Durante o G-20 reconheceu-se guerra cambial pela primeira vez, diz Mantega

'Quando se reconhece, há o comprometimento de tomar determinadas decisões', afirmou o ministro

Célia Froufe, Adriana Fernandes e Eduardo Rodrigues, da Agência Estado,

25 de outubro de 2010 | 17h02

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, enfatizou há pouco que, durante a reunião do G-20, foi a primeira vez em que houve o reconhecimento internacional da existência de uma guerra cambial. "Quando se reconhece, há o comprometimento de tomar determinadas decisões", afirmou o ministro.

Segundo ele, em conversa que teve com o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, houve compromisso de que os Estados Unidos não deixarão que o dólar sofra grande alteração. Essa posição americana é importante, na avaliação de Mantega, porque há o temor de manipulação do câmbio. Ele lembrou que, durante a crise de 2008, o maior receio era com o protecionismo.

"Manipular o câmbio é uma maneira de protecionismo ou de ser subvencionista", alegou. "Isso acaba comprometendo o livre comércio", continuou.

Mantega ressatou também que é a favor da paz cambial, ao ser questionado sobre o fato de ser o primeiro ministro a revelar a existência de uma guerra cambial entre os países. "Eu não declarei guerra, apenas revelei". Ele disse que deu essa declaração porque tinha observado um movimento entre os países que se configurava numa guerra cambial.

O ministro também disse que objetivo do governo brasileiro com as medidas cambiais é proteger o emprego no Brasil para os brasileiros. Mantega destacou que as medidas visam impedir que o real se valorize e que os produtos nacionais percam competitividade. Isso traz perdas para as empresas e, consequentemente, para o emprego.

Coordenação cambial

O ministro afirmou que na próxima reunião de cúpula do G-20 em novembro já deverá estar especificado o mecanismo de coordenação cambial e estímulos de mercado, que foi acertado na reunião preparatória entre ministros de fazenda e presidentes de bancos centrais do G-20 no último fim de semana. Com o comunicado oficial dessa reunião de ministros, Mantega leu e destacou um trecho em que os ministros de finanças por consenso acertaram que é preciso avançar na direção de sistemas cambiais mais determinados pelo mercado, que repliquem os fundamentos econômicos dos países e evitem a desvalorização competitiva das moedas.

Mantega disse que é de fundamental importância o trecho do documento que diz que as economias avançadas, incluindo aquelas com moeda de reserva internacional (moedas mais importantes do mundo), serão vigilantes contra a excessiva volatilidade e movimentos desordenados na taxa de câmbio. Mantega disse que esse trecho do documento foi um recado para as economias avançadas, que têm moedas de reservas. Ele não citou quais são esses países.

Mantega disse que a inclusão da guerra cambial entrou forte na discussão do G-20 e que essa decisão de explicitar o problema foi muito importante. Segundo ele, para administrar o problema é melhor explicitá-lo do que escondê-lo.

O ministro também destacou que é importante o reconhecimento do G-20 de que não pode haver manipulação no câmbio e que o câmbio deve refletir a situação econômica de cada país. Países que têm superávit comercial têm valorização de suas moedas e países que têm déficit comercial podem desvalorizá-las. O mesmo raciocínio vale para a conta corrente do balanço de pagamentos. O ministro destacou que o Brasil tem hoje déficit em conta corrente e que, pelas condições de mercado, a nossa moeda deveria estar desvalorizada. Ele disse que o Brasil teve papel importante nessas discussões do G-20.

G-20

Mantega disse que preferiu ficar no Brasil na semana passada a participar da reunião do G-20 por conta das várias medidas  tomadas para o câmbio no período. "Fiquei aqui porque o Brasil tomou vária medidas cambiais. Precisei anunciar, ver o efeito e fazer ajustes", justificou.

De acordo com ele, essa decisão não enfraqueceu a posição do País apesar de Mantega ter sido o primeiro a revelar a existência de uma guerra cambial internacional. "Isso não enfraquece a posição do Brasil. Estive há duas semanas em Washington e lá coloquei a nossa posição", argumentou.

Além disso, Mantega afirmou que conversou com o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, e com o diretor geral do OMC, Pascal Lamy. "Preferia ter estado lá, mas achei mais importante estar aqui", disse, acrescentando que recebeu o documento oficial do G-20 na madrugada de sexta-feira.

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