Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Empresas fazem até shows para estimular retorno ao escritório

Gigantes da tecnologia oferecem regalias para agradar aos funcionários, mas eles não querem voltar à rotina presencial

The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2022 | 05h00

Quando os funcionários do Google voltaram aos escritórios vazios da empresa neste mês, escutaram que deviam relaxar. O tempo no local de trabalho precisa ser “não apenas produtivo, mas divertido”. Explore um pouco o espaço. Não agende um compromisso atrás do outro.

Além disso, não se esqueça de comparecer ao show privado da Lizzo, uma das maiores estrelas americanas do pop. Se isso não bastasse, a empresa está planejando “eventos temporários” que vão contar com “a dupla favorita de todo os googlers: comida e brindes”.

Mas os funcionários do Google em Boulder, no Colorado, foram lembrados do que estavam abrindo mão quando a empresa os presenteou com mousepads com a imagem de um gato com olhar triste. Abaixo do animal havia um pedido: “Você não vai RTO, vai?”

RTO é a sigla em inglês para “return to office” (voltar para o escritório) e surgiu durante a pandemia. É um reconhecimento de como a covid-19 obrigou as empresas a deixarem as mesas e os prédios de escritórios vazios. A pandemia provou que estar no escritório não significa necessariamente ter maior produtividade, e algumas continuaram a prosperar sem os encontros presenciais.

Agora, depois de dois anos de reuniões virtuais e trocas de mensagens por aplicativo, muitas empresas estão ansiosas para ter os funcionários de volta em suas mesas. Os funcionários, no entanto, não estão tão animados em voltar a fazer deslocamentos matinais, usar banheiros compartilhados e vestir roupas de trabalho que não são tão confortáveis.

Por isso, as empresas de tecnologia com dinheiro para gastar estão recorrendo ao “bonde da diversão”, mesmo deixando claro que retornar ao escritório – pelo menos alguns dias por semana – é obrigatório.

“Essas regalias são um reconhecimento das empresas do quanto estão cientes de que os funcionários não querem voltar, com certeza não com a mesma frequência de antes”, disse Adam Galinsky, professor da escola de negócios da Universidade Columbia. Segundo ele, pelo menos por enquanto, as empresas optam pela recompensa em vez da punição: recompensando os trabalhadores por voltarem ao escritório no lugar de puni-los por ficarem em casa.

DESVANTAGENS

Antes da pandemia, as maiores empresas de tecnologia investiram bilhões de dólares para construir escritórios que são maravilhas da arquitetura. Esses locais, repletos de conveniências e regalias, são uma prova da crença de que a colaboração presencial estimula a criatividade, inspira inovação e transmite um senso comum de propósito.

Mas para muitos que desfrutaram da liberdade de trabalhar remotamente, o retorno ao escritório – por mais extravagante que seja – lembra a sensação de fim de férias e volta às aulas. Poucos estão interessados em trabalhar presencialmente cinco dias por semana de novo.

Nick Bloom, professor de economia da Universidade Stanford que entrevista 5 mil trabalhadores todos os meses, disse que a maioria queria voltar ao escritório duas ou três vezes por semana. Um terço não quer voltar nunca mais.

Só em acabar com o deslocamento para o escritório, disse Bloom, o trabalhador economiza em média uma hora por dia. “Você consegue entender por que os funcionários não vão voltar ao local de trabalho por causa da comida grátis ou da mesa de pingue-pongue”, diz. A principal razão para ir ao escritório, de acordo com as pesquisas, é que os funcionários querem ver os colegas pessoalmente.

Segundo Bloom, o desafio para as empresas é como equilibrar a flexibilidade com uma estratégia mais rígida para obrigá-los a comparecer em dias específicos ao escritório. Ele disse que as empresas devem se concentrar no desenvolvimento da estratégia para o trabalho híbrido, em vez de desperdiçar tempo e esforço com mimos. “Os funcionários não vão voltar ao escritório apenas por causa dos pequenos grandes luxos”, disse./TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

Tudo o que sabemos sobre:
músicatrabalhoGoogleempresa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.