Dresdner: pela 1ª vez no ano,vemos investidor preocupado com Brasil

"O fundo soberano pode atrasar o grau de investimento", avalia o economista-sênior do banco, Nuno Camara

Luciana Xavier e João Caminoto da AE,

27 de novembro de 2007 | 17h21

O governo conseguiu colocar no mercado doméstico preocupações até então inexistentes e esse ruído deve manter o dólar em alta por mais algum tempo. A avaliação é do economista-sênior do banco Dresdner Kleinwort em Nova York, Nuno Camara. "Pela primeira vez este ano, vemos o investidor preocupado em relação ao Brasil. Há dúvida se haverá uma guinada na condução da economia no País", afirmou ele em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.    Ouça entrevista com Nuno Camara  Segundo Camara, o movimento de alta da moeda norte-americana se deve ao aumento da remessa de lucros e dividendos, à realização de lucros e à uma "grande aversão a risco". Essa aversão seria por causa das preocupações com a economia dos Estados Unidos e às notícias recentes no Brasil sobre a criação de um fundo soberano e a possibilidade de maior intervenção no câmbio.  Para Camara, a criação do fundo "não é uma notícia boa", pois o fundo não está sendo criado a partir de superávit nominal. Ele ressaltou que também há muita incerteza de como será o fundo e se o Banco Central fará parte de todo o processo. "O fundo é uma mensagem negativa para as agências de risco e pode atrasar o grau de investimento", disse Camara. Segundo ele, até a notícia de criação do fundo soberano mudar o cenário, o Dresdner apostava que o upgrade do Brasil para grau de investimento poderia vir ainda no final deste ano. Agora, segundo Camara, essa classificação deve ser adiada.  Gastos - O economista disse ainda que existe preocupação com a qualidade dos gastos no Brasil e que os sinais de que essas despesas vão continuar aumentando só pioram a percepção de risco. "É necessário que o governo pare de ser um grande tomador de recursos, um grande gastador. O problema não está na quantidade, mas na qualidade do gasto", observou. Camara ressaltou, no entanto, que, embora a percepção de risco do Brasil não vá mudar drasticamente, a valorização de ativos brasileiros ocorrerá de forma mais lenta, uma vez que o cenário externo esteja mais calmo. Segundo ele, o Brasil deixou de aproveitar o bom momento da economia mundial dos últimos anos para crescer e fazer as reformas necessárias. "A abundância de liquidez não foi bem aproveitada", comentou.  Para Camara, a carga tributária do País continua muito alta e o adiamento da reforma tributária é outro péssimo sinal para o investidor estrangeiro. "O governo não está focando no cerne da questão e continua batendo na tecla de gastar mais", criticou o economista. Segundo ele, se o Brasil quiser crescer 5%, 6% ou mais nos próximos anos será necessário reduzir a carga fiscal. Camara afirmou ainda que ao criar o fundo soberano o governo quer tentar conter a queda do dólar. "Esse seria o caminho mais rápido para intervir no câmbio. O caminho mais longo e mais eficaz será desonerar o setor produtivo", disse o economista, que também critica a possibilidade de anúncio de pacote de medidas cambiais pelo governo. "Medidas cambiais não funcionam. São medidas de curto prazo e ineficazes."  Ele ressaltou que os cerca de US$ 70 bilhões comprados pelo Banco Central nas atuações no mercado à vista ao longo deste ano, até agora, não impediram que o dólar continuasse a cair. "Não há o que fazer. Melhor é mesmo desonerar o setor produtivo", reforçou. Segundo Camara, a aversão a risco deve continuar nas próximas semanas e, basicamente, a percepção de risco em relação ao Brasil irá depender dos sinais que serão dados pelo governo. O que até há pouco tempo era um quadro mais seguro, mesmo com a crise do mercado imobiliário dos Estados Unidos, hoje é cenário de incertezas, explicou. Aversão - "É importante que o arcabouço institucional no País, principalmente no Banco Central, permaneça intacto. Isso sim poderia gerar uma venda de ativos do Brasil muito grande, principalmente numa época de grande aversão a risco, que é o que deve ocorrer nas próximas semanas", afirmou.  Para Camara, fatos recentes, como a substituição de diretores e exclusão de alguns economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram um cenário diferente no Brasil do que se tinha até pouco tempo. "O que a gente vê, de um modo geral e que vai além do Ipea, é que houve mudanças nas diretrizes da política econômica, com ênfase mais desenvolvimentista, que cria uma necessidade de gastos maior", disse. Segundo ele, é justamente essa intervenção maior do Estado na economia que o investidor estrangeiro não gosta. "Se esse movimento persistir e se houver percepção de que essa interferência vai chegar no Banco Central, que não é autônomo pela lei, aí sim a percepção de risco Brasil pode piorar significativamente", afirmou Camara. O economista mantém projeção de dólar a R$ 1,70 no final do ano, embora cogite revisá-la para cima caso os "ruídos do governo" persistam. "Se os sinais vindos do País, principalmente em relação ao fundo (soberano) e a outros fatores, continuarem sendo ambíguos, podemos mudar nossa previsão muito facilmente", afirmou.  Camara também mantém previsão de Selic estável em 11,25% ao ano na reunião de dezembro do Copom, que acontece na semana que vem, nos dias 4 e 5. "Ninguém ousa apostar em outro cenário", comentou. No entanto, ele condiciona a política monetária em 2008 aos sinais e decisões que forem tomadas pelo governo nas próximas semanas. "Se houver alguma incerteza no Brasil em relação à política monetária, isso pode afetar o investimento, o que é uma má notícia para a sustentabilidade do crescimento econômico e, conseqüentemente, juros. Todo esse ruído só retarda o processo de afrouxamento monetário", afirmou.

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