WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Em meio à alta das commodities, pequenas cervejarias tentam segurar preços

Empresas reduzem margens e eliminam produtos sofisticados; associação, porém, vê perigo de negócios não sobreviverem à crise

Shagaly Ferreira, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 05h00

A disparada das commodities com a guerra na Ucrânia acendeu um alerta para o mercado de cerveja artesanal no Brasil. Dentre os insumos para produção da bebida, o milho teve alta de 17,95% desde fevereiro, enquanto o trigo disparou 30%. Em um cenário de aperto financeiro no mercado interno, os pequenos fabricantes têm optado por reduzir margens de lucro para não perder vendas.

Fundador da cervejaria artesanal Marmota Brewery, Rodrigo Addor conta que o preço pago por uma saca de malte – derivado de cereais – saltou de R$ 80 para R$ 120 em dois meses. Para que a conta não caia nas mãos dos clientes, a opção foi reduzir em 10% a margem. “Mas, se o panorama econômico continuar assim, vamos ter de repassar alguma coisa”, diz.

Com a produção mais cara, Addor explica que sua prioridade também tem sido fabricar em maior escala opções mais baratas, reduzindo as de maior teor alcoólico. “As pessoas já estão pagando muito caro por produtos de consumo básico. Sobra muito pouco para a gente”, ressalta.

Para quem trabalha com vendas, o cenário não é diferente. O site Clube do Malte, especializado em cervejas artesanais, teve de aumentar o volume de compras em busca de preços mais atrativos. O cofundador Douglas Salvador, explica que, além da alta das commodities, o negócio sofre impactos das variações cambiais – a recente queda do dólar, diz ele, ainda não resultou em redução de preços para o Brasil.

O gerente de agronegócios da Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais (FAEMG), Caio Coimbra, pontua que a produção cervejeira no Brasil é altamente dependente de matéria-prima do exterior. A preocupação é sobre quais países podem fornecer materiais com valores mais competitivos. “O medo não é de faltar insumos. A questão é quem vai substituir Rússia e Ucrânia – e a que preço”, diz.

PORTAS FECHADAS

Para o diretor geral da Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), Paulo Petroni, a redução das margens pode resultar no fechamento de negócios. “O fôlego é diretamente proporcional ao tamanho das empresas. Se o conflito se estender muito, a gente vai ter mais encerramentos das pequenas”, afirma. Já o presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Gilberto Tarantino, relembra que a produção vem sendo prejudicada desde 2020, pois a pandemia trouxe escassez de certos insumos.

Para Isabel Nasser, especialista em comércio exterior,  são poucas as alternativas de curto prazo para equilibrar custos. “Grandes empresas buscam contratos mais longos. Para as menores, a situação é mais complicada, pois as negociações são spot (à vista) e ficam completamente à mercê do mercado.”/COLABOROU GABRIELA BRUMATTI

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