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Fintechs - empresas de tecnologia que atuam no setor financeiro - já trouxeram mudanças significativas para o mercado. Mas isso é apenas o começo

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2017 | 05h04

A eliminação de intermediários nos negócios é uma das tendências que o mundo pós-Revolução Industrial 4.0 vem demonstrando de forma consistente. Conforme já discutimos aqui, o consumidor moderno começa a perceber que frequentemente não precisa de corretores ou de vendedores para realizar suas transações. Através de sites de comércio eletrônico, aluguel de imóveis ou prestação de serviços, é possível escolher e comprar mercadorias e serviços, bem como recrutar e contratar profissionais para posições temporárias ou permanentes. Até mesmo equipamentos - antes apenas disponíveis nos modelos produzidos pelos fabricantes - já podem ser adaptados e modificados pelo consumidor maker.

Indústrias que lidam quase que exclusivamente com informações - como o mercado editorial, o mercado de educação e o mercado financeiro - encontram-se em posições de destaque para atuação de inovadores e empreendedores. Novos processos, métodos ou modelos agora podem fazer uso de um ambiente de negócios inédito, no qual mobilidade, conectividade, poder de processamento e técnicas de inteligência artificial tornaram-se economicamente viáveis e acessíveis.

A indústria financeira, em particular, possui uma situação peculiar: por um lado, é alvo de regulamentação rígida e fiscalização permanente ao redor do mundo; por outro, possui todos os elementos desejáveis para empreendedores: escala, processos antiquados, ineficiências e clientes (frequentemente) insatisfeitos. De acordo com a empresa de análise e pesquisa Pitchbook, entre 2012 e 2016 cerca de US$ 50 bilhões foram investidos em startups neste setor - sendo US$ 17,4 bilhões apenas em 2016, em mais de 1.400 transações. Vale mencionar, no entanto, que apenas uma dessas transações foi responsável por mais de US$ 4 bilhões em investimentos: a Ant Financial, parte do grupo chinês Alibaba.

Parte da explicação para tamanho interesse em fintechs está relacionada com o alcance da área - afinal de contas, nenhum negócio sobrevive sem um departamento financeiro - e com as mudanças estruturais na forma de montagem e gestão de uma empresa. Se no passado o único lugar para levantar recursos era no Banco, hoje em dia há diversos sites para realização do crowdfunding - literalmente, "financiamento através da multidão". O empreendedor apresenta sua idéia, indica de quanto dinheiro precisa e a comunidade decide se vai ou não contribuir para o projeto. Kickstarter, Indiegogo e AngelList são alguns exemplos deste tipo de negócio - sendo eles mesmos representantes de uma das áreas de fintech que elimina a necessidade do empréstimo bancário.

Empréstimos são, como era de se esperar, um dos principais temas endereçados pelas startups que decidem atuar no setor. O modelo tradicional de concessão de crédito por parte de uma instituição financeira passa por análises detalhadas, documentação extensiva e obtenção de garantias para que, caso o tomador não consiga pagar o empréstimo, o Banco evite perdas na operação. Evidentemente, este processo exige tempo e recursos, e frequentemente não é economicamente viável para o caso de empréstimos de pequeno porte. Após a crise financeira de 2008, originada no mercado de títulos imobiliários nos EUA, tornou-se ainda mais difícil obter-se um empréstimo bancário. Para as startups do setor, no entanto, empréstimos de baixo valor são por vezes processados e concedidos em minutos, sem que se fale com ninguém: o aplicativo desenvolvido cuida de tudo, realizando checagens online e conectando tomadores e credores a um custo competitivo.

A firma de pesquisas Transparency Market Research estima que apenas o mercado de empréstimos online deve saltar de US$ 26 bilhões em 2015 para quase US$ 900 bilhões em 2024. O setor já possui alguns nomes bem estabelecidos, que movimentam bilhões de dólares por ano, como Prosper, SoFi e Lending Club (EUA), Zopa (Reino Unido) e Lufax e JD Finance (China). No Brasil, em função das regras estabelecidas pelo Banco Central, é necessária a presença de uma instituição financeira no processo. Semana que vem falaremos disso, bem como de outros segmentos na área de fintech. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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