Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Empresas 'tech' locais sofrem após abertura de capital e já perdem valor

Entre os negócios que estrearam na Bolsa desde o ano passado, apenas três registram valorização, aponta estudo realizado pela Economatica; empresas do setor de tecnologia já perderam de um quarto a metade de seu valor

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 05h00

“Grandes bolhas acontecem em torno de grandes histórias.” É assim que a gestora Squadra, que ficou conhecida após expor problemas na contabilidade do ressegurador IRB Brasil Re, descreve a situação do setor de tecnologia no País, em um de seus mais recentes relatórios. A gestora aponta que segmentos da moda podem ter gerado excesso de confiança nos investidores. Para a Squadra, aberturas de capital de empresas relativamente novas e pequenas tiveram avaliação de “gente grande”. Agora, a conta começou a chegar.

Há quem já esteja sentindo o baque. A Mosaico, dona do site de busca Buscapé, por exemplo, chegou à Bolsa em fevereiro, avaliada em R$ 2,5 bilhões – e, no pregão de estreia, quase dobrou de valor, para R$ 4,9 bilhões. Sete meses depois, no entanto, a companhia de tecnologia amarga queda de cerca de 40% em relação ao preço do IPO. O presidente da empresa, Maurício Cascão, diz que o mercado brasileiro ainda passará por uma curva de aprendizado sobre o setor. Ele diz que, ao contrário do que mostra o preço de seus papéis, a empresa está em rota de crescimento.

O caso não é isolado. Levantamento da Economatica, a pedido do Estadão, mostra que apenas três empresas do setor de tecnologia que abriram capital desde o ano passado registram valorização até o momento. Os destaques são a Locaweb, que registra alta de mais de 800% desde fevereiro de 2020, e a companhia de cashback Méliuz, com valorização de quase 400% desde o IPO. 

No entanto, a maior parte da companhias já perdeu pelo menos um quarto e, muita vezes, a metade de seu valor desde a estreia na B3. É o caso da plataforma de contratação de serviços GetNinjas, que recua 27% desde sua abertura de capital. Já o brechó online Enjoei perdeu mais do que 50% de seu valor, mesma situação de companhias como Mobly e Westwing. Procuradas, essas últimas três empresas não concederam entrevista.

 


Para bancos de investimento e gestores consultados pela reportagem, parte da queda reflete a troca de posições das carteiras por investidores diante da maior aversão ao risco do mercado, tendo em vista o contexto político e econômico no Brasil. Aliado a isso, o cenário de aumento de juros e de inflação amplia ainda mais a pressão sobre empresas que precisam de capital para garantir um elevado grau de crescimento, característica inerente às startups.

Fermento na massa

O fundador da gestora KPTL, especializada em investimentos no setor de tecnologia, Renato Ramalho, pondera que o baque no preço das ações não ocorreu apenas no setor “tech”, mas afetou também outros segmentos. 

Em relação às empresas de tecnologia, Ramalho acredita que haverá um aprendizado, para que os negócios cheguem mais maduros ao IPO. O gestor lembra que os investidores de tecnologia entendem que muitas vezes o lucro pode demorar, mas esperam sinais que apontem nessa direção. 

Já o sócio da Spiralem e especialista no setor de tecnologia Bruno Diniz afirma que as aquisições são um dos pilares das empresas de tecnologia para o ganho de escala rápido. Segundo ele, apesar de investidores estarem trocando posições nesse momento de mais volatilidade, em busca de companhias mais tradicionais, a Bolsa vai seguir mudando seu perfil. Logo, as empresas de tecnologia deverão ganhar espaço dentro da B3 no médio e longo prazos. 

Nesse sentido, o movimento da Locaweb tem saltado aos olhos – ela já fez onze aquisições em um ano e meio. Já a Méliuz, que nasceu como uma empresa de “cashback”, mas vem se expandindo para outras áreas, já fez cinco aquisições só neste ano.

Novos sócios

Enquanto boa parte do mercado castiga as ações das empresas de tecnologia que chegaram recentemente ao mercado, há quem olhe para esses ativos como uma oportunidade. Na visão da analista de varejo da XP, Danniela Eiger, que acompanha as ações de Mosaico, Enjoei e Westwing, em um cenário de alta de juros é natural que negócios que precisam crescer antes de começar a dar lucro sofram mais. “Esse fato comprime o valor dessas empresas.”

No entanto, há quem aproveite o momento de pressão para apostar nesses negócios e adquirir papéis com valores mais em conta. O BTG Pactual comprou ações da Mosaico e, hoje, já detém 13,3% da companhia, direta e indiretamente. Já o fundo Dynamo ampliou a posição na Enjoei, da qual hoje detém 5,07%.

Veja os planos das empresas de tecnologia que abriram capital na Bolsa:

Méliuz: Ampliação do leque de serviços

Em questão de retorno ao acionista, a plataforma de cashback e cupons de desconto Méliuz é uma das exceções entre as empresas novatas de tecnologia que estrearam na Bolsa. Desde o IPO, em novembro do ano passado, as ações da empresa já subiram mais de 300%. O ritmo acelerado de alta fez com que a empresa fosse ao mercado para mais uma oferta de ações. O follow-on da empresa, no mês passado, chegou a R$ 1 bilhão, sendo R$ 427 milhões diretamente para o caixa da Méliuz.

A meta, agora, é se tornar mais uma opção de banco digital no mercado. Mas de um jeito diferente. Segundo Israel Salmen, presidente da empresa, o foco da companhia será continuar sendo um parceiro dos varejistas, levando tráfego e vendas para eles em troca de pequenos porcentuais nas vendas. Mas, agora, a Méliuz também quer faturar com outros produtos, como o cartão de crédito, que está prestes a ser lançado. “Já estamos trabalhando em um novo aplicativo para, em janeiro de 2022, oferecer aos nossos usuários novos serviços financeiros, com uma carteira completa de conta digital”, diz ele.

Não por acaso, a companhia fez a sua maior aquisição em maio, quando pagou R$ 324 milhões pela Acesso Bank. A plataforma da fintech já oferece conta digital e a ideia é atrair os clientes por meio do serviço de cashback, que gera mais engajamento daqueles usuários que procuram economizar em suas compras.

Mais recentemente, em julho, a empresa adquiriu a Alter, que é uma empresa especializada na negociação de criptoativos, além de fornecer o serviço de uma carteira de criptomoedas com a integração de uma conta digital. No total, foram cinco aquisições desde a abertura de capital.

GetNinjas: Fundos do IPO apoiam o negócio

Comemorando seu décimo aniversário em 2021, mesmo ano em que abriu capital, a GetNinjas reúne as duas pontas para uma prestação de serviços – os prestadores e os clientes. Para Eduardo L’Hotellier, fundador e presidente da startup, a pandemia ajudou a acelerar o crescimento e pavimentou o hábito de que tudo pode ser contratado pela internet, de encanador a pintor, passando por um advogado e um assessor de investimento.

Essa oferta ampla, segundo L’Hotellier, ajuda a dar força ao GetNinjas. De acordo com o executivo, o movimento de queda dos ativos de tecnologia negociados na B3 foi exagerado, apesar da volatilidade ser esperada. “Temos uma possibilidade de crescimento muito grande e muitos investidores querem ter mais opções para investir.” Segundo ele, os fundos que ajudaram a ancorar o IPO (oferta inicial de ações) seguem com a empresa, apostando em sua tese de crescimento. 

Mosaico: Aposta na força do Buscapé

A Mosaico vai apostar suas fichas no site Buscapé para acelerar sua expansão. A mudança da marca ocorrerá ainda em setembro, diz o presidente da empresa, Maurício Cascão, que assumiu o cargo recentemente, depois de quase dez anos na Mandic. “A decisão foi feita para facilitar nosso engajamento”, comenta o executivo. Além do Buscapé, a Mosaico é dona dos sites Bondfaro e Zoom, que continuam operando em paralelo.

Dentro dessa estratégia, a companhia está lançando seu cartão de crédito para completar o ecossistema para a jornada de compra do cliente, mas Cascão aponta que a ideia não é se aproximar de uma fintech, mas apenas de ajudar na “jornada de compra”.

Apesar de o Buscapé ser muito conhecido pelo seu comparador de preço, Cascão lembra que a plataforma é focada em conteúdo para ajudar o consumidor a fazer escolhas. 

Depois que a decisão é tomada, o comparador não leva em conta apenas o preço, mas também outros incentivos, como cashback, cupons de desconto e, por fim, frete. Dependendo do varejista, a compra poderá ser efetivada no próprio Buscapé.

O crescimento orgânico, na avaliação do executivo, é a forma que mais extrai valor para os acionistas, mas o crescimento por meio de aquisições vai acontecer. Capitalizada após o IPO, uma aquisição já foi anunciada e há outros ativos em análise – e algo deverá ser anunciado ainda neste ano.

Sobre a recente queda do setor, Cascão afirma que a empresa está inserida em uma nova classe de ativos na B3 e que haverá uma curva de aprendizado. Uma das tarefas, segundo ele, será o de manter uma maior comunicação com todo o mercado para ajudar nesse processo de maior conhecimento do setor “tech”. /COLABOROU ANDRÉ JANKAVSKI

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