Direção nas câmeras

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Câmeras de vídeo instaladas no painel para filmar a estrada estão sendo usadas por motoristas para evitar problemas com seguro

The Economist

06 Setembro 2015 | 05h00

A ideia de equipar um carro com uma câmera de vídeo só pareceu ser boa ideia para muitos motoristas em fevereiro de 2013. Foi quando um meteoro sobrevoou Chelyabinsk, na Rússia, antes de explodir, ferindo mais de mil pessoas e danificando milhares de edifícios. Pouco depois, vídeos da gigantesca bola de fogo começaram a surgir na internet – algo que talvez não surpreenda, nessa era de smartphones onipresentes. Mas o detalhe incomum é que aproximadamente uma dúzia de vídeos do tipo foram filmados por pequenas câmeras instaladas nos painéis dos carros.

Os dispositivos desse tipo estão se tornando mais populares conforme o mercado recebe câmeras cada vez mais sofisticadas. Mas por que os motoristas desejam algo do tipo, e o que elas fazem?

O motivo de tantos motoristas russos usarem câmeras no painel é o policiamento omisso e às vezes corrupto. Elas se tornaram um acessório indispensável num país de alto número de acidentes de trânsito e resolução incerta na atribuição de responsabilidade. De fato, milhares de vídeos russos mostrando acidentes horríveis, algumas “finas” inacreditáveis e tentativas flagrantes de fraudar o seguro por parte de motoristas e pedestres se tornaram comuns no YouTube e outros sites. As câmeras também são populares na China e agora estão sendo promovidas mais amplamente na Europa e nos Estados Unidos.

A facilidade de encontrar a tecnologia para câmeras baratas e cartões de memória flash, com alguns modelos inspirados nas câmeras de ação usadas por esportistas, trouxe uma série de fabricantes relativamente desconhecidos da China, Taiwan e Coreia do Sul ao mercado das câmeras de painel. Mas agora grandes marcas de bens de consumo começaram a fabricá-las também, incluindo a americana Hewlett-Packard, a japonesa Panasonic e a suíça Garmin, grande fabricante de produtos com GPS.

Ciclistas e motociclistas estiveram entre os primeiros a usar pequenas câmeras para filmar o percurso e reunir provas de confrontos com motoristas. Policiais e motoristas de pequenos veículos comerciais também as utilizam. Muitos modelos novos de câmeras de painel são pensados especificamente para os carros, com preço que vai de US$ 100 a US$ 300 ou mais. Costumam ser afixadas ao para-brisa com uma ventosa, como um GPS portátil. Embora a maioria contenha uma pequena bateria para um breve período de funcionamento independente, as câmeras de painel precisam receber alimentação por um fio ligado ao sistema elétrico do carro. A ignição do motor ativa a gravação. Também é possível integrá-las aos sistemas eletrônicos do veículo.

A maioria das empresas produz uma série de modelos dessas câmeras, e os mais caros trazem recursos como alta definição. Outras incorporam chips GPS, ajudando a traçar a rota do veículo no mapa. Isso pode se mostrar uma vantagem ambígua: o chip GPS também é capaz de calcular e registrar a velocidade, dado que pode incriminar o motorista. Muitas seguradoras aceitam imagens de vídeo como provas ao serem acionadas, mas as regras variam pelo mundo – por questões de privacidade, as câmeras de painel são ilegais na Áustria, por exemplo.

A britânica Nextbase produz uma câmera de painel chamada 402G, equipada com GPS. Uma tela no dispositivo é uma maneira útil de verificar se a câmera está funcionando e alterar as configurações. Pode-se programar a tela para que se apague depois de alguns segundos para não distrair o motorista e, depois de instalada, podemos esquecer dela. Como outras câmeras de painel, ela registra constantemente segmentos de vídeos que são armazenados num cartão de memória, funcionando em loop. Quando a capacidade do cartão chega ao limite, segmentos anteriores são sobrescritos. As câmeras de painel costumam ter um sensor que impede a exclusão do vídeo mais recente após o impacto de uma colisão.

As câmeras de painel são oferecidas em diferentes estilos. A taiwanesa Mio produz um modelo que funciona através do espelho retrovisor. A sul-coreana BlackVue produz uma câmera que combina imagens da frente e de trás do veículo. O modelo nüviCam, da Garmin, equipado com GPS, também usa a câmera para alertar os motoristas no caso de se aproximarem demais do veículo à frente ou saírem da pista na estrada.

A diretora de produtos Kirsty Quartley, da Garmin, diz que uma razão que leva os motoristas a comprarem câmeras de painel é se proteger não apenas no caso de um problema com a seguradora, mas também de acidentes fingidos. Isso inclui a chamada “fraude do farol”: um motorista pisca o farol sinalizando ao outro que entre na sua frente numa conversão, mas em seguida colide deliberadamente com o outro veículo – cujo motorista é então acusado de não ter observado a mão preferencial. Isso costuma resultar em processos exagerados buscando compensação por “estresse físico”.

Recurso padrão. Com o tempo as câmeras de painel poderão ser incluídas como recurso opcional ou até padrão nos carros, de maneira semelhante aos sistemas GPS atuais. As câmeras de marcha ré se tornarão obrigatórias nos novos carros americanos a partir de maio de 2018, e um número cada vez maior de novos veículos estão recebendo câmeras laterais que ajudam os motoristas a enxergar o tráfego ao sair de garagens com pouca visibilidade. Assim, acrescentar uma câmera dianteira de custo relativamente baixo e combinar a ela uma função de gravação – chegando até a monitorar as demais câmeras do carro – não seria difícil.

As montadoras talvez já estejam avançando nessa direção. O novo Corvette Stingray da General Motors já conta com uma câmera dianteira como parte de um sistema que registra seu desempenho. As câmeras de painel podem um dia ser conectadas a gravadores de dados de eventos (EDRs), que já estão presentes na maioria dos veículos novos.

Projetados originalmente para monitorar a ativação de airbags, os EDRs podem registrar informações do veículo, como aceleração e uso dos freios, nos segundos antecedentes a uma batida. Foram usados pela polícia como prova em processos. Algumas autoridades de segurança propuseram o uso do EDR como parte de um sistema de “caixa preta” para veículos, semelhante ao das aeronaves. Equipado com vídeo, esse sistema proporcionaria aos peritos dados úteis. Conforme os carros se tornam autônomos, sistemas desse tipo podem se tornar necessários para ajudar a atribuir a responsabilidade - não apenas entre os motoristas, mas entre os próprios carros.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR AUGUSTO CALIL, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM 


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