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Uma das principais promessas da nanotecnologia é a precisão inédita no tratamento de doenças graves

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 03h00

Quando uma nova área do conhecimento humano começa a tomar forma e a potencialmente impactar a vida da população, é necessário que perguntas a respeito da segurança e dos riscos da nova tecnologia sejam endereçadas com o máximo de cuidado. A nanotecnologia, com capacidade de impactar múltiplas indústrias, já está presente em diversos tipos de produtos - de circuitos integrados a próteses, de tintas a embalagens, de fertilizantes a tecidos - com novas aplicações em estudo diariamente. Nanopartículas de ouro, prata, dióxido de titânio e de silício já podem ser encontradas em cosméticos, produtos ortodônticos e óleos lubrificantes. Em outubro de 2017, um grupo de trabalho da StatNano - entidade apoiada pelo Conselho Iraniano de Iniciativa em Nanotecnologia - publicou um trabalho levando em consideração mais de sete mil produtos de base nanotecnológica já disponíveis globalmente. Trata-se de uma área onde novas carreiras e especializações devem se multiplicar, em um mercado de trabalho que irá sofrer substanciais mudanças nas próximas décadas.

Os riscos para saúde e para o ambiente são temas críticos no desenvolvimento de produtos que utilizam esta nova tecnologia - até porque, conforme vimos semana passada, o comportamento dos elementos na escala nanométrica pode diferir significativamente de seu comportamento nas dimensões usuais. Além disso, em função de seu tamanho, nanomateriais podem ser absorvidos pelo organismo rapidamente - algo que nem sempre pode ser desejável, causando impactos nos processos digestivos, circulatórios e outros - além de possíveis impactos no próprio meio ambiente. Entretanto, os benefícios da tecnologia parecem compensar amplamente seus riscos: a Medicina é um dos campos mais promissores para o uso da nanotecnologia, com inovações aplicadas a sensores, exames de imagens e liberação específica de remédios no organismo de pacientes com doenças graves.

O tratamento do câncer envolve, com frequência, o uso de técnicas como a quimioterapia e a radioterapia, que podem apresentar efeitos colaterais extremamente nocivos. É comum que não apenas o tumor que precisa ser eliminado seja afetado pelo procedimento, mas células saudáveis também. Com as pesquisas em andamento e o uso de nanopartículas (baseadas em lipídios ou polímeros), torna-se possível atingir especificamente as células doentes - reduzindo ou até mesmo eliminando os efeitos adversos da medicação. Tipicamente as nanopartículas são equipadas com o remédio a ser administrado e um agente que identifica a superfície do tumor a ser atacado. Graças ao seu tamanho, conseguem penetrar pelas paredes dos vasos sanguíneos, liberando a medicação diretamente no interior do tumor. Cientistas seguem buscando o aperfeiçoamento deste e de outros métodos, que prometem avançar significativamente a qualidade dos tratamentos existentes.

O uso de nanomateriais também está sendo explorado para criação de sistemas de filtragem mais baratos e eficientes. Segundo relatório da Organização Mundial de Saúde (WHO - World Health Organization) atualizado em julho de 2017, quase 850 milhões de pessoas não têm acesso à água potável, e pelo menos dois bilhões de pessoas utilizam água contaminada - responsável por meio milhão de mortes anualmente. Ainda de acordo com o relatório, em menos de dez anos cerca de metade da população mundial estará vivendo em regiões com escassez de água. Diante deste quadro, e a exemplo do que já discutimos quando falamos de agrotech, é imperativo utilizar a tecnologia para solucionar este tipo de problema.

De fato, nanomembranas baseadas em carbono para dessalinizar e purificar a água já existem, e sensores nanométricos podem detectar a presença de bactérias ou agentes tóxicos. Elementos como o dióxido de titânio - presente em filtros solares, por exemplo - já demonstraram a capacidade de neutralizar bactérias como a escherichia coli, encontrada no intestino de vários tipos de animais. 

Mas isso não é tudo. Outro desafio de grande porte que a nanotecnologia está endereçando é a necessidade crescente de energia em demanda pela sociedade - e será este nosso assunto da próxima semana. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

 

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