Werther Santana/Estadão
Danesi, da Simpress: empresa vai demitir funcionários que se recusarem a se vacinar Werther Santana/Estadão

Empresas optam por educar funcionários sobre a vacinação em vez de demitir

A demissão é permitida caso o colaborador recuse o imunizante, mas as companhias ainda preferem o diálogo

André Jankavski, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

A discussão em torno da volta aos escritórios ganha mais corpo com o avanço da vacinação. Porém, também cresce o debate a respeito de como as empresas podem cobrar dos funcionários a imunização para que a volta ao trabalho presencial seja segura para todos. A maior parte das companhias se posiciona de maneira mais educacional: querem convencer os seus trabalhadores da importância da vacinação. 

A multinacional de tecnologia Intuit só irá retornar aos trabalhos presenciais quando 70% da população estiver completamente imunizada – ou seja, tenha tomado as duas doses necessárias. Mesmo assim, a companhia está apenas mandando comunicados e mensagens falando sobre vacinação para os funcionários.

“Nossa mentalidade é de não obrigar ninguém a fazer nada. Apoiamos que as pessoas se vacinem e facilitamos para que isso ocorra”, afirma Davi Viana, diretor geral da Intuit no Brasil, que tem mais de 100 colaboradores e está com a sede fechada desde o início da pandemia.

A startup Nuvemshop, que é um marketplace para pequenos e médios varejistas, vai seguir o mesmo caminho. Para Santiago Sosa, presidente da empresa que saiu de 100 pessoas para mais de 600 colaboradores (sendo 300 no Brasil) durante a pandemia, trata-se de uma escolha individual.

“A vacinação é bem importante, e vejo que a maioria vai se proteger para proteger o restante. Mas, como defendo as liberdades individuais, não vamos obrigar. Vamos apenas mostrar os vários benefícios que a vacinação tem”, afirma. Empresas como Ticket e Mercado Livre também seguem esse padrão.

Nos Estados Unidos, onde mais de 70% das pessoas com 12 anos ou mais já se vacinaram, mas que começa a sofrer com a proliferação da variante Delta, um grupo de empresas já determinou a obrigatoriedade da vacina para a equipe. Entre as companhias que podem demitir colaboradores sem vacina estão gigantes como Google, Netflix, McDonald’s, Uber, Apple e Facebook.

Tolerância zero 

A Simpress quer seguir o mesmo caminho. De acordo com o presidente da companhia, Vittorio Danesi, trata-se de uma obrigação dos funcionários. Ele, que pretende que 100% da sua força de trabalho, de 1,9 mil pessoas, já esteja apta a trabalhar presencialmente no fim do ano, diz que será “tolerância zero” com quem não optar por tomar o imunizante.

“A regra é clara desde o início. A Simpress vai ter tolerância zero. O desejo individual não pode prevalecer à saúde do coletivo. Se a pessoa quiser ter um tratamento diferente da ciência e não tomar a vacina, será demitida”, afirma Danesi. 

Juridicamente, os empregadores podem exigir que os funcionários tomem a vacina contra a covid-19. Como a vacinação é uma medida de proteção individual e coletiva ao mesmo tempo, o artigo 158 da CLT afirma que pode haver demissão de justa causa nesses casos. 

“O empregador tem o dever legal de manter um ambiente sadio. A liberdade individual não é absoluta, pois o direito da coletividade se sobrepõe a ela. Entendo que, se existir a recusa do empregado (em vacinar-se) mesmo depois de a empresa fazer um informativo com viés educativo, isso poderá levar à demissão por justa causa”, afirma Leonardo Jubilut, do escritório Jubilut Advogados.

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Mesmo com o avanço da vacinação, o retorno ao escritório é a ‘conta-gotas'

Apesar da vontade das empresas de retornar aos escritórios, as novas cepas do vírus e a demora do País em alcançar a imunização com as duas doses atrasam os planos; em um ponto todos parecem concordar: o modelo híbrido veio para ficar

André Jankavski, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

Nos últimos meses, a vacinação no Brasil se acelerou. Atualmente, mais da metade da população tomou, pelo menos, a primeira dose do imunizante contra a covid-19. Os números de casos e mortes, que ainda estão altos, tiveram redução desde o pico no período entre abril e junho. Mesmo com um cenário mais positivo pela frente, as empresas e os seus funcionários não estão tão animados para voltar ao trabalho presencial: o retorno está sendo a “conta-gotas”. 

 O desejo das companhias em retomar as atividades presenciais, mesmo que de maneira híbrida, é claro. Segundo estudo realizado pela consultoria KPMG no primeiro semestre, 66% das empresas estavam interessadas em voltar ao trabalho presencial ainda em 2021, e os 34% restantes em 2022.

A situação, porém, já mudou desde o levantamento. Agora estamos vendo que está em um patamar de 50% para voltar neste ano e 50% no ano que vem”, afirma Luciene Magalhães, sócia da KPMG. Não por acaso, 74% das empresas ouvidas pela consultoria afirmam que os planos da volta ao trabalho presencial mudaram em algum momento por causa do surgimento de novas cepas. Além disso, a vacinação completa ainda está na casa dos 20%, o que também atrapalha retomada.

A empresa de benefícios Ticket é uma das que estão bem conservadoras com a volta ao escritório. A companhia já possuía um programa de trabalho híbrido – misturando presencial e home office – desde 2018. Mas, com a pandemia, 100% dos funcionários foram para casa e por lá ficaram. Agora, a empresa começa a desenhar um retorno dos 600 colaboradores em três fases. A primeira delas, que deve ocorrer ainda neste ano, contemplará apenas voluntários vacinados e deve alcançar cerca de 10% dos funcionários, sendo que serão dois dias no escritório e três em casa.

Já a segunda terá um aumento considerável, de até 50%, respeitando os protocolos de distanciamento. A terceira fase, que só deve acontecer no ano que vem, terá 100% dos funcionários, mas trabalhando no modelo híbrido. Segundo José Ricardo Amaro, diretor de recursos humanos da Ticket, tudo está sendo feito em contato com os empregados. “E a quantidade de dias trabalhados em casa e no escritório vai variar de área para área”, diz. 

O modelo híbrido é visto tanto por empresas quanto por especialistas como um caminho sem volta. Uma pesquisa realizada pela companhia de coworking WeWork com a consultoria Workplace Intelligence aponta que 53% dos funcionários desejam trabalhar três ou mais dias em casa por semana.

 

O Mercado Livre vai apostar nesse modelo, mas hoje vive uma dualidade. Enquanto há mais de 6 mil colaboradores trabalhando presencialmente nos centros logísticos, a sede, em Osasco (SP), com mais de 33 mil m², está vazia. Nesse segundo caso, mesmo sem prazo para voltar, há uma certeza: o retorno será no esquema híbrido. A empresa criou um comitê para avaliar a volta e definiu que, quando tudo estiver normalizado, 50% da carga horária dos funcionários será de casa e a outra metade, na sede.

“Entre os indicadores que avaliamos para a volta está a evolução dos índices pandêmicos e de vacinação das equipes, acompanhado a partir de um formulário em que o colaborador pode informar se já foi vacinado”, diz Patrícia Monteiro, diretora de pessoas do Mercado Livre no Brasil.

Novatos

Existem os casos de pessoas que foram contratadas durante a pandemia e sequer tiveram contato com os colegas. Beatriz de Oliveira, analista de marketing da startup de entregas Daki, é uma delas. Para ela, seria interessante voltar a trabalhar pelo menos dois dias da semana no escritório. Mas existe um problema: a Daki, que foi fundada em janeiro deste ano e já recebeu um aporte de quase R$ 1 bilhão, sequer tem sede.

De lá para cá, a empresa já contratou 150 pessoas – um número que cresce todos os dias. Segundo Rafael Vasto, presidente da Daki, a maior parte está trabalhando de casa e alguns poucos ficam em salas dentro das “dark stores” (lojas ocultas) que a empresa utiliza como estoque. 

A pandemia fez com que a procura por um escritório central ficasse para depois, mas a empresa já está em busca de espaços que comportem um número ainda maior de funcionários, pois tem mais vagas abertas. “Montar um time e construir uma cultura sem que ninguém se conheça é mais difícil e, agora que a vacinação está andando, estamos pensando em um escritório, que adotará modelo híbrido”, afirma Vasto. 

Saudade do escritório. No entanto, ainda existe uma fatia de 34% que gostaria de trabalhar todos os dias do escritório, seja por falta de estrutura em casa ou por se concentrar melhor no escritório, segundo o estudo da WeWork e da Workplace Intelligence. Esse cenário é cada vez mais distante, mas há empresas que querem 100% da sua força de trabalho em alguns dias da semana. É o caso da Simpress, que faz locação de equipamentos e soluções para gestão de documentos. 

A empresa viu a demanda para seus negócios, especialmente para a locação de computadores e notebooks, disparar durante a pandemia. Com um crescimento de 35% no primeiro semestre, a empresa chegou a faturar R$ 1 bilhão em 2020. 

Para dar conta da demanda, o presidente da empresa, Vittorio Danesi, esperava que essa volta fosse ser mais rápida.

Hoje, o escritório da companhia está completamente vazio. Danesi, porém, espera que até dezembro todos os seus 1,9 mil funcionários estejam vacinados e trabalhando presencialmente de terça a quinta – já segunda e sexta, todos farão home office. A partir de setembro, todos os funcionários que tiverem tomado as duas doses serão convocados a voltar à sede. “Há um desejo grande de as pessoas voltarem ao escritório. O home office não substitui a troca diária que acontece na empresa”, afirma o executivo.

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