechar o ano em 6,55%, mas com o impacto do câmbio pode superar um pouco os 7%. Para o economista e sócio da MCM, Antônio Madeira, tal impacto poderia atingir a inflação ao consumidor no ano que vem, o que poderia adicionar um ponto porcentual ao IPCA em 2012. Hoje, sem este impacto extraordinário do câmbio, a MCM projeta que o IPCA subirá 6,6% em 2011 e aumentará 6,4% no ano que vem.

Embora nenhum especialista entrevistado saiba qual será a trajetória do câmbio no curto prazo, a apreensão com a depreciação registrada neste mês é um fato. Os analistas atribuem não só a fatores conjunturais a apreciação do dólar sobre o real, como a fuga de investidores internacionais a ativos mais arriscados num contexto global repleto de dúvidas sobre os desdobramentos da crise na Europa. "Há um elemento estrutural nesta questão, que é o conjunto de mudanças da gestão da política macroeconômica do País", destacou Camargo, que também é economista da Opus Gestão de Recursos. "A tributação de IOF em derivativos de dólar, mudança súbita da administração da política monetária e adoção de medidas protecionistas com aumento do IPI para indústrias de carros, tudo isso causa impressões negativas aos investidores", comentou Rafael Bistafa, economista da Rosenberg e Associados.

"Aparentemente o governo está confortável com o câmbio a R$ 1,85, pois o ministro (da Fazenda) Guido Mantega manifestou em Washington que não vê problemas com essa cotação", destacou Tony Volpon.  "Há uma correlação forte entre a mudança da trajetória dos juros adotada pelo BC no dia 31 de agosto com o movimento de depreciação do câmbio em setembro", comentou Antônio Madeira. "Para investidores, pode ter ficado a impressão segundo a qual as recentes ações do governo, entre elas as relativas à política monetária, visam garantir um certo nível de crescimento do País, mesmo que isso provoque depreciação do câmbio", disse o sócio da MCM.

Socorro à indústria

Para Tony Volpon, o Poder Executivo federal tem duas percepções sobre o desempenho da economia. De um lado, há o setor de serviços e o mercado de trabalho em geral que vão muito bem, pois inclusive o País está numa situação próxima do pleno emprego, como afirmou na segunda-feira a ministra do Planejamento, Miriam Belchior. "Por outro lado, a indústria nacional está sendo atingida pela concorrência dos importados e o governo decidiu usar o câmbio para protegê-la", destacou.

Na avaliação de Antônio Madeira, em função dos problemas econômicos complexos da zona do euro é possível esperar que a pressão de desvalorização do real ante o dólar deve durar ao menos mais um mês. "A Grécia deve receber seu novo pacote de ajuda financeira para socorrer suas contas em outubro", comentou. "Até lá, a volatilidade e nervosismo no mercado de câmbio no País deve permanecer", destacou.

A situação do câmbio é tão incerta que os especialistas entrevistados não arriscam hoje qual será a cotação do dólar ante o real no fim deste ano e encerramento de 2012. Antônio Madeira, por exemplo, trabalhava há duas semanas com a hipótese que o câmbio atingiria R$ 1,70 no final de dezembro e chegaria a R$ 1,80 no encerramento do ano que vem. Porém, como a tensão nos mercados internacionais é muito forte, ele e os outros analistas ouvidos pela AE preferem esperar um pouco para reavaliar suas projeções.

Para um segmento de especialistas, contudo, a depreciação forte do câmbio neste mês é um fenômeno majoritariamente provocado pela turbulência econômica mundial, sobretudo na Europa. "Há um processo forte de aversão a riscos financeiros, com aumento de riscos de surgimento de nova recessão mundial", comentou Marcelo Salomon, economista-chefe para o País do Barclays Capital em Nova York. Segundo ele, pesa muito para determinar a queda da exposição de investidores estrangeiros no Brasil  a restrição de crédito na Europa e o temor de que a Grécia poderia declarar default de sua dívida externa. "O movimento de depreciação do câmbio não é permanente e deve voltar à marca de R$ 1,75 num horizonte de 12 meses", comentou. "O nível de apreensão hoje em relação a dívidas em dólar no mundo corporativo (nacional) é muito menor do que o registrado com a crise de 2008", afirmou.

(Texto atualizado às 18h44 para correção de informações)

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