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‘Empresas de tecnologia têm de ser responsáveis’, diz presidente da Microsoft no Brasil

À frente da companhia desde 2019, Tânia Cosentino é uma das poucas mulheres a ocupar o mais alto cargo de uma multinacional no País

Por Andre Jankavski
Atualização:

À frente da operação local da Microsoft desde 2019, Tânia Cosentino faz coro aos que defendem uma regulação mais rígida para o setor de tecnologia. Segundo a executiva, as empresas desse setor se tornaram muito grandes e poderosas de maneira muito rápida, e a discussão é sadia. “Ninguém está falando de bloquear o desenvolvimento econômico, mas essas empresas de tecnologia passaram a ter poderes tão grandes, que precisam crescer com responsabilidade.” 

 Na visão da executiva, a promoção de mulheres a cargos de liderança continua muito lenta. “Espero que não seja um ‘girl-washing’. A diversidade de inclusão precisa ser um ativo do negócio”, afirma. 

 Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Tânia Cosentino, presidente do escritório brasileiro da Microsoft Foto: Daniel Teixeira/ Estadão

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Como a Microsoft está olhando para o País, que passa por uma crise política e econômica? O que você conversa com o Satya Nadella sobre o País?

O que eu digo para o Satya é que o Brasil é o país do futuro e que podemos fazer esse futuro chegar mais rápido com a tecnologia. O Brasil precisa crescer em maior escala. Mas que não seja só em minério e em agro, que são magníficos exemplos. Mas quais são as outras áreas? Precisamos descobri-las. Temos uma diversidade cultural, além de uma biodiversidade muito grande, então precisamos ajudar o Brasil a dar certo. Com a tecnologia, podemos ter ganhos de competitividade, produtividade, aumentar a transparência e combater a corrupção. Podemos simplificar a máquina do governo, dando melhores serviços aos cidadãos. A Microsoft está aqui há 32 anos. Queremos estar presentes para os próximos 50 a 100 anos sendo um ator importante na construção de um futuro sustentável e inclusivo.

Onde estão as maiores oportunidades? Vocês têm apostado mais, inclusive, no setor financeiro com o open banking. 

Bancarizar os desbancarizados é uma super oportunidade. Levamos o auxílio emergencial para 65 milhões de brasileiros através da nossa nuvem e foi uma riqueza de dados incríveis. Isso é uma forma de gerar desenvolvimento econômico e trazer novos serviços por meio da tecnologia. Não existe open banking com inteligência artificial por trás sem uma grande base de dados por trás. Nós não temos o menor interesse em atuar como instituição financeira, mas queremos ajudar a empoderar os novos clientes. O open banking vai criar uma revolução. Olhamos ele com muito com bons olhos e a inteligência artificial vai revolucionar esse mercado. 

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Mas falando em dados e inteligência artificial, como você acompanha as discussões sobre a regulação das big techs? As empresas precisam ser mais reguladas?

É o tipo de debate que os governos e a sociedade precisam ter. Ninguém está falando de bloquear o desenvolvimento econômico, mas as empresas de tecnologia passaram a ter poderes tão grandes que precisam crescer com responsabilidade. Vemos o que está acontecendo nas mídias sociais e eu, como usuária, preciso saber dos riscos. Essa discussão tem de envolver a todos para se definir o que precisa ser regulado, mas sem polarização. 

E como esses temas são tratados dentro da Microsoft?

Temos uma discussão sobre o uso ético da inteligência artificial. A tecnologia empodera, mas pode ser destrutiva. Não é o robô que vai matar o homem, mas o homem que vai destruir o próprio homem. Então, precisamos usar a tecnologia de maneira ética e atuando em conjunto com empresas, academia e governo. Sempre promovemos, por exemplo, a importância da privacidade dos dados e também para criar ferramentas inclusivas. Os algoritmos são programados por humanos, que podem repassar os seus preconceitos. Eles não podem reforçar padrões. 

Você é uma das poucas mulheres no cargo mais alto de uma grande empresa. Como enxerga o andamento da igualdade de gênero? 

A pandemia atrasou ainda mais a busca pela igualdade. Ela está acontecendo, mas em ritmo muito lento. É um movimento que precisamos reverter. Então, fico feliz que mais empresas estão falando de ESG e diversidade, mas precisamos ver mais ações práticas e mudanças reais. Quando vejo que as mulheres têm um porcentual de representação nas lideranças muito parecido desde 2009, não há mudança real. 

Existe uma espécie de “girl-washing”?

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Espero que não seja um “girl-washing”. A diversidade precisa ser um ativo do negócio. As empresas precisam de um ambiente diferente. Ele deve ser diverso e inclusivo e não pode importar origem, histórico ou orientações. Eu vejo uma busca mais ativa de mulheres conselheiras, mas também queremos mais empreendedoras com maior impacto econômico. As mulheres fundadoras de startups não conseguem nem 3% do capital investido em venture capital. Por isso, montamos um fundo de investimento somente para mulheres para dinamizar e criar esse ecossistema. l 

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