Dona do 'USA Today' compra site de comércio eletrônico de veículos

Aquisição no valor de 1,8 bilhão mostra estratégia do grupo de mídia diante dos desafios do mercado na era digital

Kevin G. Hall, McClatchy Tribune Services

06 de agosto de 2014 | 15h13

WASHINGTON - O anúncio feito pela gigante jornalística Gannett na terça feira referente aos planos de comprar a participação de seus quatro parceiros de mídia no site cars.com ao custo de US$1,8 bilhão é ao mesmo tempo uma história de sucesso para o combalido setor dos jornais e um indicativo dos desafios do futuro.

Maior empresa americana de jornais, a Gannett disse que compraria os 73% de participação sob o controle de seus sócios na Classified Ventures, dona do popular site de compras cars.com.

A Gannett comprou as fatias pertencentes a McClatchy, Tribune Media Co., Graham Holdings Co. e A. H. Belo Corp. E, como previsto por muitos observadores da indústria, a Gannett também se reorganizou na forma de duas empresas de mídia de capital aberto, deixando suas operações jornalísticas num empreendimento separado e reunindo os empreendimentos digitais sob uma nova empresa que também vai controlar a grande participação da Gannett nas transmissões.

O acordo confere à Gannett, que publica o USA Today, o controle total sobre um site rentável e dá aos antigos sócios uma infusão de dinheiro num momento de grande valorização para os empreendimentos na internet.

“Em termos simples, essa foi uma daquelas aquisições que fazem todo o sentido do ponto de vista financeiro e estratégico”, disse Gracia Martore, presidente e diretora executiva da Gannett, durante telefonema com analistas de investimento.

Como única proprietária, a Gannett pode “levar o empreendimento a um nível superior”, disse Gracia, acrescentando que vai se tornar diretora executiva de uma nova empresa de capital aberto que reúne transmissão e meios digitais de alto crescimento.

Em entrevista, o diretor executivo da McClatchy, Patrick Talamantes, indicou que a venda seria considera um marco. “Fomos sócios por 17 anos. Durante todo esse tempo tivemos uma joint venture. Como costuma ocorrer com muitas joint ventures, chegamos ao momento de uma transição de propriedade”, disse ele. “As mudanças dentro do grupo de proprietários, e mesmo entre os grupos participantes, foram de tal ordem que, para alguns deles, a melhor opção pareceu ser deixar o empreendimento, e a Gannett proporcionou os meios para que os demais seguissem adiante.”

Eis a razão de a venda ser um marco: quando foi fundada em 1997, a Classified Ventures era uma forma de as editoras de jornais dividirem o risco de criar uma empresa digital que ajudou a compensar por aquela que se revelou uma imensa perda na renda com mídia impressa por causa da fuga dos anunciantes. 

Na época, os classificados foram prejudicados pelo Craigslist e outros serviços que só funcionavam na internet. Mas as editoras de jornais se mantiveram juntas e transformaram o cars.com e sites parecidos em importantes empresas de mérito próprio. O valor da venda, US$ 1,8 bilhão, mostra como o empreendimento teve bom desempenho e seu potencial de render ainda mais.

“Eles estão passando de um modelo de startup para um modo proprietário”, disse Ed Atorino, analista veterano de valores mobiliários especializado em mídia a serviço da Benchmark Co., de Nova York.

O site cars.com, que recebe 10 milhões de usuários diferentes por mês e oferece 4,3 milhões de carros novos e usados vendidos por 20 mil concessionárias, cresceu constantemente desde a sua criação em 1997. A venda do cars.com ocorre sete meses depois que a Cox Enterprises pagou US$ 1,8 bilhão por 25% de participação no autotrader.com, maior site de venda de carros do mundo, com 14 milhões de usuários diferentes por mês.

“Ocorreu que o mercado para bens na internet se tornou cada vez mais forte”, disse Talamantes, acrescentando que a renda proporcionada pela venda -  a McClatchy deve receber US$ 406 milhões após a tributação - permitirá à empresa investir em novos empreendimentos na internet. 

“O cars.com só atende a um segmento relativamente limitado das nossas atividades. Acreditamos que, ao vender esse bem, poderemos beneficiar todo o nosso portfólio de anunciantes, e não apenas o segmentos automotor.” Mas analistas como Atorino logo alertaram que a queda na renda proporcionada pelos anunciantes na mídia impressa continua a limitar as perspectivas dos jornais para o longo prazo - um dos motivos que levou a Gannett a se desfazer de seu braço nos jornais.

“Os jornais têm um ambiente desafiador. E a televisão está prosperando. Fim da história”, disse Atorino.Tradução de Augusto Calil

 

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