Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Dia das Mães sem flores? Preços este ano estão até 400% mais altos

Com sua ‘matéria-prima’ disparando nada menos de 400%, há casos de floriculturas fechadas na véspera da data comemorativa

Lílian Cunha, Especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2022 | 10h00

Quem for comprar um buquê de flor para o Dia das Mães até o domingo pode levar dois sustos: com o preço do arranjo ou com as portas da floricultura fechadas – bem na data mais importante para esse ramo do comércio. O motivo: o preço das flores de corte, as que são usadas para fazer ramalhetes. Os floristas relatam que alguns tipos chegaram a subir de 200% a 400% desde fevereiro. 

Nas redes sociais, os donos de floriculturas e decoradores de evento – que dependem das flores para trabalhar – iniciaram uma onda de protestos, com a hashtag “Não ao preço abusivo das flores”. Um deles, o engenheiro Paulo Sabiá, dono da floricultura online Sabiá Flores e Jardim, chegou a fazer uma publicação com os porcentuais de reajuste das flores que usa. “As rosas subiram 200%, os lírios, 150%, e as rosas vermelhas, 300%”, diz ele. 

Fernando Gimenez, proprietário da floricultura Acorda, Margarida, nos Jardins, em São Paulo, foi mais radical: decidiu avisar nas redes que não vai abrir a loja esta semana. “Não vamos participar do Dia das Mães. Só vamos atender os clientes de assinaturas de buquê. Não me sinto confortável em repassar esse aumento abusivo e cobrar R$ 300 num buquê”, afirma. Ele diz que pagava, até o começo do ano, R$ 15 no maço de hortênsias. “Agora está R$ 55.” Na floricultura Arranjo Tropical, em Santa Cecília, um buquê pequeno, que no ano passado custava R$ 90, agora está R$ 165. 

Plantas ‘de vaso’ são alternativa

Por ironia, o aumento das flores ocorre apenas nas floriculturas e somente com as hastes. As plantas de vaso e as vendidas em supermercado não ficaram tão mais caras.  Isso ocorre porque os supermercados fazem contratos anuais com os produtores e recebem as flores que o fornecedor tem para entregar, independentemente de cor ou tipo. As floriculturas, ao contrário, compram as flores já colhidas com pouca antecedência.

“Nós, que trabalhamos com eventos, nosso cliente pede uma decoração com a flor X, na cor Y. Não tem como fazer contrato de compra antecipado”, diz decoradora de eventos Tais Puntel, de São Paulo. “Embora a gente compre em grande quantidade, não podemos fazer o mesmo contrato que um supermercado faz”, explica ela. 

Por que a flor subiu tanto?

Com a flexibilização das regras de afastamento social da pandemia, os eventos e festas de casamento voltaram a acontecer do fim do ano passado para cá. Mas depois da última onda de contaminação, a da variante Ômicron, em fevereiro, houve uma avalanche de eventos e festas. 

Para se ter uma ideia, normalmente, no Brasil, são realizados 1,1 milhão de casamentos todo ano. Mas em 2022, a previsão é de 1,6 milhão, segundo a Associação Brasileira de Eventos, a Abrafesta. “Nem todos casamentos vão ter festa, mas é uma explosão de demanda”, diz Ricardo Dias, presidente da entidade. Isso sem contar os eventos corporativos, que também estão de volta. 

Também tem falta de flor 

“Além de caríssimas, as flores estão em falta”, diz Edilayne Ferraz, florista e decoradora de eventos de Campinas (SP). “Eu pagava R$ 5 o maço da Aster, aquela florzinha que o povo chama de mosquitinho. Agora está R$ 25 e não se encontra para comprar”, diz ela. 

A raiz disso tudo é que, na pandemia, muitos produtores ficaram com a produção encalhada, por falta de eventos. Eles chegaram a jogar flores fora em março de 2020. E boa parte reduziu o plantio ou mudou de cultura. “Foram plantar legumes, por exemplo”, diz Renato Opitz, diretor de comunicação do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), que representa os produtores.

Com a retomada, criou-se uma lacuna entre a demanda e a oferta de flores, causando a alta nos preços. “Muitas culturas, como a da rosa, levam um ano para ser colhidas. As mais rápidas são as de flores do campo, mas, mesmo assim, levam de quatro a seis meses. Não tem como suprir essa demanda reprimida”, explica ele.  

A Cooperativa Veiling, em Holambra, no interior de São Paulo, é a maior fornecedora de flores do Brasil, com 350 produtores. Lá, o preço é determinado em leilão, por um relógio eletrônico chamado de “Klok”. Mas, ao contrário de um leilão normal, o preço inicial é o lance máximo. Os compradores só apertam o botão de “comprar” quando o valor no “Klok” chega a um número interessante para eles.  

Com a polêmica criada nas redes sociais pelos floristas, a cooperativa reagiu publicamente em seu perfil, explicando que o preço é ditado pela demanda, e não pelos cooperados. Consultada, a cooperativa não respondeu à reportagem. 

“O problema é que, quando os produtores estavam na pior, jogando flor fora, nós fomos solidários. Eu mesma dei oito cursos online de arranjos florais para incentivar as pessoas a comprar flor e auxiliar esses produtores”, diz Taís Puntel. “Agora que a situação se inverteu, eles dizem que o problema é da demanda, que não podem fazer nada. Mas não pensam em encolher a margem de lucro para ajudar a gente.”

Para ela e também outros floristas é inviável repassar o aumento para o consumidor. O que Taís está fazendo é intercalar, em seus arranjos, flores naturais com artificiais para baratear o preço. “Assim se diminui o gasto com elas e reutilizo as artificiais”, afirma a decoradora. 

Outra saída é usar mais folhagens, misturar flores secas ou tentar buscar espécies que tiveram menores reajustes. “Tentei fazer isso'', diz Gimenez. Mas os clientes gostam de dar rosas vermelhas no Dia das Mães e pedem isso. Quando você passa o preço, eles não entendem. Então, para não entrar em conflito, resolvi fechar esta semana”, explica ele. 

 

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