Tasso Marcelo|Estadão
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Dono da Marfrig compra ações para continuar maior acionista do grupo

BNDES, que injetou R$ 4 bilhões no frigorífico, se tornaria sócio majoritário do negócio a partir de janeiro, com 32,5%, ao converter debêntures em ações; para evitar isso, Marcos Molina e esposa foram a mercado para elevar sua participação a 39%

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2016 | 05h00

A um mês de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se tornar o maior acionista individual da Marfrig, ao exercer seu direito de converter títulos da dívida (debêntures) da companhia em ações, o empresário Marcos Molina, fundador e presidente do conselho de administração do frigorífico, resolveu ir à Bolsa para comprar ações e se manter como o sócio principal da companhia.

Sem o movimento de Molina, que se intensificou em novembro, a fatia do banco de fomento na companhia saltaria de 19,61% para 32,5% – ultrapassando a participação da MMS, holding do empresário e de sua esposa, Marcia Paschoal dos Santos. Nos tempos de bonança da economia, o BNDES elegeu o Marfrig como uma de suas apostas de “campeões nacionais” no setor de carnes, ao lado de outros frigoríficos, como JBS, Bertin e Independência.

Molina foi à Bolsa garantir a fatia majoritária da Marfrig de duas formas. Ao comparar ações por meio da MMS, elevou sua participação para 30,8%. Mas o casal também adquiriu papéis como pessoa física, elevando a fatia total na empresa para 39,02%. O BNDES, em janeiro, chegará aos 32,5% com a conversão dos debêntures, enquanto outros acionistas deverão ter a participação diluída.

Como parte do acordo de acionistas, o BNDES passará a ter dois nomes no conselho de administração da companhia. “Molina continuaria como controlador, mesmo que tivesse uma fatia menor do que a do BNDES. No entanto, como principal acionista, o banco poderia vender sua fatia em bloco, obrigando Molina a aceitar, mesmo a contragosto, um novo sócio. Obviamente que o banco perderia dinheiro com a venda de sua fatia no frigorífico, mas é conhecido o fato de o banco precisar gerar liquidez”, explicou uma fonte de mercado.

Em entrevista ao Estado, Marcos Molina afirmou que começou a comprar ações da própria companhia porque os papéis estavam baratos. Também atribuiu esse movimento ao “efeito psicológico” por ser o controlador, mas ter menos ações que o BNDES. “Acredito na companhia e acho que o valor das ações de hoje não reflete o peso do nosso mais importante ativo, a Keystone Foods.”

Filho de açougueiro, Molina iniciou a Marfrig nos anos 1980 e capitaneou a expansão inicial do negócio. Com a ajuda do BNDES, fez pesadas aquisições e a empresa chegou a valer R$ 8,2 bilhões, em 2010. Foi dona da marca de varejo Seara e da irlandesa Moy Park, que tiveram de ser repassadas ao JBS para reduzir dívidas. Ontem, seu valor de mercado na BM&FBovespa era de R$ 3,28 bilhões.

‘Campeãs’. O incentivo às “campeãs nacionais” começou em 2007, no governo Lula. Com empréstimos em condições generosas e compras de participação, o banco injetou cerca de R$ 18 bilhões não apenas em frigoríficos, mas também em empresas de leite, como a LBR, que quase quebrou e foi adquirida pela francesa Lactalis. Investiu ainda na operadora Oi e na Fibria, de papel e celulose.

Dentro dessa política de incentivo, a Marfrig emitiu, em 2010, R$ 2,5 bilhões em debêntures conversíveis em ações em cinco anos. Todos os papéis foram subscritos pela BNDESPar, braço de participações do banco, para bancar a compra da americana Keystone, uma das maiores fornecedoras de carnes processadas para redes como McDonald’s.

Procurado, o BNDES esclareceu que os títulos tinham juros prefixados. Informou ainda que, em relação às debêntures emitidas em 2010, o banco terá recebido cerca de R$ 1,8 bilhão em juros até a conversão. “A BNDESPar continuará buscando fortalecer a governança corporativa de suas investidas e entende que sua participação nos conselhos é um instrumento importante para o desenvolvimento do mercado de capitais”, disse a instituição, em nota.

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