‘Descolamento dos Brics pode crescer com a crise’, diz Goldman Sachs

Para O’Neill, queda do preço das commodities pode aliviar inflação na China e Brasil, e facilitar um ‘pouso suave’

Fernando Dantas, de O Estado de S. Paulo,

18 de agosto de 2011 | 23h00

Para Jim O’Neill, presidente do Goldman Sachs Asset Management, o novo agravamento da crise global pode aumentar ainda mais o descolamento entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e os países ricos. A razão é que a redução do preço das commodities, que já está acontecendo, pode aplacar as pressões inflacionárias em países como China e Brasil, e facilitar o chamado "pouso suave" - a transição sem sobressaltos de um ritmo sobreaquecido de atividade econômica para uma trajetória de crescimento um pouco menor e mais sustentável.

Criador do termo Brics, O’Neill conversou por telefone, da Inglaterra, com o Estado.

O que aconteceu no mercado hoje? Foram os Estados Unidos, a Europa, ou os dois?

Foram os dois, infelizmente. Hoje os mercados estavam preocupados com a Europa, mas nós também tivemos uma leitura muito fraca em um indicador antecedente bastante bom (o índice fabril da área da Filadélfia). É uma forte evidência de que a economia americana está muito enfraquecida.

Os ricos voltarão à recessão?

Eu acho que não. Mas parece que está destinado a um período razoável de crescimento fraco, próximo de uma recessão.

Por quanto tempo?

É difícil de dizer, mas eu acho que certamente por uns dois ou três trimestres. O lado bom disso é que reduz a pressão no preço das commodities e na inflação. Então, nos Brics, particularmente na China, o ciclo de inflação está se revertendo. Isso significa que esses países vão poder tirar o foco da política monetária agora e, assim, o próprio crescimento não vai se enfraquecer muito mais, eu acho.

Então, isso poderia reforçar o descolamento dos Brics?

Sim, é o que eu acho.

Podemos dizer o mesmo sobre o Brasil, especificamente?

Em certa medida, sim, porque o grande problema do Brasil durante os últimos seis meses tem sido a inflação.

Então, esse agravamento internacional poderia ser favorável ao Brasil?

Em termos relativos, sim, definitivamente.

Mas não para o mercado de ações...

Não, infelizmente. Por outro lado, eu acho que o que acontecer na China vai ser muito importante. Se os chineses tiverem um número melhor de inflação para agosto, o que veremos dentro de três semanas, penso que isso iniciaria uma alta no mercado acionário chinês, que poderia ser positiva para todas as bolsas dos Brics.

A China está apontando para um pouso suave?

Acho que sim. Eu considero que o recuo do preço das commodities é uma boa notícia para o pouso suave na China.

E quanto a China poderá crescer depois disso?

Entre 7% e 8%. E eu penso que é bom. A China precisa passar por um período de crescimento mais suave.

Isso não seria ruim para o Brasil, que vem se beneficiando do crescimento da China?

Na minha opinião, isso torna impossível para o Brasil crescer a 7%, mas o Brasil crescendo a 4%, 5% ainda é bom.

E esse cenário de pesadelo, no qual os Estados Unidos entrariam numa estagnação de décadas, como o Japão?

Penso que isso é improvável. Os EUA têm uma demografia melhor, tem produtividade melhor e tem autoridades econômicas muito mais agressivas.

Mesmo com esse impasse político lá, o sr. acha que eles serão capazes de conduzir uma boa política econômica?

Acho que, de certa forma, os caras da S&P (agência que rebaixou o rating americano) fizeram um favor aos Estados Unidos. Forçaram-nos a acordar.

E em relação aos problemas do euro, qual é a sua visão?

A coisa mais importante é o que a União Europeia (UE) vai propor em setembro em termos de reforçar o Pacto de Estabilidade e de um movimento na direção de uma política fiscal mais comum. E, com isso, um caminho crível para um bônus da zona do euro verdadeiro.

O nervosismo do mercado com a Europa pode piorar?

Os mercados estão naturalmente muito nervosos sobre isso. A situação está piorando e há falta de liderança, particularmente da Alemanha. Se eles não tiverem algo sensato para apresentar em setembro, podemos ter a eclosão de uma grande crise.

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