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Empresas do Brasil enfrentam crescente desafio com liquidez, diz Moody's

Entre as empresas brasileiras, 33% tinham risco de financiamento em 2015, ante 28% de 2014, segundo relatório da agência

Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2016 | 14h02

SÃO PAULO - A agência de classificação de risco Moody's afirmou que a manutenção da liquidez se tornará um desafio cada vez maior para as empresas do Brasil ao longo do próximo ano, já que a economia do País continuará fraca.

"A contração econômica existente no Brasil deixa os bancos mais cautelosos para emprestar para companhias brasileiras e as preocupações políticas também pesam sobre a confiança do consumidor e das empresas", afirma a agência. "A Moody's espera que a economia do Brasil contraia cerca de 3,5% em 2016, após encolher 4% no ano passado."

Entre as empresas brasileiras, 33% tinham risco de financiamento em 2015, ante 28% de 2014, segundo relatório da Moody's. A agência define que a exposição ao risco para o financiamento é alto quando as fontes de liquidez de uma companhia cobrem menos de 150% dos vencimentos de dívidas ao longo dos próximos 12 meses.

Diante disso, a agência prevê que as companhias sigam conservadoras em seus gastos e controlando custos, com a dinâmica doméstica apontando para "uma perspectiva econômica desafiadora". A Moody's avalia que os setores de petróleo e gás e construção têm alto risco de liquidez, enquanto as de transporte, mídia e telecomunicações, metais e mineração têm risco médio.

América Latina. Ainda segundo a Moody's, empresas do Chile, México, Peru e Argentina também apresentam riscos de liquidez. A desaceleração econômica, a inflação, o câmbio e os baixos preços das commodities são os principais fatores que tendem a dificultar a situação financeira das companhias na região. Os riscos, entretanto, não são os mesmos em todos os casos.

Na Argentina, as empresas estão tomando crédito para financiar suas operações em um ambiente de inflação elevada, o que mantém elevado o risco de liquidez. A desvalorização da moeda local, acrescenta a Moody's, também é um desafio para as companhias argentinas que precisam lidar com dívidas em dólar, ainda que mudanças tenham ocorrido desde a chegada de Maurício Macri à presidência do país, em dezembro passado.

Das 19 empresas argentinas acompanhadas pela agência, 13 apresentavam alto risco de liquidez em 2015, diante do elevado volume de dívidas a vencer até 2017, baixa disponibilidade de caixa e falta de acesso a empréstimos.

"A disponibilidade limitada de financiamento de longo prazo obrigou as companhias argentinas a adotar estratégias de financiamento arriscadas e a incrementar sua dependência de dívida de curto prazo", diz a vice-presidente associada da Moody's, Martina Gallardo Barreyro.

No Peru, o risco de liquidez também segue elevado, ainda que estável, segundo a Moody's. Os baixos preços de commodities e o enfraquecimento da moeda local  contribuem para que 10 das 14 empresas peruanas acompanhadas pela agência sejam classificadas como sendo de alto risco. Ou seja, não possuem recursos suficientes para cobrir suas necessidades nos próximos dois anos. "No geral, as companhias dos setores de agricultura e pesca têm reservas mais debilitadas", observa a agência.

Já as companhias chilenas têm a situação aliviada por sua forte qualidade creditícia, afirma a Moody's. Ainda que grande parte delas não apresentasse, ao fim de 2015, recursos em caixa suficientes para cobrir suas dívidas, gastos operacionais e de capital até o fim de 2017, quase todas contavam com grau de investimento, o que lhes conferia crédito mais barato e acesso aos mercados de capitais e dívida.

"As empresas chilenas tiveram por muito tempo um melhor acesso aos mercados de capitais internacionais que a maioria das companhias não financeiras da América Latina", diz a vice-presidente da Moody's, Barbara Mattos, acrescentando que a perspectiva é de que as companhias no Chile consigam equilibrar caixa ou linhas de crédito comprometidas com as necessidades futuras para pagamento de dívidas.

No México, a maioria das empresas apresenta atualmente baixo ou médio risco de liquidez, segundo a Moody's. Entretanto, os desafios econômicos que o país enfrenta podem dificultar o posicionamento de caixa dessas companhias.

Dentre as empresas que a Moody's acompanha, 81% têm em mãos fundos suficientes para cumprir com seus compromissos até 2017. O número, no entanto, é menor que os 88% vistos em 2014 e, na avaliação da Moody's, a liquidez das companhias deve ficar pressionada até 2017, já que as oportunidades de investimento tendem a ser mais limitadas devido à incerteza no ambiente econômico, à volatilidade cambial, aos fracos preços das commodities e à fragilidade do mercado global

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