...E o vento levou mais uma videolocadora do mercado

...E o vento levou mais uma videolocadora do mercado

Uma das mais conhecidas locadoras de filmes de arte de São Paulo fecha as portas por causa da concorrência da pirataria de DVDs, dos filmes baixados gratuitamente na internet e da TV paga

Cley Scholz, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2014 | 17h15




Alguns clientes se emocionam ao ver o cenário. Pilhas de filmes clássicos em oferta na derradeira liquidação de uma das últimas locadoras da cidade. A Home Vídeo, que funciona há 27 anos na praça Vilaboim, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, vai fechar as portas. Na entrada, uma faixa avisa: 'Passa-se o ponto'. 

"O mercado acabou", afirma Hermínio Paschoal Filho, um dos sócios da casa. Na verdade, explica ele, a decadência começou com a chegada ao País da gigante americana Blockbuster, há dez anos, quando o mercado americano já começava a entrar em crise por causa da competição da internet e dos serviços de vídeo por demanda na TV a cabo. "Eles exploraram o que puderam no Brasil e depois foram embora", diz Hermínio, referindo-se à gigante americana que também não suportou a disputa de mercado e fechou no ano passado as últimas lojas da rede que chegou a ter 9 mil filiais nos EUA.

Mas o golpe mortal nas locadoras brasileiras não vem na internet e nem da TV paga, que estão mudando os hábitos e o mercado no mundo inteiro. "Aqui não dá mais para trabalhar, com os vendedores ambulantes vendendo discos piratas a R$ 5 ou R$ 2 em qualquer feira livre antes mesmo do lançamento nos cinemas", lamenta o empresário, que cobrava R$ 10 por filme alugado por dois dias. 

A Home Vídeo foi criada em 1987, quando começou alugando fitas de videocassete. O mercado cresceu e Hermínio e seu sócio, o arquiteto Marco Maysinger, abriram mais três lojas. Chegaram a ter 27 mil títulos, a grande maioria de clássicos do cinema e especialmente filmes de arte e do cinema europeu. A qualidade da coleção garantiu alguns anos extras de sobrevivência. 


Segundo os empresários, a transformação do mercado representa uma catástrofe para a cultura. "A internet e a TV paga oferecem muita coisa, mas é um mundo guiado pela audiência", diz Hermínio. "Estamos perdendo um acervo de inestimável riqueza cultural." Na opinião dele, a tecnologia e a pirataria transformaram a mídia gravada em discos em um produto descartável, sem valor.

Segundo o sindicato paulista de videolocadoras, o Estado já teve cerca de 3 mil locadoras em 2006, mas o número caiu pela metade em 2011 e continua encolhendo. O público, que trocou as fitas de vídeo pelo DVD e mais recentemente pelo Blu-Ray, sempre em busca de melhor qualidade, agora prefere a comodidade de alugar pela TV ou pela internet sem precisar sair de casa.


Entre janeiro e julho deste ano, as vendas de aparelhos DVD Player e Blu Ray caíram 11% e 27%, respectivamente, em comparação com o mesmo período de 2013, segundo a consultoria de varejo GVK. Já os aparelhos de Home Theater cresceram cerca de 5%, pois ainda servem para os novos tempos de filmes piratas, baixados na internet ou via TV paga. 

Acabou-se uma era em famílias e grupos de amigos divertiam-se circulando pelas prateleiras em busca de novidades do mundo do cinema. Para muitos vizinhos da Home Vídeo, o sentimento é de perda de uma escola ou um centro cultural.

O movimento na loja, que chegava a mais de 2,5 mil locações por semana, caiu mais de 80% nos últimos 12 meses. O número de funcionários caiu de 15 para 4 no período. Faz alguns meses, os dois sócios perceberam que estavam perdendo dinheiro, e o prejuízo era cada vez maior. "Não dá mais para trabalhar", diz o empresário, que decidiu se aposentar e passar uns tempos na Europa. "Lá também não existem mais locadoras, isso agora é coisa do passado."

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