Dilma descarta controle da inflação com crescimento zero

Para presidente, BC faz 'pouso suave' para não derrubar economia

Vera Rosa, da Agência Estado,

22 de julho de 2011 | 17h17

 A presidente Dilma Rousseff descartou nesta sexta-feira, 22, o controle da inflação que implique crescimento zero. Na semana em que o Comitê de Política Monetária (Copom) definiu a nova taxa de juros do país, em 12,5% ao ano, ela defendeu a postura do BC de controlar os preços com um "pouso suave". Ou seja, sem prejudicar o crescimento da economia. "Estamos criando condições econômicas para não derrubar o crescimento", disse.

Na última quarta-feira, o Copom anunciou mais um aumento de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic. Chamou a atenção dos investidores a mudança no comunicado do BC emitido ao final da reunião. O texto sinaliza que a autoridade monetária poderá interromper a alta de juros para conter os índices de inflação. 

Descontraída, a presidente observou que monitora diariamente todos os percalços no front internacional e admitiu a possibilidade de tomar "medidas duras", caso seja necessário. "Chova ou faça sol, estamos olhando os efeitos da crise na Europa e a questão do teto da dívida pública (dos Estados Unidos) sobre nossa economia, porque isso é da nossa responsabilidade", comentou.

"Quando percebermos qualquer ameaça, tomaremos medidas duras." Os jornalistas quiseram saber quais medidas poderiam ser tomadas, e ela abriu um sorriso. "Vocês acham que vou dizer?" 

Sobre as contas públicas, Dilma destacou que o governo continuará o processo de "consolidação fiscal" - eufemismo para se referir ao ajuste das contas - e disse que, por isso mesmo, a inflação está sob controle. Lembrou, ainda, que em cinco meses de governo, de janeiro a maio, o chamado governo central (Tesouro Nacional, BC e previdência) já cumpriu mais da metade da meta fiscal fixada para o ano todo. 

A presidente afirmou que o Brasil deve arrecadar mais do que irá gastar no fechamento deste ano, sem contar com as despesas com os juros da dívida pública. "Vamos fazer superávit primário, já estamos acima da meta". A meta de superávit primário é de R$ 81,7 bilhões e já foi atingido o patamar de R$ 45,5 bilhões.

Câmbio

Os problemas de sobrevalorização do real preocupam a presidente, mas ela avalia que não pode tomar nenhuma medida precipitada sem olhar com cuidado o cenário internacional. Quando os jornalistas observaram que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, nem está dormindo por causa do câmbio, Dilma deu risada. "É bom, às vezes, a gente não dormir. A gente não dorme e fica alerta", disse ela, em tom bem humorado. Depois, emendou, enigmática: "O Guidinho de olhos abertos..."

Diante da insistência dos jornalistas em relação a possíveis mudanças na política cambial, a presidente respondeu usando o recurso da imagem, método muito adotado por seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. "Você acha que a gente pode fazer alguma coisa no momento em que não sabe se o pessoal está brincando na beira do abismo ou se já conseguiu criar uma rede de proteção?", perguntou, em alusão à crise na Europa e nos Estados Unidos. "Nós nem sabemos se vai ter default nos Estados Unidos".

Ao mencionar um quadro de incertezas fora do Brasil, Dilma fez outra comparação, tomando um gole de água. "O mundo está andando um pouco de lado. Deixa ele andar um pouco à frente que a gente decide o que vai fazer", disse.

Na avaliação da presidente, o socorro de 158 bilhões de euros à Grécia, anunciado por chefes de Estado e de governo da União Europeia, representa mesmo um calote organizado. "Mas tem de ser feito, não tem jeito", comentou.

Trem-bala

A presidente falou também sobre o trem-bala, cuja primeira etapa do leilão ocorrerá em fevereiro de 2012, segundo anunciou o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Bernardo Figueiredo na última quarta-feira. "Temos a obrigação de fazer o trem bala, só não podemos deixar os competidores formarem o preço".

Política industrial

A presidente concorda que a defasagem na política industrial é um dos gargalos do País. Batizado como "Programa de Inovação do Brasil", o texto referente à política de desenvolvimento da competitividade está pronto e será agora apresentado no dia 2 de agosto. Haverá incentivo para incrementar a exportação de produtos manufaturados.

Na prática, a política industrial será fatiada. A ideia é contornar resistências e impedir que medidas que precisam passar pelo crivo do Congresso fiquem indefinidamente à espera de aprovação.

Além da valorização das exportações, os pilares da política industrial serão aumento do conteúdo local, agregação de valor, compras governamentais e política de defesa comercial.

A desoneração da folha de pagamentos não está incluída nesse pacote e "sai na sequência", de acordo com Dilma. Antes disso, no dia 9, a presidente disse que anunciará "uma boa melhorada" no programa popularmente conhecido como Super Simples, que prevê a unificação de oito tributos, seis federais, um estadual e um municipal.

(Texto atualizado às 18h24)

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