Ross Mantle/The New York Times
Ross Mantle/The New York Times

Em um mundo inundado por plásticos, uma fábrica gigante surge nos EUA para produzir ainda mais

Projeto em construção vai produzir 1 milhão de toneladas por ano de peças plásticas que serão transformados em produtos como capas de celular e embalagens de alimentos

Michael Corkery, The New York Times

12 de setembro de 2019 | 09h00

MONACA, Pensilvânia - A propriedade de 156 hectares parece um Lego gigante às margens do Rio Ohio. É um dos projetos de construção mais ativos nos Estados Unidos, empregando mais de 5 mil pessoas. Quando concluída, a fábrica será alimentada por dutos de centenas de quilômetros através dos Apalaches. Terá sua própria ferrovia, com 3.300 vagões de carga. E produzirá anualmente mais de 1 milhão de toneladas do que muitas pessoas afirmam que o mundo menos necessita: plástico.

Enquanto aumentam as preocupações com os resíduos plásticos no oceano e a reciclagem sendo feita cada vez menos nos Estados Unidos, a produção de novos plásticos explode. A fábrica que a Royal Dutch Shell vem construindo a 40 quilômetros a noroeste de Pittsburgh, produzirá minúsculos pellets que serão transformados em produtos como capas de celular, peças para automóveis e embalagens de alimentos, e tudo isso será descartado depois de servirem ao seu objetivo.

A fábrica é uma das mais de uma dezena de manufaturas que vêm sendo criadas ou propostas em todo o mundo por companhias petroquímicas como Exxon Mobil e Dow, incluindo várias em Ohio, na Virgínia Ocidental e na Costa do Golfo. Depois de décadas de empregos na indústria americana indo para o exterior, a ascensão do setor petroquímico vem provocando entusiasmo. 

“Nós entendemos que o plástico, em muitas das suas formas, é bom e pode ser um bem para a humanidade”, disse Hilary Mercer, que supervisiona o projeto de construção da Shell.

O boom é impulsionado em parte pela popularidade do plástico como material versátil e barato que mantém frescos os chips de batatas e torna os carros mais leves. Mas em áreas da região dos Apalaches, ele também é alimentado pela superabundância de gás natural.

Faz 15 anos desde que o fraturamento hidráulico se impôs na Pensilvânia, localizada numa imensa área de reservas de gás, Marcellus Shale. Mas os preços do gás natural despencaram e o lucro passou a ser buscado em outros produtos, ou seja, no etano, subproduto do gás natural que é liberado durante o fraturamento hidráulico e pode ser transformado em polietileno, um tipo comum de plástico.

Esse é um lugar onde, neste momento, o plástico faz sentido para muita gente. Para os sindicatos que conquistam novos membros. Para a terceira maior companhia do mundo que enfrenta uma queda nos preços do petróleo. E para as autoridades do antigo governo que, na busca de novos empregos para seus cidadãos, ofereceram à Shell uma das maiores isenções de impostos na história do Estado. Mas o bem a curto prazo pode resultar em custos ao longo do caminho.

Segundo a Shell, grande parte do plástico produzido na fábrica será usado para carros econômicos e instrumentos médicos. Mas o setor reconhece que alguns sistemas de eliminação de resíduos adotados em todo o mundo não conseguem eliminar outras formas de plástico como o das garrafas de água, sacos plásticos usados em supermercados e recipientes para alimentos descartados pelos consumidores.

Estudos detectaram fibras de plástico nos estômagos de baleias, na água de torneira e no sal de cozinha. Um pesquisador na Inglaterra diz que o plástico ajudaria e definir a mais recente camada da crosta terrestre porque ela leva muito tempo para se romper e há muito plástico envolvido nisso.

“O plástico realmente não desaparece”, afirmou Roland Geyer, professor de ecologia industrial na universidade da Califória. “Ele se acumula e acaba nos lugares errados. E não sabemos as implicações no longo prazo de ter todo esse plástico no ambiente natural. É como um experimento global gigantesco e não conseguiremos simplesmente pôr um fim no processo se algo der errado.”

Parte de uma jornada

As raízes dessa fábrica ultramoderna da Shell remontam a centenas de milhões de anos, quando a área estava ocupada por um amplo mar interior. Com o tempo a terra mudou e o mar foi coberto por rochas que comprimiram os organismos mortos e sedimentos que se assentaram no fundo aquoso formando camadas de hidrocarbonetos, incluindo aqueles que formam o gás natural.

Hilary Mercer passou 32 anos viajando pelo mundo para a Shell - no sul do Iraque e na Rússia oriental - ajudando a transformar esses hidrocarbonetos encontrados nas profundezas da Terra em energia. Hoje Hilary, engenheira inglesa Formada em Oxford, trabalha num edifício de tijolos vermelhos em Beaver, Pensilvânia.

A planta que ela veio construir é imensa, disse. Quando concluída ela consumirá vastas quantidades de etano retirado de poços na Pensilvânia transformada num enorme forno. O gás superaquecido é resfriado, formando pellets sólidos do tamanho de um grão de arroz arbóreo. O processo é concluído em 24 horas.

Na opinião da engenheira, esse é um avanço positivo para o meio ambiente. Criar mais plástico, diz ela, reduz as emissões de carbono, pois é possível fabricar carros e aviões mais leves e mais econômicos. “Você tem plástico nas turbinas das aeronaves e também nos painéis solares.”

Ainda segundo Hilary, “a capacidade de fazer coisas renováveis depende até certo ponto dos plásticos e materiais químicos que produzimos. Não vejo contradição nisso. Vejo como parte de uma jornada”.

E a jornada da Shell no caso do plástico foi impelida por uma necessidade de gerar lucros num momento em que suas operações de base - produção de petróleo e gás - sofrem com os preços persistentemente baixos. É também uma maneira de o setor energético se proteger contra o consumo em queda da gasolina, à medida que os carros se tornam mais econômicos ou movidos a eletricidade.

Uma grande demanda de plásticos vem das montadoras e produtoras de bens de consumo como os expostos na imitação de loja no saguão dos escritórios da Shell na Pensilvânia: copos de plástico, fraldas e rolos de papel-toalha embrulhados em plástico.

Há também pilhas de folhetos, intitulados Shell Polymers “Constitution”, onde está escrito: “Fomos atraídos para Beaver Valley pelo desejo de fazer parte de algo maior do que nós - para deixar um legado de proteção, inovação e sucesso para as futuras gerações”.

Hilary Mercer disse que o problema com o plástico não é sua produção, mas o descarte inadequado dos resíduos de plástico. ”Acreditamos piamente na reciclagem”, disse.

A Shell está envolvida numa ampla campanha do setor para limpeza das maiores fontes no mundo de resíduos de plástico. E em Beaver County, a companhia recentemente fez doações em dinheiro para ampliar as horas de abertura do centro de reciclagem local e vem apoiando outras iniciativas que no seu entender contribuirão para uma “economia circular”.

Mas uma economia circular ainda não se implantou em Beaver. Como muitas regiões do país, o condado teve de limitar o tipo de embalagens plásticas para reciclagem porque poucas pessoas desejam redirecioná-los. “Estamos buscando soluções de longo prazo”, disse a porta-voz do centro de reciclagem. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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