Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Empresário Fabio Carvalho paga R$ 100 mil pela Abril, que tem dívida de R$ 1,6 bilhão

Investidor é sócio das varejistas Leader e Casa & Vídeo e prevê aporte de R$ 70 milhões para equilibrar o caixa do grupo

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2018 | 13h30
Atualizado 20 de dezembro de 2018 | 22h36

Especializado em empresas em crise financeira, o investidor Fábio Carvalho comprou 100% do Grupo Abril, companhia em recuperação judicial desde agosto que publica revistas como Veja, Exame e Cláudia. Carvalho pagou valor simbólico, de R$ 100 mil, pelo negócio que concentra as principais revistas do País, e terá a tarefa de encontrar uma solução para uma dívida de R$ 1,6 bilhão, considerada impagável pelo mercado. O executivo de 41 anos, que é sócio das varejistas Leader e Casa & Vídeo, vai assumir a presidência da companhia.

A Abril ainda não gera receitas suficientes para pagar suas obrigações, apesar da reestruturação capitaneada pela consultoria americana Alvarez & Marsal – que segue no comando da Abril até a aprovação do acordo com Carvalho pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Para garantir o equilíbrio do negócio no curto prazo, Carvalho disse, em entrevista ao Estado, que pretende injetar R$ 70 milhões na Abril. “O primeiro objetivo é estabilizar a empresa, reduzir a sangria de caixa”, explicou.

Esse fôlego operacional pode ajudar o grupo a parar em pé daqui em diante, mas Marcos Haaland, sócio da Alvarez & Marsal que hoje comanda a Abril, disse que o consenso é que a dívida da empresa é “impagável”. A consultoria estruturou um plano de recuperação judicial que prevê desconto de 92% nos débitos, com 18 anos para pagamento. Haaland ressalva que as dívidas trabalhistas estão fora desse patamar de desconto, pois têm prioridade legal. 

O novo controlador da Abril, que classificou o plano de recuperação da Alvarez & Marsal como “consistente”, ponderou que a “prioridade dada a um tipo de credor representará uma severidade maior aplicada a outro”. A aplicação dos descontos às dívidas, no entanto, dependerá da aprovação dos credores, em assembleia que deverá ser realizada em fevereiro.

A dificuldade de recuperação dos débitos da Abril já despertou o apetite de empresas especializadas em compra de dívidas de difícil recuperação. Cerca de R$ 1,2 bilhão da dívida total da dívida está nas mãos dos grandes bancos. A Enforce, controlada pelo BTG Pactual, está disposta a adquirir esses débitos e a se encarregar da cobrança. Carvalho já assumiu negócios em dificuldades que pertenciam ao BTG, como a Leader e a Bravante, de logística marítima. 

As empresas que compram dívidas, segundo Carvalho, têm mais experiência em enfrentar a realidade de um negócio em recuperação judicial, em que as chances de ressarcimento são menores. “Trata-se de uma alternativa para os bancos: eles podem ficar e esperar ou sair agora (do rol de credores).”

Estrutura

Para atrair um investidor, a Abril teve de reduzir sua operação a uma fração da abrangência que a companhia já teve. Hoje, o grupo publica oito revistas impressas: Veja, Exame, Cláudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Saúde, Você S.A. e Você RH. Mantém ainda alguns títulos online, como Capricho e Minha Casa. Além de ter reduzido custos com aluguel ao sair de sua tradicional sede, em São Paulo, a companhia demitiu cerca de 800 profissionais em agosto. Hoje, o grupo tem 3 mil funcionários.

Além da operação de mídia, o grupo mantém negócios como a Casa Cor – de eventos de arquitetura e decoração –, o serviço de entregas de encomendas Total Express, uma gráfica e um braço de distribuição de revistas. “Embora neste momento seja positivo termos receitas alternativas com gráfica e logística, acreditamos que será o negócio de mídia será a forma de alavancagem (da recuperação da Abril)”, disse Carvalho. Procurado, o BTG não comenta. 

3 PERGUNTAS PARA FABIO CARVALHO

1. Ao assumir a Abril, qual será sua prioridade?

Não tem uma surpresa escondida no que eu vou fazer. Ninguém espera que eu faça um milagre. Meu trabalho é garantir a reconstrução das relações da companhia, uma mudança operacional para o futuro do negócio. Não é uma mudança apenas financeira. Eu assumo risco, invisto capital e tempo. No caso da Abril, vou assumir o cargo de CEO.

2. O sr. vai injetar dinheiro novo da companhia?

Sim, cerca de R$ 70 milhões. Primeiramente, o recurso vai financiar a estabilização da companhia, que tem geração de caixa negativa. Vamos reduzir essa sangria do caixa. É só com essa estabilidade que se terá como arcar com as parcelas das dívidas trabalhistas, que queremos pagar o mais rápido possível.

3. Qual será o direcionamento da Abril para gerar mais receita?

Serão dois pilares. O primeiro é a qualidade e a credibilidade do conteúdo. A imprensa é uma instituição social para a sociedade livre. Tenho estudado ícones do jornalismo global, como o New York Times e o Washington Post. Mas temos de aprender também com as gigantes globais e as novas formas de comunicação. Vamos buscar diversos tipos de talentos, ter competência jornalística e inovação no digital e em diversas plataformas.

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