Dona da JBS compra fabricante das Havaianas por R$ 2,7 bi

J&F Investimentos, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, adquiriu a fatia majoritária da Camargo Corrêa na Alpargatas

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 09h14

Texto atualizado às 07h28 de 24/11

SÃO PAULO - A holding J&F, mais conhecida pela atuação no setor de alimentos com marcas como Friboi, Seara e Vigor, anunciou nesta segunda-feira a compra da fatia majoritária da Camargo Corrêa na Alpargatas, dona da marca de sandálias Havaianas, por R$ 2,667 bilhões à vista. Segundo apurou o Estado, o negócio foi acertado domingo à noite e não teria incluído um processo extenso de análise dos números da companhia. “A Camargo precisava vender e optou por alguém disposto a agir rápido, mesmo que dentro da faixa mais baixa do preço esperado”, disse uma fonte próxima à negociação. Na esteira do anúncio, as ações mais negociadas da Alpargatas tiveram na segunda forte queda de 8%.

Vários fundos e empresas estavam interessados na aquisição da Alpargatas. Segundo outra fonte próxima ao acordo, as conversas relativas à venda da Alpargatas começaram há cerca de três meses e sete propostas iniciais teriam sido colocadas à mesa. A J&F não faria parte do primeiro rol de interessados, mas chegou na reta final com uma proposta agressiva. 

Entre os interessados que estavam analisando o ativo de perto há mais tempo do que a J&F estavam, de acordo com fontes, os fundos parceiros Pátria/Blackstone e a "dobradinha" entre o fundo Tarpon e a empresa de investimentos da família de Abilio Diniz, a Península. Tarpon e Península já foram parceiros na compra de uma fatia minoritária da BRF, maior rival da JBS Foods no mercado de alimentos. A necessidade de fundos buscarem parcerias para a aquisição do negócio estaria relacionada ao alto custo da transação.

Para entender
Negócios da Alpargatas vão além do chinelo
Negócios da Alpargatas vão além do chinelo

Apesar de a Havaianas ser considerada uma das poucas marcas brasileiras de alcance global, a atuação da Alpargatas vai além do negócio de sandálias, que também inclui a linha popular Dupé.Nos últimos anos, a Alpargatas está tentando se desvincular da imagem de calçadista para se tornar uma empresa de moda, com forte presença no varejo. A Havaianas tem as lojas especializadas em chinelos, mas também vende sua própria linha de roupas - ligada à moda praia - em algumas unidades.A companhia também é dona da grife carioca Osklen, marca fundada pelo médico e estilista Oskar Metsavaht. Como o valor médio de compras da Osklen é alto e a marca tem forte apelo internacional, a aquisição foi vista como uma forma de o grupo começar a colocar os pés no setor de luxo acessível.Há duas semanas, a empresa se desfez das marcas Topper e Rainha, que andavam meio esquecidas no Brasil e tinham baixa rentabilidade. Os ativos foram vendidos ao empresário Carlos Wizard Martins por R$ 48 milhões.

Lucro com dólar. A vantagem do grupo J&F sobre a concorrência residiu justamente em seu caixa robusto. O grupo faturou R$ 126,2 bilhões no ano passado. Somente no terceiro trimestre de 2015, a JBS, principal empresa do grupo, teve ganhos superiores a R$ 10 bilhões com operações com derivativos cambiais. O fato de a proposta do grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista ser à vista foi crucial na decisão da Camargo Corrêa. O dinheiro saiu do caixa da J&F, apurou a reportagem, sem necessidade de financiamentos. 

No que se refere ao preço, o Estado apurou que o valor por ação considerado aceitável pela Alpargatas estava na faixa de R$ 12 a R$ 14 por ação. A proposta da J&F foi de R$ 12,85. O novo controlador terá 44,12% da companhia, sendo 66,99% das ações ordinárias e 19,98% das preferenciais. Entre os demais sócios da dona da Havaianas estão o investidor Silvio Tini de Araújo e sua holding Bonsucex, que têm, juntos, cerca de 20%. O restante está no mercado.

A Camargo Corrêa tinha a intenção de arrecadar dinheiro para saldar diferentes obrigações. A empreiteira do grupo assinou um acordo de leniência dentro das investigações da Operação Lava Jato, que apura esquemas de corrupção na Petrobrás. O grupo deverá pagar R$ 804 milhões aos cofres públicos. Além disso, a companhia é pressionada pelo endividamento da InterCement, seu braço de produção de cimento. Entre os demais negócios da Camargo Corrêa estão a concessionária de rodovias CCR, a companhia de energia CPFL e a fabricante de tecidos Tavex.

Diversificação. Para a J&F, a compra da Alpargatas representa um passo definitivo em direção à diversificação de seus negócios. Ainda bastante associada ao setor de agricultura e pecuária, a empresa quer agora ser vista como um investidor multissetorial. A compra de 44,12% da Alpargatas será a porta de entrada do grupo no setor de fabricação e varejo de calçados.

Conhecida pela marca Havaianas, a Alpargatas também vem diversificando seu portfólio. Além da marca de sandálias, a empresa produz e distribui no Brasil os calçados esportivos Mizuno e a marca de roupas e sapatos para esportes ao ar livre Timberland. A empresa entrou recentemente no segmento de luxo acessível, ao comprar a rede de lojas Osklen, fundada por Oskar Metsavaht.

A estimativa da J&F e da Camargo Corrêa é fechar a operação de venda em até 60 dias (caso isso não ocorra, os valores do negócio podem ser corrigidos). A J&F declarou ainda, no documento em que anunciou o negócio, que não fechará o capital da Alpargatas na BM&FBovespa por um período de um ano.


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