‘Desafio de Dilma é resistir à tentação de fazer bobagem’

Para o ex-ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega, muita gente no governo vai sugerir que Dilma intervenha, por exemplo, na política monetária do Banco Central

Bianca Ribeiro, do Economia & Negócios,

19 de janeiro de 2011 | 12h21

O verdadeiro desafio econômico da presidente Dilma Rousseff nos próximos quatro anos será manter o que está funcionando bem e evitar a tentação de ‘fazer bobagens’ como ‘intervenções voluntaristas no Banco Central (BC)’. A opinião é de Maílson da Nóbrega, sócio-fundados da Tendências Consultoria e ex-ministro da Fazenda do governo Sarney, entre 1988 e 1990. "Tem gente no governo e no setor privado que acha que ela deve ter coragem de mandar o BC baixar o juro", diz.

Em entrevista concedida ao portal Economia & Negócios no dia 14 de janeiro, Maílson apontou urgências e problemas inadiáveis para a gestão econômica nos próximos anos. Uma das grandes questões do momento, o problema cambial é considerado pelo ex-ministro algo a ser aceito e contornado com medidas que possam compensar os danos para a indústria brasileira.

Já sobre a necessidade de controle de gastos por parte do governo, que se transformou em um mantra entre economistas, a sugestão de Maílson é agir com clareza e trazer logo a público uma proposta de corte orçamentário que possa retomar a credibilidade do governo neste campo. "Não adianta ficar falando", diz citando o atual dirigente da Fazenda, Guido Mantega.

Conhecido por ter tido que encarar uma das piores inflações do País, fato que ele detalha em ‘Além do feijão com arroz’, sua autobiografia recém-lançada, Maílson da Nóbrega acredita que não há mais espaço no Brasil para níveis inflacionários tão altos, mas lembra que o BC precisa estar constantemente vigilante com esse aspecto. "Não dá para relaxar". Por conta disso é que a Tendências está apostando em uma alta de 0,5 ponto percentual na reunião do Copom que termina na noite desta quarta-feira, 19.

Contrariando um consenso em torno da necessidade de reformas como a tributária e a previdenciária, o economista avalia que Dilma faz bem em não criar grandes expectativas em relação a isso. "A experiência mostra nos últimos 20, 30 anos que não há clima no Brasil para fazer esse tipo (amplo) de reforma".

Segundo ele, é melhor combater pontualmente a alta carga tributária do que apresentar um grande projeto que não passará pelo Congresso em seu governo. "Não dá para colocar 27 governadores concordando (com o Imposto sobre Valor Agregado) sem ter liderança política".

A saída para contornar o peso dos impostos seria ampliar investimentos em infraestrutura e reduzir os custos que o setor produtivo tem com as limitações de deslocamento no País. Para isso, um outro desafio de Dilma seria abandonar "visões ideológicas" e "exorcizar" a palavra privatização, além de ampliar esforços em uma regulação firme para expandir esses investimentos. "Não falta dinheiro."

Parte I -"Desafio é resistir à tentação de não fazerbobagem"

Parte II - "É preciso exorcizar a palavra privatização"

Parte III - "Dificilmente a inflação volta no Brasil"

Parte IV -"Não há condição de promover forte desvalorização"


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