Dilma defende exportação de mais manufaturados à Rússia

'Não podemos aceitar que açúcar e carnes respondam por 80% de nossas exportações à Rússia', declarou a presidente

Cláudia Trevisan, enviada especial de O Estado de S. Paulo,

14 de dezembro de 2012 | 10h16

MOSCOU - A presidente Dilma Rousseff disse hoje em Moscou que o comércio bilateral entre Brasil e Rússia é incompatível com o desenvolvimento dos países e extremamente concentrado em produtos básicos. "Não podemos aceitar que açúcar e carnes respondam por 80% de nossas exportações à Rússia", declarou Dilma em discurso de encerramento de seminário que reuniu empresários dos dois países.

Na mão contrária, 80% das vendas russas ao Brasil são integradas por fertilizantes e combustíveis fósseis. A presidente ressaltou que a saída não é reduzir as exportações de commodities, mas sim diversificar a pauta, com a inclusão de manufaturados, serviços e itens de alto valor agregado.

"Não podemos nos contentar com o atual patamar de comércio, de US$ 7 bilhões", observou Dilma, defendendo que os dois países busquem a meta de US$ 10 bilhões.

A dirigente brasileira voltou a criticar medidas de austeridade como caminho para combater a atual crise econômica global. "No Brasil, temos adotado posição contra cortes radicais de gastos que levem à redução da atividade econômica."

Dilma convidou os russos a participarem do "esforço" brasileiras na área de infraestrutura, em obras de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos, para as quais "recursos russos serão bem-vindos".

Carne

A demora de um ano e meio na confirmação de um caso de doença da vaca louca no Brasil abalou a credibilidade das autoridades sanitárias do país e vai exigir investimentos do governo para que problemas semelhantes não voltem a ocorrer, afirmou hoje Pedro de Camargo Neto, presidente-executivo da Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Carne Suína (Abipecs).

"Alguém tem que explicar direitinho o que aconteceu", declarou o executivo em Moscou, onde integra a delegação de 80 empresários que acompanha visita da presidente Dilma Rousseff à Rússia.

Em sua avaliação, "já existe" um efeito-dominó gerado pelo caso da vaca que morreu em 2010, com suspensão das importações por Japão, África do Sul e China. Mas Camargo ressaltou que os três países são insignificantes para o mercado brasileiro. "Nós exportamos meia dúzia de latas de carne para o Japão", exagerou.

O temor é que outros países adotem medidas semelhantes. Além disso, problemas sanitários em relação à carne bovina podem influenciar negativamente outras carnes. "Estamos há cinco anos negociando a entrada no mercado do Japão", lembrou Camargo.

Para ele, "é inadmissível" que um exame laboratorial demore um ano e meio para ser concluído. "É rápido perder credibilidade, mas reconquistá-la demanda tempo."

Camargo defendeu o aumento do Orçamento do Ministério da Agricultura e dos recursos destinados à vigilância e inspeção sanitária e aos laboratórios. "As desculpas podem ser verdadeiras, mas ficou claro que elas não são aceitas pelos compradores", disse.

Se o foco de vaca louca tivesse sido notificado em um prazo de dois meses depois da ocorrência, Camargo acredita que não teria havido problemas.

O impacto da suspensão da importação de carne brasileiras por Japão, África do Sul e China é mínimo, já que os três países respondem por menos de 1% da vendas externas do setor, disse hoje em Moscou o vice-presidente de Relações Institucionais do Grupo Marfrig, João de Almeida Sampaio.

O executivo afirmou não esperar um "efeito dominó" que leve outros países a interromper suas compras em razão do caso de vaca louca ocorrido no Paraná em 2010, o primeiro a ser registrado no Brasil.

Em sua opinião, houve "alarmismo e precipitação" na decisão de Japão, África do Sul e China. "A vaca não morreu da doença e a própria OIE declarou que não era o caso de suspender as importações", ponderou, em referência ao organismo responsável por questões sanitárias em âmbito global.

Sampaio ressaltou que o animal infectado morreu com 13 anos de idade e nunca apresentou sintomas da doença. "É como uma pessoa de 80 anos morrer do coração e a autópsia descobrir que ela tinha o vírus da AIDS", comparou.

O representante do Marfrig estava mais preocupado com a Rússia, maior comprador de carne bovina do Brasil. "Espero que a presidente [Dilma Rousseff] ganhe de presente de aniversário do presidente [Vladimir] Putin a retomada das importações e a manutenção das compras do Brasil."

A Rússia suspendeu em junho de 2011 as importações dos Estados de Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso, sob alegação de que havia problemas sanitários nessas regiões. O restabelecimento das compras é um dos principais itens da visita de Dilma ao país, que se encerra hoje.

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