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Fim de acordo com Boeing vem em momento crítico para Embraer

Empresa brasileira enfrenta um cenário de demanda fraca pela sua nova família de aviões, o E2, e ainda terá de encarar crise causada pela pandemia da covid-19

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 15h21

O fim das negociações entre Boeing e Embraer vem no pior momento para a empresa brasileira, que já não estava em seu auge. Após investir R$ 485,5 milhões em 2019 no processo de separação do braço de aviação comercial - que iria para a Boeing -, a Embraer enfrenta um cenário de demanda fraca pela sua nova família de aviões, o E2, e ainda terá de encarar a crise causada pela pandemia da covid-19, que afundou o setor aéreo.

Fontes do mercado dizem que possivelmente a brasileira precisará de um socorro do governo (seguindo o exemplo da Boeing, que pediu ajuda de Washington) ou terá de buscar um outro acordo de venda. A maior oportunidade seria com a China, que quer crescer na aviação com a estatal China Commercial Aircraft (Comac). Em vídeo enviado neste sábado, 24, a funcionários, porém, o presidente da Embraer, Francisco Gomes Neto, afirma que a empresa tem liquidez “suficiente e acesso a fontes de financiamento para alavancar seus negócios”.

A joint venture na aviação comercial com a Boeing, na qual a brasileira teria 20%, era praticamente uma aposta de sobrevivência da Embraer. Isso porque o mercado se tornou mais acirrado quando, em outubro 2017, a europeia Airbus comprou o programa dos jatos C-Series da canadense Bombardier. O C-Series era uma família de aviões que competia diretamente com a Embraer.

Com a rescisão do contrato com a Boeing, a Embraer agora brigará sozinha contra gigantes. Tudo se torna mais grave porque a brasileira acaba de investir US$ 1,75 bilhão para desenvolver três novos modelos de aviões, os E2, que, apesar de serem considerados os melhores da categoria, estão sendo pouco demandados. “As vendas estão fracas porque o setor já não ia muito bem”, afirmou uma fonte.

O processo de separação da divisão comercial da Embraer também estava praticamente concluído e havia exigido milhões de dólares. Apenas na nova sede da companhia haviam sido aportados US$ 30 milhões (quase R$ 170 milhões na cotação atual). 

Ao cenário já complexo, soma-se a crise da covid-19. Com o afastamento social e o fechamento das fronteiras, a maior parte da frota aérea global está no solo. As companhias aéreas enfrentam uma crise profunda e deverão cortar suas encomendas de aviões. Segundo estudo da consultoria Bain & Company, a demanda por aeronaves menores, como as produzidas pela Embraer, deve voltar ao patamar pré-crise apenas no último trimestre de 2021.

Em nota, a empresa negou problemas com as vendas. “O negócio da aviação comercial continua forte, somos líderes no mercado de jatos regionais (...), e acreditamos que os jatos regionais liderarão a recuperação do setor de aviação nos próximos trimestres, à medida que as companhias aéreas retomarem suas operações por meio de rotas regionais e domésticas, que são nossos principais mercados”.

Sobre a possibilidade de a empresa pedir ajuda ao governo, respondeu que “qualquer medida será estudada”, tendo em vista também os efeitos do coronavírus. “A Embraer terminou o ano de 2019 com uma boa posição de caixa, porém, como é sabido, todas as empresas de aviação foram fortemente atingidas com a crise do coronavírus e qualquer medida de apoio será estudada e comunicada.”

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