Descobrindo a pólvora

A História da Civilização avança no mesmo ritmo da descoberta de novos materiais e suas aplicações

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2018 | 07h56

As evoluções tecnológicas ocorridas ao longo da História da Civilização estão intimamente ligadas à descoberta de novos elementos e materiais. Indústrias inteiras são criadas na esteira destes eventos, modificando o destino das sociedades. Exemplos não faltam: há cerca de cinco mil anos os seres humanos começaram a dominar o bronze; mil e quinhentos anos depois disso foi a vez do vidro. Na China do século III, o uso de ferro fundido começou a se disseminar; no século VIII foi a vez da porcelana e no ano 1000 surgiu a pólvora. Cada uma dessas descobertas gerou desdobramentos políticos, econômicos e sociais significativos ao redor do mundo.

Na opinião de muitos historiadores um dos eventos mais importantes da Idade Moderna ocorreu em meados do século XV, quando o ferreiro alemão Johannes Gutenberg criou matrizes de impressão metálicas móveis, abrindo caminho para publicações em massa produzidas por tipógrafos, e não mais copiadas à mão - aumentando praticamente do dia para noite o acesso à informação e abrindo caminho para Revolução Científica. Cerca de cento e cinquenta anos depois, lentes de vidro foram desenvolvidas na Holanda para uso em telescópios e microscópios. Mais duzentos anos se passaram, e em 1799 o físico e químico italiano Alessandro Volta criou uma bateria baseada em cobre e zinco, precursora das baterias de íons de lítio que já discutimos aqui. Em 1839, o engenheiro norte-americano Charles Goodyear inventou o processo de vulcanização, no qual a borracha é tratada com elementos químicos que aumentam sua resistência. Neste mesmo ano, o artista francês Louis Daguerre e o cientista inglês Henry Fox Talbot desenvolveram a fotografia aproveitando-se de propriedades da prata. Menos de cinquenta anos depois, em 1883, o inventor norte-americano Charles Fritts cria os primeiro painéis solares, inaugurando a era da energia solar.

O desenvolvimento de novos materiais e de novas aplicações intensificou-se no século XX, que testemunhou a descoberta da supercondutividade em 1911, nas mãos do físico holandês e ganhador do prêmio Nobel Heike Kamerlingh Onnes - uma tecnologia que abriu caminho para o desenvolvimento do exame de ressonância magnética e dos trens-bala. Nas três décadas seguintes, materiais que hoje fazem parte do dia-a-dia de bilhões de pessoas foram criados nos laboratórios da gigante norte-americana DuPont: o neoprene, o nylon e o teflon. Curiosamente, a DuPont foi originalmente criada para manufaturar pólvora nos EUA no início do século XIX, cerca de oitocentos anos após sua invenção na China.

Há apenas cinquenta anos o monitor de cristal líquido (ou de LCD - liquid crystal display) foi desenvolvido, tornando-se um dos elementos mais presentes na vida moderna - provavelmente você está lendo esta coluna através de um deles. Monitores, televisões, smartphones, tablets, relógios digitais e laptops são alguns dos equipamentos que adotam esta tecnologia. Já em 1970 foi a vez das fibras óticas serem inventadas pela também norte-americana Corning Incorporated, especializada em aplicações da cerâmica e do vidro. Estas fibras possuem a espessura de um fio de cabelo e são capazes de transmitir dados na forma de sinais luminosos a velocidades inimagináveis apenas alguns anos antes. Foram as fibras óticas que revolucionaram o mercado de telecomunicações, permitindo a transmissão de grandes quantidades de dados em alta velocidade. Outro material inovador que viabilizou o desenvolvimento do campo da nanotecnologia e o avanço no tratamento de doenças foram os nanotubos de carbono, descobertos em 1985 por cientistas da Rice University, instituição de ensino e pesquisa localizada em Houston, Texas.

Uma das principais características da tecnologia é sua capacidade de exponencializar possibilidades - cada invento utiliza as características e propriedades de uma longa linha de inovações de seus antecessores. A natureza do avanço científico e tecnológico é recombinante, utilizando elementos com funcionalidades específicas para composição de algo novo. É sobre isso que iremos falar na semana que vem - a próxima geração de novidades no mundo dos materiais em desenvolvimento pelos cientistas e empreendedores ao redor do mundo. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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