Werther Santana/Estadão - 30/11/2018
Painel da Bolsa de Valores de SP: Tendência de alta dos juros apressa negócios. Werther Santana/Estadão - 30/11/2018

Empresas antecipam captações para se blindar de tensão política e alta de juros

Mercado de debêntures de companhias brasileiras tem crescimento de operações no País e no exterior, mesmo com a escalada da taxa básica de juros, a Selic; um dos motivos é o receio da volatilidade que a eleição de 2022 causará na economia

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 05h00

Diante da antecipação das tensões político-eleitorais e da perspectiva de inflação e juros atingirem patamares mais elevados no ano que vem, várias empresas estão captando bilhões em recursos no mercado para reforçar seus caixas e rolar ou alongar dívidas tomadas antes e durante a pandemia.

O mercado de debêntures viu um boom de anúncios de emissões por gigantes como Comgás, 3R Petroleum, Vibra e Hypera, com operações de cerca de R$ 1 bilhão. Embora a taxa Selic tenha saído de 2% em março para 5,25% em agosto, com as expectativas de que chegue a 8% no final do ano, o custo de captação para as empresas ainda é favorável.

Algumas empresas já começaram a acessar também o mercado externo em busca de recursos. Setembro é tradicionalmente a segunda melhor janela do ano para captações no exterior, com investidores voltando do período de férias. Movida e Suzano levantaram ontem US$ 300 milhões e US$ 500 milhões, respectivamente.

Com as perspectivas de mudança na tendência do juro local e externo, e a incerteza política ameaçando o cenário fiscal e macro, as companhias buscam antecipar operações que eventualmente fariam mais adiante. Especialistas acreditam que várias outras companhias devem acessar o mercado de dívida externa até o final do ano, em montante que pode superar os US$ 3 bilhões somente este mês.

Segundo o diretor de renda fixa e produtos estruturados do Itaú BBA, Felipe Wilberg, nos patamares atuais de custo as empresas olham para seus passivos e começam a antecipar renegociações de dívidas e alongar prazos, considerando a perspectiva de as taxas subirem um pouco mais. Segundo ele, as empresas estão voltando a alongar o prazo médio de suas dívidas. 

A tendência de uma alta mais acentuada nos juros foi reforçada com a divulgação de ontem do índice oficial de inflação (IPCA) de agosto. O dado ficou acima do esperado pelo mercado, no maior patamar em 21 anos, e levou analistas a revisar a previsão da Selic para cima. 

“Em 2019, havia um volume enorme de ofertas, e as empresas AAA (de primeira linha) captavam a CDI mais 1% ou 0,80%, ao prazo de cinco anos. Em 2020, esse custo foi para 3%, agora falamos algo em torno de 1,40%”, afirmou Wilberg.

O diretor de Mercado de Capitais e Infraestrutura do Santander Brasil, Sandro Marcondes, afirma que algumas empresas também estão motivadas pela retomada, uma vez que a imunização provoca maior atividade econômica. “No terceiro trimestre não houve expansão do PIB, mas existe uma retomada em andamento e com a imunização, a expectativa é de que as captações aumentem.” 

Marcondes nota que de fato as empresas antecipam captações que poderiam fazer no ano que vem, dada a perspectiva de maior volatilidade com as eleições. Um dos fatores que impulsionam o volume das operações, segundo Wilberg, é o impacto da inflação nos custos. Com maior gasto de operação, as empresas são obrigadas a levantar mais recursos do que buscariam há alguns meses. 

Apoio

Wilberg cita também que os bancos continuam atuando para dar suporte às emissões de debêntures, mas não com a mesma tônica do ano passado, quando literalmente as empresas dependeram das instituições para emitir esses papéis.

No caso específico do Itaú BBA, Wilberg conta que o banco tem se posicionado para oferecer opções de prazos às empresas emissoras e aos investidores. De um lado, os fundos de investimento buscam mais retorno e, do outro, as empresas também preferem alongar as suas dívidas. 

Segundo ele, o banco tem trabalhado com emissões de dívidas em séries – com prazos diferentes – e acaba ficando com os títulos que têm baixa demanda no mercado. “É uma maneira boa e fungível de acessar mais bolsos”, afirma Wilberg.

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Movida e Suzano realizam emissões no exterior e levantam US$ 800 mi em novos títulos

Empresas inauguram segundo melhor período para captações, com a demanda dos investidores estrangeiros sendo vista como positiva, considerando as turbulências do cenário político brasileiro

Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 05h00

Movida e Suzano inauguram a segunda janela mais movimentada de emissões de títulos de dívida no mercado externo com captações relacionadas ao tema da sustentabilidade. As duas companhias levantaram US$ 300 milhões e US$ 500 milhões, respectivamente. 

A demanda dos investidores estrangeiros foi considerada positiva, dado o ambiente de agravamento da turbulência política, que pesou nos mercados locais acionário, de câmbio e de juros ontem. A Movida registrou em seu livro de ordens um total de US$ 800 milhões, enquanto a Suzano atraiu US$ 3,4 bilhões em interessados.

“A demanda foi elevada, apesar de os indicadores locais mostrarem aversão ao risco para os ativos brasileiros”, afirma o sócio da gestora Octante Capital, Laszlo Lueska. Para ele, o fato de poucas emissões brasileiras terem chegado ao mercado recentemente e de as duas operações terem o apelo da sustentabilidade, além da qualidade das empresas em si, explica o sucesso das operações.

O responsável pela área de mercado de capitais de dívida do Santander Brasil, Matheus Licarião, estima que mais oito operações de emissão de dívida deverão desembarcar no mercado este mês. 

“O número de operações pode chegar a 12, se considerarmos outubro”, diz ele. O executivo do Santander afirma ainda que pelo menos metade das novas emissões terá compromissos de sustentabilidade.

A mais recente emissão externa de títulos de dívida (bonds) feita por empresa brasileira foi da Oi, em julho, no volume de US$ 880 milhões em títulos de cinco anos, com taxa de 8,75%. A captação foi feita pela empresa para pagar compromissos relativos ao processo de recuperação judicial, iniciado em 2016. 

No acumulado do ano de 2021, um total de US$ 14 bilhões em captações foi realizado por empresas brasileiras no exterior.

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