FOTO SORAYA URSINE / ESTAD?O
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Em Cannes, uma discussão sobre masculinidade

Na esteira de movimentos como Me Too e Time’s Up, painel abre espaço para a redefinição sobre o papel do homem na sociedade

Fernando Scheller, enviado especial Cannes, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 04h00

Em um momento em que movimentos femininos discutem questões como o combate ao assédio e a busca pela igualdade de renda, um painel realizado nesta segunda-feira, 18, durante o Cannes Lions – Festival Internacional de Criatividade, discutiu o papel da masculinidade no mundo atual. A moderadora da discussão, a futurista Faith Popcorn, partiu de um dado alarmante: se a posição do homem é tão confortável, por que eles representam 70% do total de suicídios nos Estados Unidos? 

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Enquanto movimentos como Time’s Up e Me Too buscam a igualdade de direitos entre homens e mulheres e combatem abusos cometidos por figuras masculinas em posições de poder, o painel tentou mostrar que existe espaço para que se debata uma mudança conceitual dos papéis que são atribuídos a cada um dos gêneros. O Estadão é o representante oficial de Cannes Lions no Brasil.

Um dos debatedores, o sociólogo Michael Kimmel, autor de estudos sobre masculinidade, disse que os homens não estão apenas sendo afetados pelas mudanças trazidas pela igualdade de gêneros – como maior participação em tarefas domésticas ou uma função mais ativa na criação dos filhos. Aos poucos, o conceito social do que se espera de um homem também começa a mudar. Cria-se, assim, uma nova masculinidade. 

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“Hoje, os homens vivem de uma maneira que seria irreconhecível para seus avôs. É um comportamento completamente diferente”, diz Kimmel. No entanto, muitas vezes os homens que querem ser agentes da mudança enfrentam a resistência de seus pares. Isso se reflete, por exemplo, no fato de que, hoje, a maior parte dos americanos não tira licença-paternidade, mesmo quando as empresas onde trabalham oferecem o benefício.

“Conheço o caso de um advogado, que trabalhava em um grande escritório, e pediu a licença-paternidade”, lembrou Kimmel. “O diretor-geral da firma, um homem de 64 anos, foi até ele e disse: ‘Eu trabalho aqui há 40 anos e nem sei o dia do aniversário dos meus três filhos’”. O advogado percebeu, contou o sociólogo, que precisava deixar a empresa, pois ela não comungava da relação que ele queria ter com a família.

Espaço feminino. Fundadora da empresa The Riveter, que cria espaços de coworking dedicados às mulheres, a empresária Amy Nelson lembrou que, apesar do avanço feminino e da nova pressão exercida sobre a identidade masculina, é cedo para dizer que os homens possam ser considerados vítimas. “Eles estão no comando desde o começo dos tempos e continuam a estar”, citando a eleição de Donald Trump nos EUA como um ato de resistência de velhos conceitos.

A força que o velho patriarcado ainda tem, segundo Nelson, fica evidente na ínfima participação feminina em cargos de comando – das 500 maiores companhias dos EUA, só 24 são lideradas por mulheres. A falta de representatividade foi, aliás, o que motivou a criação da The Riveter. “Em todas as outras empresas de coworking, não há sequer uma sócia mulher. Era uma oportunidade.”

O painel comandado por Faith Popcorn abriu também espaço para a questão da fluidez de gênero, com a participação de Victoria Chachki, vencedora da sétima temporada do programa Ru Paul Drag Race. Victoria, que se identifica como não binária, disse que, em seu caso, essa neutralidade é uma espécie de resistência política: “É uma reação ao padrão de masculinidade tóxica que me foi imposto.”

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