Embraer/ Divulgação
Após rápida queda, Embraer parece estar se recuperando Embraer/ Divulgação

Embraer engata rota ascendente após crise da covid e rejeição da Boeing

Corte de custos, aposta no ‘carro voador’ e início de retomada do setor de aviação comercial ajudam empresa; analistas veem espaço para valorização de ações na Bolsa

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

A tormenta vivida pela Embraer em 2020 foi violenta. Poucas empresas sofreram tanto quanto a fabricante de aviões, que assistiu à demanda do setor despencar enquanto seus clientes estacionavam suas frotas em todo o mundo conforme países adotavam medidas de distanciamento social para conter a covid. Dois meses após o início dessa crise, a companhia sofreu outro golpe, com a Boeing desistindo de comprar sua divisão de aviação comercial. O resultado foi uma queda de 55% nas ações da Embraer e um prejuízo de R$ 1,5 bilhão no ano.

Mas, tão rápido quanto afundou, a Embraer parece estar se recuperando. No ano passado, ainda em meio à pandemia, a empresa registrou um lucro trimestral (entre abril e junho) – o que não acontecia desde o mesmo período de 2018. Ainda teve a maior alta da B3. Enquanto o Ibovespa caiu 12% em 2021, a Embraer subiu 180%. 

Apesar de, no início de 2022, o desempenho da companhia na Bolsa ser negativo, com queda acumulada de 23,5%, o clima entre os analistas da empresa é de otimismo. A XP vê espaço para as ações negociadas no Brasil se valorizarem 44%. Já para os papéis comercializados nos Estados Unidos, o Itaú vê potencial de alta de 47% até o fim do ano; o BTG, de 40% e o Citi, de 22%.

“O que me faz ficar positivo é que não vejo o preço atual da ação refletindo, ao mesmo tempo, a retomada da aviação comercial e a inovação com o ‘carro voador’. Talvez um desses fatores esteja no preço, mas não os dois”, diz o analista Lucas Laghi, da XP.

Aviação comercial

A recuperação da aviação comercial no mundo foi liderada pelo mercado regional, de aviões com até 150 lugares e no qual a Embraer é líder. Com capacidade para 88 assentos, o modelo E175 praticamente não tem concorrente hoje. Em 2020, pior ano da crise da pandemia, 73% dos aviões comerciais entregues pela empresa eram desse modelo. Nos nove primeiros meses de 2021, essa fatia caiu para 47%.

“A Embraer tem grande exposição ao mercado regional e ela mantém liderança com o E175 nos EUA, que é um dos maiores mercados de aviação doméstica”, diz a analista Thais Cascello, do Itaú BBA.

A retomada global da aviação comercial beneficiou não só esse segmento da Embraer, que hoje é responsável por um terço das receitas, mas também a divisão de serviços da empresa, já que a necessidade de companhias aéreas fazerem a manutenção de seus aviões aumentou. A área de serviço e suporte da Embraer é a que tem a maior margem de lucro e sua participação na geração de receita passou de 22,5%, em 2019, para 28,5%, nos nove primeiros meses de 2021.

No segmento de defesa, o bilionário projeto C-390 Millenium (um cargueiro militar, a maior aeronave já desenvolvida pela empresa) foi concluído e parou de gerar gastos. Agora, a expectativa é de que traga receitas. O mercado, porém, prevê que essa divisão tenha uma participação cada vez menor na companhia – de janeiro a setembro de 2021, foi em 16,5%.

Já a área de aviação executiva tem tido um crescimento consolidado, sobretudo porque a Embraer acertou no portfólio de produtos. “A margem tem melhorado cada vez mais”, diz Thais, do Itaú. No último trimestre de 2021, a receita do segmento subiu 17%.

Custos

Além do vento favorável em todas as suas divisões, a Embraer ainda se tornou mais eficiente, enxugando custos. Neste ano, anunciou a venda de duas fábricas em Portugal, que, segundo o presidente da empresa, Francisco Gomes Neto, eram ineficientes. Antes, já havia renegociado contratos e demitido 2,5 mil funcionários (15,6% do quadro brasileiro).

Para coroar o cenário, o eVTOL (sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamada oficialmente o “carro voador”) se tornou a grande aposta para o futuro da aviação, e a Embraer, umas das promessas na área. Em junho passado, quando foi confirmada a notícia de que a Eve (empresa da Embraer que desenvolve o projeto) faria uma fusão com a americana Zanite para abrir seu capital na Bolsa de Nova York, as ações da Embraer saltaram 15,6% em um único dia.

“Como os negócios mais tradicionais estão indo melhor ou não estão causando tanta dor de cabeça para o investidor, o mercado se sentiu mais confortável para precificar o eVTOL. Talvez, se o negócio tradicional não tivesse indo tão bem, a turma não ficaria tão propensa a comprar um negócio novo que ainda precisa se provar”, acrescenta a analista do Itaú.

O presidente da Embraer avalia que, entre todos os fatores que impulsionaram a companhia, os projetos para torná-la mais eficiente e o do “carro voador” são os mais importantes. Gomes Neto diz que, para as ações da empresa subirem como o esperado pelo mercado, será preciso consistência no trabalho. “Precisamos entregar o que prometemos, como fizemos até o terceiro trimestre de 2021.” E a promessa não é pequena. Até 2026, o executivo quer quase dobrar o faturamento da Embraer, na comparação com 2020. 

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‘Temos um agora foco em crescimento sustentável’, diz presidente da Embraer

Executivo afirma que, por enquanto, não há riscos no curto e no médio prazo que ameacem a retomada da companhia

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

Após liderar a Embraer durante uma das maiores crises de sua história  –e também durante o processo de retomada –, Francisco Gomes Neto afirma que a companhia precisa entregar o que promete para continuar avançando na Bolsa. A promessa para este ano é de uma receita líquida entre US$ 4 bilhões e US$ 4,5 bilhões e, para 2026, entre US$ 7 bilhões e US$ 8 bilhões.

Para atingir a meta, o executivo conta com o aumento das vendas em todas as divisões da empresa –  comercial, executiva, defesa e serviços – e com um projeto que já aumentou a eficiência da Embraer nos últimos meses. “Houve uma virada importante em lucratividade, geração de caixa, gestão de estoques e gestão de custos”, diz.

Gomes Neto não vê nenhum risco importante que ameace seus objetivos por ora e afirma que o aumento da taxa de juros globalmente não preocupa. “Não enxergamos nenhum risco no curto ou no médio prazo.”

Leia, a seguir, trechos da entrevista.

Qual o principal fator que explica a recuperação da Embraer na Bolsa?

Colocaria dois. Primeiro, a Embraer é uma empresa mais eficiente. Houve uma virada importante em lucratividade, geração de caixa, gestão de estoques e gestão de custos. Temos um foco agora em crescimento sustentável e melhora da rentabilidade. Por outro lado, conseguimos combinar isso com inovação. Montamos a Eve (empresa que está desenvolvendo o “carro voador”) em novembro de 2020, no meio daquela confusão toda, e conseguimos, em 2021, anunciar esse “business collaboration agreement” (acordo com a americana Zanite para abrir capital na Bolsa de Nova York). Essas duas coisas fizeram aumentar a confiança dos nossos investidores e a procura por nossas ações.

Os analistas veem espaço para a ação chegar a R$ 27 (hoje está em R$ 19). O que precisa ser feito para isso acontecer?

A primeira coisa é consistência no que estamos fazendo. É entregarmos aquilo que prometemos, como fizemos até o terceiro trimestre de 2021. A segunda é melhorar ainda mais nossa relação com os mercados financeiros. É um projeto que temos internamente, de estarmos mais próximos, sermos mais ativos.

Tem algum ruído hoje com o mercado financeiro? 

Não tem ruído. Mas as ações da Embraer são muito pulverizadas no Brasil e principalmente nos Estados Unidos. Então queremos fortalecer mais e comunicar melhor o que estamos fazendo.

A meta do senhor era dobrar o faturamento até 2026. Os resultados de 2021 acompanham esse ritmo?

Temos o potencial de chegar a uma receita entre US$ 7 bilhões e US$ 8 bilhões. É perto de dobrar. Estamos em linha com o esperado. Agora estamos torcendo para o mercado não ter nenhuma outra queda. Acho que esse impacto da Ômicron vai ser mais leve.

Uma retirada de estímulos monetários nos países desenvolvidos, e consequentemente uma desaceleração global, pode ameaçar o crescimento da Embraer?

Olhamos com boas perspectivas a retomada da aviação regional, nos EUA principalmente. Nossos aviões estão praticamente 100% lá. A aviação executiva está em um momento positivo.Não enxergamos nenhum risco no curto ou no médio prazo. É claro que observamos movimentos geopolíticos, mas não temos preocupação de curto prazo.

No ano passado, a Força Aérea Brasileira (FAB) anunciou que reduziria a encomenda dos cargueiros do modelos KC-390 Millenium. O que significou para a companhia financeiramente e também para parcerias futuras com a FAB?

Em termos de parcerias futuras, não muda nada. A FAB e a Embraer têm uma ligação muito importante. Estamos negociando essa redução da quantidade dos KCs com a FAB. Estamos no meio desse processo. Não posso dar muita informação. Posso dizer que está caminhando bem. 

O projeto do “carro voador” é um dos grandes impulsionadores da Embraer na Bolsa. Como situaria a importância dele para a área financeira da empresa e para o desempenho na Bolsa no médio prazo?

A Eve é uma empresa em que a Embraer vai ter participação majoritária e é uma das nossas importantes vias de crescimento. A aviação comercial tem um potencial muito grande de crescer nos próximos cinco anos, com o mercado voltando aos níveis pré-pandemia. A aviação executiva vem crescendo. A defesa tem oportunidades importantes também para o futuro, e a Eve é uma outra frente importante de crescimento para nós. Enxergamos que a Embraer tem um posicionamento diferenciado nesse mercado. Temos mais experiência em certificação de aeronaves que os concorrentes.Temos um conhecimento em fabricar aviões. Os concorrentes não têm. Muitos deles são startups. Temos também uma área de serviço distribuída no mundo todo que pode atender a Eve. Achamos que estamos muito bem posicionados e vamos, sim, ter sucesso com esse produto. 

Como está a arbitragem com a Boeing?

Acho difícil concluir neste ano. É um processo que está seguindo. Não é simples, mas estamos trabalhando bastante.

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Economia nos EUA, competição e problemas com 'carro voador' são riscos para a Embraer

Empresa brasileira ainda precisa aumentar vendas de aviões comerciais, dizem analistas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 05h00

Apesar da melhora no desempenho na Bolsa e operacional, a Embraer ainda está no início de sua recuperação. Há espaço não só para avançar no mercado acionário, como também em seus resultados. E analistas veem riscos importantes que podem atrapalhar a empresa.

“O ano passado foi o grande ponto de virada. A geração de caixa começou a sair do negativo. Achamos que a recuperação vai continuar, mas ainda tem muito para melhorar”, diz a analista Thais Cascello, do Itaú BBA.

Entre os pontos que podem avançar, a analista destaca o aumento das vendas da divisão comercial, que depende sobretudo da recuperação do segmento. Para o Itaú, a volta aos patamares pré-crise pode ocorrer no ano que vem. Isso vai permitir que os custos da empresa sejam diluídos, incrementando as margens.

Mas é nesse retorno das vendas ao nível que se tinha antes da pandemia que os analistas vêem um dos principais riscos de médio prazo. “Quando falamos de retomada da aviação comercial, assumimos um crescimento na entrega de aviões ao longo dos próximos anos. Se o cenário competitivo for mais desafiador do que esperamos, tem risco de impactar a retomada de receita e lucro, que é o que justifica hoje nossa visão positiva para a empresa”, diz o analista Lucas Laghi, da XP.

Concorrência

Laghi também aponta que, no segmento de aviões de 100 a 150 lugares, o E195 da Embraer disputa mercado com o A220 da Airbus. O modelo da fabricante europeia foi adquirido da canandense Bombardier em 2017 e pode ser bastante competitivo, dificultando a vida da Embraer. 

“A Airbus pode oferecer uma solução de venda que combine seu principal produto, o A320 (para 200 passageiros), com o A220. Isso traz mais escala e competitividade para a Airbus”, diz Laghi. Um cenário mais competitivo pode resultar em descontos maiores para atrair os clientes, reduzindo as margens da fabricante brasileira. 

Outro fator preocupante para o analista da XP é o cenário econômico americano. Com o aumento da taxa de juros que o Fed (Federal Reserve, o Banco Central dos EUA) deve promover neste ano, a tendência é que a economia do país desacelere. A Embraer tem nos EUA seu maior mercado, e estaria bastante exposta a esse cenário. O presidente da companhia, Francisco Gomes Neto, no entanto, afirma ver “boas perspectivas” na retomada da aviação regional americana.

Já a analista do Itaú BBA destaca que o desenvolvimento do “carro voador” não só pela Embraer, mas também por suas concorrentes, poderá ameaçar o valor da companhia na Bolsa. “Se uma empresa não entregar o que promete ou não conseguir certificação, isso pode ter uma leitura negativa para a Embraer também, por mais que a situação dela seja diferente. Tudo envolvendo eVTOL (sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamada oficialmente o “carro voador”) estará no radar.”

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