Divulgação/B3
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Empresas de tecnologia esvaziam os bolsos para enfrentar concorrência e cumprir promessas

Despesas com marketing, concorrência crescente e alta no custo de aquisição de clientes levam as companhias brasileiras do ramo de tecnologia a gastar mais para alavancar negócios

Elisa Calmon, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2022 | 12h30

O aumento de despesas pesou nos balanços divulgados recentemente pelas empresas de tecnologia, com destaque para gastos com marketing, pessoal e aquisições. As companhias do setor precisaram esvaziar os bolsos para enfrentar a concorrência e entregar os resultados que prometeram na época de suas aberturas de capital, quando o cenário macroeconômico era mais ameno, segundo especialistas ouvidos pelo Broadcast.

No caso do Méliuz, especializada em cashback, as despesas operacionais cresceram 242% no acumulado de 2021 ante o ano anterior. Os gastos com marketing, por sua vez, saltaram 482% na mesma base comparativa, para R$ 47,2 milhões. Já os custos com cashback chegaram a R$ 140,5 milhões entre janeiro e dezembro do ano passado, alta anual de 137%.

Para o fundador da consultoria Varese Retail, Alberto Serrentino, a maior concorrência contribui para esse cenário, visto também entre outros representantes do setor de tecnologia listados na Bolsa. "Existe um grande congestionamento de marketplace e de plataformas disputando clientes, tráfego, recorrência e crescimento acelerado. Isso pressiona as despesas e a lucratividade no curto prazo”, afirma.

Serrentino explica que para se destacar, as empresas têm apostado em alavancas de marketing ou concessões que trazem volume e cliente de forma acelerada. Frete grátis e parcelamento subsidiado são exemplos, assim como o cashback, voltado para recorrência. O contexto leva ainda a um aumento da competição das ferramentas de anúncios para vendas digitais, como Google, Facebook e Tik Tok. “O modelo de mídia online é leilão. Quanto maior a demanda, mais o preço  inflaciona”, comenta.

A elevação dos custos de clique (CPC) e custos por impressão (CPM) nas principais plataformas de anúncio online foi destacado no release de resultados do GetNinjas. Os investimentos em marketing da companhia cresceram 240% em 2021 ante 2020, para R$ 62,13 milhões. Nos últimos três meses do ano passado, o crescimento foi de 306%.

A Enjoei dobrou o número de investimento com marketing no quarto trimestre de 2021, chegando a R$ 20,5 milhões. O avanço do volume de incentivos oferecidos em 2021 está relacionado ao esforço de aquisição de usuários, aceleração do valor total em mercadorias vendidas e aumento de liquidez na plataforma, segundo o release de resultados.

“Em um cenário onde os custos de aquisição apresentaram desafios… o direcionamento colocado em prática logo no início do ano foi admitir um menor patamar na rentabilidade no curto prazo, para sustentar bons índices de liquidez, enquanto continuamos a acelerar a base de compradores ativos, aumentando sua frequência de compra”, diz o texto.

A Locaweb também praticamente duplicou os gastos com marketing. Em 2021, foram R$ 162,6 milhões ante R$ 82,2 milhões no ano anterior. No trimestre, o crescimento foi de 128%, somando R$ 55,1 milhões.

Pessoal e aquisições

O capital voltado para fusões e aquisições também pesou nos bolsos das techs. A Locaweb, por exemplo, informou que a despesa financeira foi “bastante impactada pelo efeito do ajuste a valor presente dos “earnouts” das aquisições recentes, que no trimestre somou R$ 15,9 milhões comparado a R$ 2,3 milhões no mesmo período do ano anterior”.

Já o Méliuz gastou R$ 24,9 milhões com serviços de terceiros, alta de 909% em relação a 2020. “Esse aumento é principalmente reflexo das despesas extraordinárias no valor de R$ 9,8 milhões, referentes às seis aquisições realizadas ao longo do ano”, afirma a empresa. O custo de pessoal também entra na conta depois de saltar de R$ 18,4 mi em 2020 para R$ 67 mi em 2021,  264% a mais.

Na mesma linha, o GetNinjas divulgou que as despesas gerais e administrativas aumentaram 95% e 128% no trimestre e ano, respectivamente, refletindo em parte o aumento no quadro de colaboradores de 136 no final de 2020 para 237 em dezembro do ano seguinte.

Choque de realidade

O CEO do GetNinjas, Eduardo L'Hotellier, acredita que o mercado deu um recado “muito duro” às empresas de tecnologia, considerando o desempenho dos papéis na B3 nos últimos meses. “O momento é de fazer as contas para ajustar a estratégia de crescimento e atender às expectativas dos investidores', disse em entrevista ao Broadcast'. O executivo destacou que a escalada dos juros e inflação têm penalizado os nomes do segmento.

As empresas techs vivem agora um choque de realidade, avalia o sócio da Levante Ideias de Investimento, Enrico Cozzolino. "Na época de seus IPOs, elas projetaram modelos de negócios em mundo diferente. Agora, precisam gastar muito mais para receitar o que foi prometido”, afirma. Para ele, o cenário do mundo ideal não se confirmou à medida que a situação macroeconômica piorou, levando à migração de capital para outros setores.

De olho nesse cenário, os planos do Méliuz para 2022 incluem manter a disciplina na alocação de capital, preservando a liquidez e atuando em novas contratação de forma mais pontual. "Estamos em um ciclo de evolução. O ano passado foi muito importante, porque o que tivemos de gastos foi para ampliar nossa base de clientes e o engajamento ", afirmou o diretor de relações com investidores e CFO, Luciano Valle, em entrevista ao Broadcast.

No caso do Enjoei, o foco para este ano é gestão de custos, nível de serviço, tracking 2.0 e inovação nos modelos logísticos. Enquanto isso, a Locaweb, estima que neste ano as margens orgânicas devem seguir próximas aos níveis observados no terceiro e quarto trimestres de 2021. Mas projeta um início de recuperação das margens a partir dos últimos três meses de 2022, quando quando parte dos investimentos realizados em P&D (pesquisa e desenvolvimento) começa a ser diluído com alavancagem operacional do segmento.

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